Há silêncios que não chegam de repente; vão-se formando devagar, como a luz que cresce no horizonte antes de ser manhã. São feitos de pequenas pausas, de gestos que não se dizem, de memórias que se ajeitam dentro de nós como quem encontra finalmente o seu lugar.
Nesse silêncio, o coração deixa cair o peso que traz escondido. Não precisa de explicações, nem de justificações, basta-lhe sentir que há um espaço onde pode pousar sem ser julgado.
É aí que Deus costuma entrar: não pela porta grande, mas pela fresta mais discreta, aquela que só se abre quando estamos cansados de palavras.
E quando Ele entra, não vem com respostas. Vem com presença. Vem com aquele modo suave de nos lembrar que não estamos sós, que a vida ainda tem música, que o caminho continua mesmo quando não o vemos.
O silêncio é o lugar onde o coração aprende a confiar outra vez.
José Coelho
