quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Uma casa guarda tudo

A vida dá-nos muitas coisas que nós não podemos guardar. Momentos, vozes, cheiros, gestos, risos, presenças. Passam por nós como o vento e quando tentamos agarrá-los, já se foram.
Uma casa, porém, guarda tudo. Guarda o cheiro da sopa de legumes feita no lume de chão. Guarda o som das botas do meu pai a chegar ao fim da tarde.
Guarda o riso das minhas irmãs que ainda ecoa nos cantos mais antigos. Guarda o silêncio das noites de inverno, quando o candeeiro a petróleo era a única luz dos nossos serões.
Guarda também o que veio depois. Os passos dos meus filhos a crescerem, as vozes das minhas netas a correrem pelo corredor, os jantares de domingo, as mesas cheias, os abraços demorados.
Guarda até as ausências, mas com ternura, não com dor.
A minha casa é o arquivo da minha vida. É o lugar onde tudo o que fui continua a existir, mesmo quando já não me lembro. É o sítio onde a memória não se perde, mas se transforma.
E quando entro nela, sinto que não estou sozinho. Estou acompanhado por tudo o que vivi, por tudo o que amei, por tudo o que me tocou.
Esta casa guardou tudo o que eu não podia guardar.
E devolve-me tudo, sempre que preciso.

Sem comentários:

Enviar um comentário

A revolta silenciosa

H á uma verdade que a História nos ensina repetidamente: os povos raramente se revoltam apenas por serem pobres. A pobreza é dura, limita so...