Hoje, ao reler um texto que escrevi há anos sobre a minha terra, percebi que aquele texto já não me representa por inteiro. Continuo a ser o mesmo homem que cresceu entre campos, ribeiros e canchos, mas o meu olhar mudou. Onde antes via sobretudo silêncio e ausência, hoje reconheço também caminho percorrido, obra feita e vida que ainda merece ser saboreada com calma e alegria.
A pobreza e as dificuldades marcavam quase todas as famílias rurais da aldeia, é verdade. Na minha, porém, vivíamos com serenidade. O dia começava antes do sol nascer e terminava já noite cerrada, à luz do candeeiro a petróleo, com uma sopa de legumes feita no lume de chão. Era uma existência de trabalho duro e poucas distrações, mas havia nela uma paz discreta, própria de quem aceita o que a vida oferece sem se queixar demasiado.
Desde cedo encontrei refúgio nos livros. Ler foi sempre o meu entretenimento favorito. No bornal da merenda levava invariavelmente um livro, grande ou pequeno, para aproveitar as horas de descanso. Não sei quantos já li; serão certamente milhares. Em casa, a biblioteca continua a crescer, como se cada volume fosse mais um tijolo invisível na construção da pessoa que sou. Os livros acompanharam-me em todas as fases da vida, foram companhia fiel quando eu preferia o recolhimento aos aglomerados, festas, cafés ou bares. Com eles aprendi que não há solidão absoluta enquanto houver uma história por abrir.
Mas se não sou solitário, aprecio profundamente a solidão. Gosto da paz que ela me traz ao caminhar pelos campos, sentir a brisa no rosto, sentar-me num cancho a contemplar o horizonte e a escutar o canto dos pássaros. A fonte da Murta, os ribeiros da Cavalinha, das Águas, da Cabeçuda, o rio Sever, todos esses lugares fazem parte de mim desde a infância. São a geografia do meu coração. Antigamente percorria esses recantos sozinho ou acompanhado pelos meus cães; hoje, a idade aconselha prudência e já não vou sem companhia por esses ermos. O mato cresceu, o silêncio adensou-se, os animais selvagens aparecem onde antes havia gente. O mundo mudou, e eu mudei com ele.
Durante muito tempo, esse silêncio novo pesou-me. O que antes era sossego de campo começou a parecer ausência de vida. Reconstruí a casa onde nasci e rebatizei-a como Toca dos Coelhos com a intenção de aqui terminar os meus dias. Foi o nosso maior empenho: todas as poupanças, subsídios de férias e de Natal iam para tijolos, areia, cimento, mosaicos e pedreiros. Não fazíamos férias, nem viagens, nem praia, porque só queríamos pedir ao banco o estritamente necessário. Lembro-me de um funcionário da Caixa Geral de Depósitos me sugerir que pedisse mais uns milhares de escudos para, depois de construir a garagem, comprar um carro novo para meter lá dentro. E eu fui perentório: primeiro a casa, o abrigo; depois se veria o resto.
Hoje, tantos anos passados, a casa está paga, e não um, mas dois automóveis modestos foram comprados com 0 km e pagos com esforço honrado – primeiro o Opel Corsa a gasóleo, depois o Citroën C3. E, com tudo isso resolvido, percebo que chegou a hora de viver esta etapa da vida com outra qualidade. Não se trata de esbanjar, porque não somos assim, mas de cuidar um pouco mais de nós os dois, eu e a Maria Manuela, sem o peso constante do sacrifício como única forma de estar no mundo.
Fazemos aquilo que em tempos parecia um luxo distante: viajamos. Fomos ao México, à República Dominicana, aos Açores, à Madeira, a Itália, à Suíça, a Espanha, e já estamos a tratar do novo destino para 2027. Aos domingos vamos almoçar fora, juntamo-nos aos filhos para as nossas festas familiares, ora em nossa casa, ora nas casas deles, mas descobrimos que o mundo é maior do que a aldeia, apesar de ela continuar a ser o nosso porto de abrigo. Podemos partir, ver outras paisagens, ouvir outras línguas, provar outros sabores, e, ainda assim, o coração regressa sempre à Beirã, à Toca dos Coelhos.
Os filhos serão os herdeiros deste casarão que provavelmente, vale uns bons milhares de euros. É deles. Façam com ele o que quiserem quando chegar a sua vez de decidir. A nós coube-nos o papel de o erguer, de o encher de vida, de o transformar em casa de família. Agora o que nos cabe é viver com alguma leveza, sem dramatizar, sem transformar cada mudança em tragédia.
O futuro, esse, a Deus pertence.
Já não sinto, como antes, que tenha de fugir da Beirã para ser feliz. O que me doía não era a terra, era o peso das ausências, o eco das vozes que já não se ouvem, o contraste entre o passado cheio de gente e o presente mais silencioso. Hoje compreendo que posso amar a minha terra e, ao mesmo tempo, aceitar que ela mudou. Posso sentir saudade do bulício antigo das luzes nas janelas, dos gritos das crianças, do cheiro dos jantares, do fumo nas chaminés, sem deixar que essa nostalgia me roube a alegria de estar vivo.
E esta foto da Mariana, aos doze anos, diante do bolo azul salpicado de estrelas, é talvez o melhor símbolo deste meu sentir de hoje. Ela representa o futuro, a continuidade, a vida que segue. Enquanto houver netos a soprar velas, filhos a entrar e sair da Toca dos Coelhos, mesas postas para almoços de domingo, viagens planeadas com entusiasmo e regressos feitos com gosto, a Beirã não será apenas um lugar de silêncio: será o cenário de uma história que ainda está a ser escrita.
Esta reflexão já não é o lamento de quem se sente preso entre razão e coração, sem saber se há de ficar ou partir. É antes o retrato de alguém que reconhece o apego ao lugar onde cresceu, mas que aprendeu a olhar para a própria vida com mais lucidez e menos dramatização. Continuo a amar a minha terra, continuo a sentir o peso das mudanças e da solidão em certos dias, mas sei que posso encontrar paz aqui, na Toca dos Coelhos, ou em qualquer outro lugar onde esteja com aqueles que amo.
Hoje já não digo que quero ir embora. Digo, com serenidade, que quero viver bem o tempo que me resta, com a Maria Manuela ao meu lado, os filhos e netas por perto, os livros ainda a fazer companhia, as viagens a abrir horizontes e a Beirã a permanecer, teimosa e fiel, como o lugar onde tudo começou e onde, tantas vezes, havemos de regressar.
