sábado, 10 de outubro de 2026

Uma pressa que nos envelhece

Há uma pressa nova no mundo. Uma pressa que não serve para chegar mais longe, serve para chegar antes dos outros. Vivemos numa corrida que ninguém pediu para correr, mas que todos parecem aceitar como inevitável.
A pressa envelhece. Não o corpo, mas a alma.
Envelhece quando nos faz saltar etapas, quando nos impede de saborear o que conquistamos, quando transforma cada dia numa lista de tarefas e cada pessoa num obstáculo ou numa ferramenta.
A pressa rouba-nos a profundidade. E sem profundidade, tudo fica raso: as conversas, os afetos, os projetos, até os sonhos. O mundo diz: “anda depressa”. A vida diz: “vai devagar”.
E eu, cansado como estava ontem, percebi que a sabedoria está sempre do lado da vida.
Porém, aquele cansaço, teve justa causa. É tempo de sementeiras e de plantios. E o verão anormal – esse forno lento que quase assou a natureza – atrasou tudo em mais de um mês.
As hortaliças que já deveriam cobrir a terra com a sua folhagem só agora chegaram ao chão. E cada dia de atraso é uma semana a mais no seu desenvolvimento antes que cheguem as noites frias e as geadas.
Por isso houve que aproveitar cada hora, mesmo com os 74,5 a reclamarem do excesso. O quintal é grande – demasiado grande já para as minhas cada vez mais reduzidas capacidades de hortelão aprendiz que o meu pai ensinou.
Por isso o dia terminou mais cansado do que o costume. Mas nada que uma boa noite de descanso e um sono bom não remediassem.
E talvez seja isso que a vida tenta ensinar: que a pressa envelhece, mas o cansaço que vem do cuidado – esse não. Esse apenas confirma que ainda estamos vivos, úteis, ligados à terra e ao sentido das coisas.
Hoje já posso abrandar um pouco. E ao abrandar, reencontro a alma que a pressa tenta roubar.
Tenham um excelente fim-de-semana.