quinta-feira, 1 de outubro de 2026

E a vida, teimosa, insiste

Há dias em que acordo com a sensação de que o passado está mais perto do que devia. Como se os meus pais ainda estivessem na cozinha, como se a voz deles ainda ecoasse pela casa, como se a infância estivesse ali ao virar da esquina na rua. E nesses dias, a saudade aperta, mas a vida insiste.
Insiste em continuar. Insiste em chamar por mim. Insiste em pedir-me que avance, que caminhe, que faça o que sempre fiz: seguir em frente, com o que sou e com o que me deram. Aprendi isso desde muito cedo.
O tempo não pára por causa da dor. Não se suspende por causa da perda. Não se encolhe por causa do medo. Continua, porque tem de continuar. E eu aprendi a continuar com ele.
Hoje, quando caminho pelas ruas da aldeia, sinto que cada pedra conhece o meu nome. Sinto que cada porta me viu crescer. Sinto que cada árvore sabe quem fui e quem sou. E é essa familiaridade que me segura quando a saudade ameaça derrubar-me.
A vida continua não porque eu queira, mas porque ela própria tem um movimento que não depende de mim. E eu sigo-o como quem segue o curso de um rio: às vezes manso, às vezes turbulento, mas sempre a avançar.
Há momentos em que me lembro do meu pai, na sua serenidade que parecia eterna. E penso: “Se ele estivesse aqui, ia aconselhar-me a seguir.” Não com palavras porque ele não era homem de discursos, mas com aquele olhar que dizia tudo sem dizer nada.
Lembro-me também da minha mãe e na força silenciosa com que sustentava a casa inteira. E penso: “Ela não me ia deixar parar.” Não por exigência, mas porque acreditava que a vida é para ser vivida, mesmo quando dói.
E por isso continuo. Continuo por eles. Continuo por mim. Continuo pela terra que me moldou. Continuo pelos que ainda me acompanham. Continuo porque a vida, teimosa como sempre, me chama todos os dias.
Há quem diga que o tempo cura. Não sei se cura. Mas sei que amacia. Sei que torna a dor mais habitável. Sei que transforma a saudade numa espécie de companhia que já não fere, apenas lembra.
E enquanto a vida insistir, eu insistirei com ela: em escrever, em recordar, em honrar quem me fez ser quem sou. Insistirei em caminhar pela vida como quem caminha pela própria alma.
Porque se a vida continua, eu continuarei com ela.
Texto e foto