Nunca foi, nem
alguma vez será, a ânsia de reconhecimento ou de recompensas que me move. As
palavras que escrevo, os gestos que pratico e o empenho que coloco em cada ação
têm origem, unicamente, no amor profundo e incondicional pela terra que me viu
nascer, pela gente que nela habita e pelas tradições que nos moldam a
identidade.
O pulsar desta
terra ecoa em mim como herança de gerações, como marca indelével de um passado
que insiste em permanecer vivo, mesmo quando tantos parecem esquecer-lhe o
valor. Defendo, com toda a força do meu ser, os usos e costumes que nos
distinguem do resto do mundo, ciente de que neles reside a nossa essência e a
memória dos que vieram antes de nós.
Não procuro
aplausos, nem medalhas, nem palavras de louvor. O que busco é a certeza de que,
graças ao esforço de quem ainda sente, de quem ainda resiste ao esquecimento,
conseguiremos preservar o que é nosso, impedindo que se dilua no marasmo do
desinteresse ou na indiferença de quem tem o dever de proteger o nosso
património coletivo.
Cada tradição é uma
chama acesa no coração da comunidade; cada costume, uma ponte entre o ontem e o
amanhã. Amo profundamente os pequenos gestos, as festas antigas, as lendas
sussurradas ao cair da noite, os sabores herdados de mãos calejadas pelo tempo.
Amo cada rosto, cada história, cada silêncio tecido de cumplicidade entre
vizinhos e familiares.
Por isso luto com
unhas e dentes não por vaidade, mas por responsabilidade. Porque sei que o
abandono cultural é uma ferida aberta que só sarará se todos nos unirmos, se
todos reconhecermos, finalmente, que aquilo que herdámos não tem preço e merece
ser perpetuado.
Que nunca nos falte
coragem para honrar o que somos. Que nunca nos resignemos ao esquecimento.
Enquanto houver memória, amor e vontade de a defender, a nossa terra e a nossa
gente não se perderão.
Porque, apesar das
adversidades, o interior do nosso país não é um espaço sem futuro. Em várias
regiões têm surgido exemplos de inovação e dinamismo com pessoas e coletivos a
apostarem em projetos de valorização do património natural e cultural, agricultura
biológica, turismo rural e digitalização de serviços. O regresso de jovens
qualificados, motivados por novas formas de vida e trabalho, trouxe alguma
esperança de revitalização. O teletrabalho, impulsionado pela pandemia,
revelou-se uma oportunidade para quem procura qualidade de vida e
tranquilidade, sem abdicar da atividade profissional.
No entanto, estas
experiências, por mais inspiradoras que sejam, não substituem o papel do Estado
e das políticas públicas na inversão de décadas de abandono. É fundamental
apostar numa discriminação positiva a favor do interior, com incentivos
fiscais, investimento em infraestruturas, reforço dos serviços públicos e apoio
à inovação local. O acesso à internet de alta velocidade, a reabilitação de
imóveis devolutos, a promoção de atividades culturais descentralizadas e o
apoio aos pequenos produtores são algumas das medidas indispensáveis para
tornar o interior habitável e atrativo.
Persistir no
interior é uma escolha marcada por desafios diários, mas também por um sentido
profundo de pertença e de missão. A quem vive longe dos grandes centros, resta
a esperança de que o país, enquanto coletivo, compreenda finalmente que a
coesão territorial é fundamental para o desenvolvimento sustentado e para a
justiça social. O abandono sistemático do interior não é inevitável. Requer
vontade política, visão estratégica e, sobretudo, um reconhecimento do valor do
interior, não apenas como “reserva” de tradições, mas como espaço de criação de
futuro.
As histórias de
quem fica, são, afinal, histórias de resistência, coragem e amor à terra.
Cabe à sociedade,
como um todo, dar visibilidade a estas vidas, apoiar as suas lutas e garantir
que Portugal não se transforme num país de costas voltadas para si próprio.
Porque enquanto houver quem insista em continuar a viver cá, haverá sempre
esperança para o interior.
José Coelho
