Há quem atravesse décadas como quem atravessa uma ponte: passa, olha de relance e segue adiante. Eu não. Eu vivi cada mudança como quem sente o chão a deslocar-se sob os pés. Em três ou quatro décadas, o mundo à minha volta transformou-se de forma tão profunda que, por vezes, parece que vivi dois séculos dentro do mesmo corpo.
Nada disto era suposto, talvez. Mas tornou-se inevitável. A vida muda, o tempo empurra, os costumes desfazem-se, os ritmos aceleram, e aquilo que era firme torna-se apenas memória.
Hoje, com setenta e quatro anos, carrego o olhar de quem viu nascer e desaparecer mundos inteiros. A terra é a mesma, alguns rostos também, mas o lugar… esse já não é o que era.
A aldeia cresceu com o progresso, mas perdeu parte da sua alma. Ganhou luzes, perdeu silêncio. Ganhou conforto, perdeu carácter. E muitos dos que lhe davam vida partiram – uns por necessidade, outros porque o seu tempo aqui simplesmente terminou.
Aceito que tudo mude. É o curso natural da existência. O que ainda me espanta – e inquieta – é a facilidade com que muitos se desresponsabilizam dos seus atos, justificando comportamentos sob qualquer pretexto, como se a consciência fosse agora um objeto descartável.
Não sou assim. Nunca fui. Venho de uma linhagem de gente desta região – Castelo de Vide, Marvão, e até da vizinha Espanha. Gente unida, enraizada, respeitadora, orgulhosa dos seus princípios e tradições. Gente que sabia que a palavra valia mais do que qualquer documento timbrado.
Foi nesse ambiente que cresci: honra sem alarde, educação sem ostentação, respeito sem esforço. Os meus pais e avós nunca tiveram facilidades, mas viveram honestamente, sustentando-se do seu trabalho sem invejar o que era dos outros.
Humildes, mas gigantes na sua forma de estar. Nunca um mau exemplo, nunca uma má palavra.
O respeito era lei: entre eles, para com os filhos e netos, para com toda a comunidade. É a eles que devo o que sou e o que procurei transmitir aos meus filhos.
Os valores fundamentais não se aprendem na escola. Aprendem-se no berço, no silêncio das atitudes, na mão que guia sem empurrar.
Por isso, mesmo perante este “vale tudo” social, não mudarei a minha forma de ser. Cada um responde pelo que diz, pelo que faz e pelas razões que escolhe para agir.
O tempo, esse sim, é o melhor juiz. Cedo ou tarde, tudo regressa ao seu devido lugar. Não tenho dúvidas. Sou e serei sempre da raça do junco.
Posso vergar com a força dos ventos.
Mas quebrar… nunca.