Há dias em que a Beirã acorda cinzenta, com aquela luz baixa que faz as pedras parecerem ainda mais antigas do que realmente são. E eu gosto desses dias. Porque é neles que o silêncio se instala melhor, não como ausência, mas como companhia.
As pedras da Beirã têm uma maneira própria de estar. Não brilham, não chamam atenção, não competem com nada. Ficam. Ficam como ficaram os meus pais, como ficam as memórias que não se apagam, como fica a fé que me acompanha mesmo quando eu não a nomeio.
Quando passo a mão por uma dessas pedras – daquelas que conheço desde criança – sinto que ela sabe mais de mim do que muita gente. Sabe das minhas quedas, das minhas lutas, das minhas pequenas vitórias. Sabe dos dias em que fui mais duro do que devia, e dos dias em que fui mais frágil do que queria. Sabe do que perdi, do que ganhei, do que ainda procuro.
E nesse toque, nesse gesto simples, nasce um silêncio que não é só meu: é o silêncio da terra que me gerou. Um silêncio que me diz que não preciso de correr, que não preciso de provar nada, que não preciso de ser mais do que este homem que caminha devagar numa aldeia que o conhece melhor do que ele próprio.
É nesse silêncio que Deus costuma aparecer. Não com respostas, mas com uma luz mansa que se acende dentro de mim como se fosse uma manhã nova a nascer por dentro.
E eu fico ali, parado, entre o vento e as pedras, entre o cinzento e a esperança, entre o que fui e o que ainda posso ser. Fico ali porque esse silêncio da Beirã é o lugar onde a minha alma descansa.
