sábado, 3 de outubro de 2026

O meu quintal é um espelho da minha alma

Há lugares que não precisam de grandeza para serem importantes. O meu quintal é um deles. Não tem monumentos, não tem paisagens épicas, não tem a imponência das serras que rodeiam a Beirã. Mas tem algo que nenhuma serra, por mais alta que seja, consegue oferecer: intimidade.
O meu quintal é o lugar onde a minha alma se revela sem pressa.
De manhã, quando saio para ver as plantas, há sempre um instante em que o mundo parece suspenso. O ar ainda fresco, o cheiro da terra húmida de orvalho, o silêncio que só é quebrado pelo canto da passarada, tudo isso cria uma espécie de espaço interior onde o pensamento se organiza.
Os limões novos ainda pequenos, parecem olhar para mim como quem pergunta: “Vais cuidar de nós hoje?” E eu cuido. Com a paciência que a terra exige, com a humildade de quem sabe que nada cresce por imposição.
Regar é um gesto simples, mas tem qualquer coisa de sagrado. A água cai devagar, infiltrando-se na terra como quem devolve vida ao que a pede. E enquanto rego, percebo que aquele movimento repetido, quase sempre igual, é uma forma de meditação.
A mente abranda. O corpo acompanha. O quintal torna-se espelho e eu vejo-me ali, refletido naquilo que cultivo.
Há dias em que as plantas parecem crescer mais. Outros em que parecem estagnar. E eu aprendo com elas que a vida também é assim: feita de avanços e pausas, de dias férteis e silenciosos, de momentos em que tudo floresce e outros em que nada parece acontecer.
A natureza não tem pressa e talvez seja isso que mais me ensina.
A Maria Manuela passa muitas vezes ao meu lado a estender roupa no estendal que eu fiz, mas sem interromper. Ela sabe que aquele espaço é mais do que terra. É refúgio. É lugar de pensamento. É o sítio onde encontro respostas que não encontro em livros, nem em conversas.
À tarde, quando o sol começa a descer, a luz muda. Fica mais dourada, mais oblíqua, mais suave. E o quintal transforma-se numa espécie de sala de estar ao ar livre.
Sentado num dos bancos de alvenaria da varanda, olho para as plantas, para o céu, para o movimento lento do vento, e sinto que ali, naquele pedaço de terra, a vida se torna compreensível.
O meu quintal não é apenas um espaço. É metáfora. É o lugar onde percebo que tudo o que cresce precisa de cuidado, de tempo, de silêncio. E que a alma, tal como as plantas, só floresce quando é regada com atenção.
Às vezes penso que, se alguém quisesse saber quem eu sou, bastava olhar para o meu quintal. Ali está a minha paciência. Ali está a minha memória. Ali está a minha forma de estar no mundo. Ali está o meu ritmo lento, constante, sereno.
O meu quintal é o meu espelho. E eu, que tantas vezes vivi entre urgências e compromissos, ali encontro naquele pedaço de terra, uma verdade que me acompanha: a alma sossega melhor quando tem raízes.

José Coelho