Vivemos num país de contrastes profundos. De um lado, o litoral concentrado, vibrante, com cidades cheias de vida, oportunidades, crescimento económico, oferta cultural e acesso facilitado a serviços públicos e privados. Do outro, o interior, cada vez mais esquecido, marcado por uma desertificação galopante que se sente não apenas nos números do recenseamento, mas sobretudo na paisagem humana e social que vai rareando, ano após ano.
O abandono sistemático do interior do país não é um fenómeno recente, mas sim resultado de décadas de políticas pouco sensíveis às especificidades destes territórios. Desde meados do século XX, assistiu-se a uma migração constante das populações rurais para os grandes centros urbanos e para o estrangeiro, em busca de melhores condições de vida. A industrialização concentrou-se no litoral e nas áreas metropolitanas, deixando para trás uma economia predominantemente agrícola, envelhecida e fragilizada.
As políticas públicas pouco fizeram para contrariar esta tendência. O investimento em infraestruturas, serviços de saúde, educação e cultura foi, de forma crónica, desigual, sempre em desfavor das regiões com menor densidade populacional. A rede ferroviária foi sendo desmantelada, os centros de saúde e maternidades encerrados, as escolas primárias e secundárias agregadas, forçando percursos cada vez mais longos e difíceis para quem permanece.
A desertificação do interior do país é, antes de tudo, humana. A população escasseia, envelhece e, em muitos concelhos, os nascimentos são tão raros que as escolas fecham por falta de alunos. As praças e ruas das vilas e aldeias encontram-se desertas durante a semana, com exceção dos domingos, quando regressam temporariamente os filhos, netos, familiares e amigos, num ritual de saudade.
Este vazio reflete-se na economia local. O comércio tradicional encerra, porque não há clientela suficiente. Os pequenos produtores agrícolas veem-se sem escoamento para os seus produtos, fruto da concentração dos mercados e da falta de infraestruturas logísticas. A indústria transformadora quase desapareceu e as poucas empresas que resistem debatem-se com dificuldades em atrair mão-de-obra qualificada.
A paisagem sofre, também ela, as consequências deste abandono: os campos tornam-se incultos, as florestas invadem o território agrícola e o risco de incêndios aumenta exponencialmente, face ao abandono da atividade agrícola e à ausência de uma gestão florestal sustentável.
Para quem, como eu, insiste em ficar, o interior é mais do que um lugar de residência; é um espaço de pertença, uma herança afetiva, um modo de viver. Há um orgulho silencioso em resistir ao esvaziamento, em cuidar da casa dos pais, em manter vivas as tradições, em trilhar os mesmos caminhos de infância. No entanto, este apego à terra não ilude as dificuldades que se impõem diariamente.
O acesso a serviços de saúde é frequentemente condicionado por distâncias enormes. Uma simples consulta médica implica viagens de dezenas de quilómetros, com transportes públicos muitas vezes inexistentes ou inadequados. Em situações de emergência o tempo de espera pode ser crítico por falta de pessoal médico e de enfermagem que garanta uma resposta eficaz e humana.
No campo da educação, as escolas são cada vez mais distantes das pequenas aldeias e vilas. As crianças percorrem longos trajetos diários para aceder ao ensino, com horários pouco compatíveis com a vida familiar e comunitária. O fecho das escolas primárias representou, para muitos, o fim de laços de proximidade, de amizades e de memórias.
O isolamento social é uma realidade dura, em particular para os mais idosos, que muitas vezes vivem sozinhos, sem apoio próximo, dependentes de vizinhos ou de serviços sociais que não chegam a todos. A solidão, agravada pelo envelhecimento e pela escassez de oportunidades de convívio, é uma das faces mais tristes da desertificação.
José Coelho
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