sábado, 17 de outubro de 2026

A casa que me ensinou a ficar

Durante muitos anos achei que a felicidade estava sempre um pouco mais longe. Longe da aldeia, longe do silêncio, longe das memórias que pesavam. Era como se a casa onde nasci fosse apenas o ponto de partida e nunca o lugar de chegada.
Mas um dia, sem aviso, percebi que a casa não era obstáculo. Era destino.
A Toca dos Coelhos não nasceu pronta. Nasceu de esforço, de poupanças contadas, de tijolos pagos um a um, de noites a imaginar como seria o futuro dentro daquelas paredes.
Nasceu da teimosia de quem acredita que um telhado é mais importante do que um carro novo, mais importante do que umas férias na praia, mais importante do que qualquer outro luxo.
E quando finalmente ficou pronta, eu ainda não estava.
Mas a casa esperou por mim. Esperou que eu crescesse, que eu perdesse, que eu ganhasse, que eu mudasse. Esperou que eu aprendesse a olhar para ela não como construção, mas como raiz.
Hoje sei que foi esta casa que me ensinou a ficar. A ficar sem medo. A ficar sem ressentimento. A ficar com serenidade.
Ficar não é desistir, é escolher. Escolher o lugar onde a alma repousa. Escolher o chão que conhece o peso dos meus passos. Escolher o silêncio que já não dói.

José Coelho