Nunca houve tanta liberdade de expressão e nunca houve tanto medo de falar. As pessoas têm medo de errar, medo de serem mal interpretadas, medo de serem julgadas, medo de serem canceladas, medo de serem diferentes.
Vivemos numa época em que todos opinam, mas poucos pensam. E pensar – pensar de verdade – implica coragem. Coragem para discordar. Coragem para mudar de opinião. Coragem para admitir que não sabemos. Coragem para dizer o que sentimos sem pedir licença.
O medo cala-nos. E quando nos calamos, deixamos que outros falem por nós.
A liberdade não é só poder falar. É poder falar com autenticidade, mesmo quando isso incomoda. E talvez seja isso que o mundo mais precisa: menos frases perfeitas e mais verdades imperfeitas.
Foi exatamente por não ter medo de falar e de me colocar ao lado da justiça há cinquenta anos, quando foram criadas as condições para que todos os trabalhadores por conta de outrem tivessem acesso aos abonos de família para os filhos menores, e os mais velhos tivessem direito a uma pensão vitalícia de reforma, que fui “castigado” com a recusa de ofertas de trabalho na minha terra e por isso tive de “emigrar” para os confins da Beira Baixa.
Porém – e porque Deus escreve direito por linhas tortas – esse “castigo” revelou-se uma bênção.
Fui acolhido, estimado e respeitado não só pelos mineiros, mas também pelas suas famílias, que escancararam as portas de suas casas para me ajudarem em tudo o que me fazia falta. Além disso, o vencimento mensal, apesar da dureza e da perigosidade daquela nobre profissão, quase triplicou face ao praticado na minha terra à época.
Foram os anos mais prósperos e saudosos da minha vida.
E é por isso que, quando hoje penso no medo de dizermos o que pensamos, lembro-me que a verdade tem preço, mas também tem recompensa. E que, às vezes, o caminho que parece castigo, é afinal o trilho que nos leva ao melhor de nós.
Bom Domingo, pessoal.
