sexta-feira, 2 de outubro de 2026

O ritual do pequeno-almoço

Há rituais que não se explicam, vivem-se. O pequeno almoço, na minha casa, é um deles. Não tem pompa, não tem invenção, não tem a exuberância das mesas de hotel. Tem apenas torradas de pão de mistura e café com leite. No entanto, esse gesto repetido, quase sempre igual, tem uma força que anima o dia inteiro.

A máquina do café com filtro de papel passa-o com a precisão com que se afina um instrumento. O leite aquece devagar, sem ferver, como se soubesse que o excesso estraga a harmonia. O pão, cortado com cuidado, entra na torradeira como quem entra num palco. E eu, sentado à mesa, espero aquele momento com uma serenidade que não encontro em mais lado nenhum.

O pequeno almoço não é apenas alimento. É uma espécie de ancoragem. É o ponto onde o dia começa a ganhar forma, onde o corpo desperta e a alma se organiza. É ali que percebo se o mundo está alinhado ou se vai exigir mais de mim.

Há quem acorde com pressa, com urgência, com o peso das tarefas. Eu aprendi a acordar com este ritual. As torradas chegam à mesa com o cheiro quente do pão acabado de transformar. O café com leite, na chávena branca, tem uma cor que me lembra sempre o início das coisas: nem escuro, nem claro, apenas começo de mais um dia.

Enquanto como, penso muitas vezes na importância das constâncias. O mundo muda depressa demais, as notícias atropelam-se, os compromissos acumulam-se. Mas no meu pequeno almoço, tudo é previsível, tudo é seguro, tudo é familiar. E essa familiaridade é uma forma de resistência. Uma forma de dizer ao dia: “Eu começo por mim, não por ti.”

Os odores do café acabado de fazer e do pão torrado com manteiga, dão-me uma dimensão quase espiritual. Não falam disso, não teorizam, não filosofam. Mas este ritual possui uma delicadeza que me adoça o espírito para o dia inteiro

Depois do pequeno almoço, há sempre um instante de pausa. A mesa fica com migalhas, a chávena ainda morna, o pano dobrado ao lado. E eu fico ali, por breves minutos, a olhar para tudo isto como quem contempla uma obra de simplicidade. Porque é na simplicidade que a vida se revela completa. E é nestes rituais que encontramos a força para enfrentar o que vem.

O pequeno almoço não é apenas rotina. É uma forma de estar no mundo. É a lembrança de que o dia começa melhor quando começa devagar. E eu encontro neste gesto repetido, a mais discreta das liberdades.

Tenham um excelente dia.

José Coelho