Há dias em que a simplicidade me chama como quem chama um velho amigo. Não é uma voz, não é um gesto, é uma espécie de claridade que se instala dentro de mim e me diz que não preciso de mais nada além do que já tenho.
Acordo e sinto que o mundo está menos complicado. O café sabe ao que deve saber. O pão tem o peso certo na mão. A casa não exige nada de mim, apenas presença.
Saio para o quintal e vejo as plantas como quem vê pessoas. Cada uma com o seu ritmo, cada uma com a sua teimosia, cada uma com a sua maneira de pedir água. E enquanto rego, percebo que a vida é isto: cuidar do que cresce, aceitar o que não cresce, agradecer o que insiste em ficar.
A simplicidade não é pobreza, é riqueza sem barulho. É saber que o essencial cabe numa manhã. É perceber que a felicidade não está nos grandes acontecimentos, mas nos pequenos instantes que ninguém fotografa.
Ao longo do dia, o mundo tenta complicar-me. Telefonemas, notícias, preocupações que chegam sem serem convidadas. Mas há dias em que eu digo não. Não à pressa. Não ao ruído. Não ao excesso.
E nesse não, encontro um sim maior: o sim à vida que se vive devagar, o sim ao que realmente importa, o sim ao que me devolve ao meu centro.
Quando o dia me ensina a ser simples, eu aprendo. E aprendo sempre a mesma lição: a paz não está longe, está aqui, ao alcance da mão, dentro da casa, dentro da aldeia, dentro de mim.
José Coelho
