sábado, 24 de outubro de 2026

O que fica, depois que tudo passa

Muitos dias ao acordar tenho a sensação de que o mundo anda depressa demais para o meu passo. Não é cansaço, nem desistência, é apenas a consciência tranquila, por já ter vivido o suficiente para saber que a pressa raramente leva a algum lugar que valha a pena.
Então deixo-me ficar um pouco mais, sentado à beira da manhã, a ouvir o silêncio como quem escuta um velho amigo.
O silêncio tem uma maneira curiosa de nos devolver ao essencial. Não nos pergunta nada, não nos exige nada, não nos julga. Apenas nos acompanha. E, nesse acompanhamento discreto, revela coisas que o ruído esconde: a memória do que fomos, a verdade do que somos, a esperança do que ainda podemos ser.
Às vezes, enquanto me entretenho pelo quintal reparo como a luz se espalha pelos canchos Tapada da Rabela ali ao lado. Há nessa luz uma sabedoria que não se aprende nos livros, aprende-se vivendo e percebendo como os canchos nunca discutem com o tempo, aceitam-no.
Guardam passos, guardam vozes, guardam segredos que ninguém contou e permanecem firmes, como se soubessem que a sua permanência ali é uma forma de coragem.
Penso então na vida, na minha e na de tantos que passaram por mim. Penso nos gestos pequenos que sustentaram dias inteiros: aquela mão que segurou outra, o nosso pão dividido por seis à volta da mesa, aquela palavra dita na hora certa, aquele silêncio que evitou uma ferida.
A grandeza humana raramente se mostra em feitos grandiosos, revela-se nos detalhes que quase ninguém vê.
Por isso gosto tanto de escrever. Porque escrever é recolher todos esses detalhes antes que o tempo os leve. É guardar o que fica, quando tudo passa. É acender uma luz dentro da memória para que ela não se apague. É dizer ao mundo, com a serenidade de quem já viu muito, que ainda há beleza, ainda há bondade, ainda há gestos que salvam.
O futuro pode ser incerto, pode ser sombrio, pode ser barulhento. Mas enquanto houver alguém disposto a escutar o silêncio, a repartir o pouco que tem, a lembrar o que importa, então ainda não estamos perdidos.
Já velho como estes canchos da minha terra, eu continuo a acreditar que a vida vale a pena quando é vivida com verdade.
Ainda que o mundo corra, ainda que o tempo aperte, ainda que a noite demore, há sempre um lugar dentro de nós onde a memória resiste.
Tenham um excelente sábado e fim-de-semana, pessoal.

O mesmo "sim"

H á lugares que pertencem aos mapas. E há lugares que pertencem ao coração. A ponte da Rua 16 de Julho, sobre o Ribeiro da Cavalinha, na min...