sábado, 13 de maio de 2017

Beirã, 13 de Maio de 2017...


Uma foto feita há menos de uma hora pela minha Maria Manuela na igreja paroquial da Beirã, ornamentada desta forma com 100 velas pela minha irmã Joaquina Coelho para a recitação do terço alusivo ao 100º aniversário das aparições da Virgem na Cova da Iria.

terça-feira, 9 de maio de 2017

Coisas q'escrevi...

A primeira foto no posto de sargento 



E não houve duas, sem três


No dia quinze de Junho do ano de 1983 por volta das onze horas da manhã recebi em cerimónia pública e das mãos do então Comandante do Centro de Instrução da Guarda, na Calçada da Ajuda, o diploma de promoção ao posto de cabo.

Regressámos nesse mesmo dia cada um à unidade a que pertencia, com direito ao gozo de cinco dias de licença concedidos normalmente no final de cada curso de formação. A seguir entrei com 30 dias de licença de férias mas dos quais só pude gozar 10 em virtude de ser o cabo mais novo da guarda e ter sido nomeado para monitor do segundo alistamento que iria começar em 1 de Julho em Reguengos de Monsaraz. Ainda hoje lá moram os restantes 20 dias de férias que não pude gozar por motivo daquela nomeação de serviço e por não haver nesse tempo a benesse que há hoje de as poder transferir para o ano seguinte.

Entretanto aproveitei aqueles escassos dias para me autopropor aos exames nacionais do 6º ano na Mousinho da Silveira em Castelo de Vide, aproveitando os conhecimentos adquiridos no curso de cabos. Fui submetido a exame e obtive o diploma sem dificuldade de maior.

Marchei para Reguengos no início de Julho indo então integrar a equipa de graduados que iríamos ministrar o 2º CFP de 1983. E por ser o cabo mais maçarico impingiram-me logo a messe e as funções de vagomestre que mais ninguém quis e eu não pude recusar. Foi uma experiência gratificante, completamente diferente de tudo aquilo que eu tinha conhecido até ali. O relacionamento entre o oficial, sargentos e cabos era excelente, sem qualquer vestígio de arrogância ou prepotência quer de um, quer dos outros. Muito pelo contrário. Exigentes quando tinham que ser e firmes a ensinar, mas muito humanos, educados e atenciosos para com os alistados, preocupando-se particularmente com aqueles que tinham maiores e mais dificuldades.

Foi uma excelente escola de aprendizagem para nós, os dois cabos novatos que estávamos prestes a ingressar também no curso de sargentos que iria começar logo a seguir.

Nunca como até ali tinha pensado o quanto valera a pena teimar e não desistir. E como tinham sido sábios e oportunos os bons conselhos do camarada Marques na Senhora da Penha. Depois, a proximidade e convívio diário com um senhor capitão tão humano e sociável, sem manias de grandeza e que respeitava quer o soldado quer o cabo ou o sargento e para todos tinha sempre uma atenção ou palavra de incentivo. Particularmente para mim foi a certificação do quanto a Guarda é composta por gente muito diversa no trato e na atitude. E que todos aqueles meus problemas no inicio da carreira tinham sido um mero acaso.

Terminou a minha primeira missão como graduado já muito perto do Natal. A despedida foi memorável. Criaram-se amizades e uma camaradagem sem precedentes quer entre os graduados quer com os novos guardas, gratificante e duradoura. Enriquecedora. O relacionamento entre todos os efetivos da Guarda devia ser sempre assim em qualquer unidade. O capitão chegou a coronel e sempre ouvi dizer muito bem dele no seu longo percurso profissional. O sargento mais antigo chegou a Mor da Brigada 3. O segundo sargento do pelotão concorreu a oficial pouco depois e chegou a tenente-coronel. Os furriéis atingiram também todos o topo da carreira de sargentos. Acho que isso ilustra bem a categoria de profissionais e de homens de todos eles.

O primeiro ano do curso de sargentos decorreu na maior normalidade e na mesma rotina do curso anterior, com a vantagem de muitas das matérias serem já por nós conhecidas e apenas agora um pouco mais aprofundadas. Curiosamente, os três instruendos que pertencíamos a Portalegre e que tínhamos transitado também do curso anterior ficámos todos na turma B e parceiros de carteira na sala de aulas.
Fomos depois estagiar em postos um pouco por todo o país não nos sendo permitido estagiar na unidade de colocação. Assim, o meu camarada de carteira foi parar a Pinhel e eu a S. João da Madeira. Foi uma experiência excelente e não tive qualquer dificuldade em me adaptar.

O efectivo do quartel que era simultaneamente posto, secção e companhia, era composto por um punhado de muito bons camaradas e excelentes profissionais. Encostado à Estrada Nacional Nº1 entre Lisboa e Porto, era um corrupio de gente todo o dia e toda a noite. E o flagelo principal os inúmeros acidentes de trânsito diários que obrigavam a uma quase permanente presença na estrada. Depois, numa zona tão densamente povoada, as solicitações das mais diversas diligências por parte dos tribunais empatavam quase o resto do efectivo. Em resumo, ali não havia tempo para jogar cartas como em Castelo de Vide. Pelo contrário. Vezes sem conta terminávamos o nosso serviço e tínhamos que “acudir” a outros que entretanto surgiam, por não haver mais ninguém que os fosse resolver.

Fiz mais serviço e aprendi na prática mais coisas nesses dois meses, do que nos três anos que permaneci no meu posto de origem. Desde tomar conta de assaltos a fiscalizar estabelecimentos ou investigar furtos, elaborar autos de tudo e de mais qualquer coisa, foi um nunca mais parar. Nem dei pelo passar do tempo. Tive ainda a sorte de ter por comandante de posto um grande amigo, um sargento recém-promovido do curso anterior ao meu e que era de Castelo Branco e tinha conhecido no curso de cabos quando ele estava já a terminar o de sargentos.

De 15 em 15 dias vinha passar o fim-de-semana sem obedecer à regra da folga semanal que não me daria jeito nenhum, em virtude da distância a que estava de casa e da complexidade de transportes nesse tempo. Uma ou outra vez, dada a proximidade a que estava do Porto, ia visitar o meu compadre, o padrinho do meu filho mais velho que esteve comigo em Angola e que mora ainda hoje em Santa Cruz do Bispo. Ia à tarde no autocarro e voltava no outro dia de manhã cedo, pois havia transportes de e para o Porto, de meia em meia hora.

A meio de Agosto regressámos às nossas unidades e entrámos com 30 dias de licença de férias até meio de Setembro,  após o que regressámos de novo à Ajuda para início do novo ano lectivo.

Fomos pouco depois graduados em furriel. Ascendíamos assim à classe de sargentos provisoriamente – coisa esquisita – não fosse dar-se o caso de chumbarmos por falta de aproveitamento, pois, se assim fosse, voltaríamos a ser desgraduados e passaríamos de cavalo a burro, ou seja, de furriel a cabo.

Não sei até que ponto isso era legal e constitucional e várias vezes nos questionámos uns com os outros. Mas depois que o vimos acontecer a um dos nossos camaradas, nunca mais ousámos duvidar. Só mesmo na Guarda aconteciam aquelas insólitas “graduações” porque nas forças armadas o posto de furriel era o primeiro da classe de sargentos e em situação alguma seria despromovido de furriel para regressar ao posto de cabo. Felizmente, fruto de muito empenho, trabalho, e a preciosa ajuda de alguns camaradas que nunca esquecerei, logrei alcançar com êxito, o final do curso.

Reza o diploma que tenho pendurado no meu pequeno escritório em casa e em escrita gótica, o seguinte:


Guarda Nacional Republicana
Centro de Instrução

Faz-se saber que José Manuel Lourenço Coelho, filho de António Maria Coelho e de Florinda da Conceição Lourenço, nascido na freguesia de Beirã, concelho de Marvão, concluiu no ano lectivo de 1984-1985 com a classificação final de 12,39 valores, o curso de Formação de Sargentos estabelecido pelo Decreto-Lei nº465/83 de 31 de Dezembro. Para constar onde convier e poder o interessado gozar de todas as regalias que legalmente lhe pertencerem, se lhe passa o presente Diploma, que vai assinado pelo Comandante, e firmado com selo branco deste Centro de Instrução.

Lisboa, aos vinte dias do mês de Junho de mil novecentos e oitenta e cinco.

O Comandante



José Coelho in Histórias do Cota

domingo, 7 de maio de 2017

Dia da Mãe 2017...

Foto emoldurada pelo querido amigo José Alberto Barbosa


Para Sempre


Por que Deus permite
 que as mães vão-se embora?
 Mãe não tem limite,
 é tempo sem hora,
 luz que não apaga
 quando sopra o vento
 e chuva desaba,
 veludo escondido
 na pele enrugada,
 água pura, ar puro,
 puro pensamento.
 Morrer acontece
 com o que é breve e passa
 sem deixar vestígio.
 Mãe, na sua graça,
 é eternidade.
 Por que Deus se lembra
— mistério profundo —
de tirá-la um dia?
 Fosse eu Rei do Mundo,
 baixava uma lei:
 Mãe não morre nunca,
 mãe ficará sempre
 junto de seu filho
 e ele, velho embora,
 será pequenino
 feito grão de milho.


Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Coisas q'escrevi...

6º Curso de Formação de Sargentos 1983/85 - CI/GNR/AJUDA 


Mudança de rumo


A vontade de ascender na carreira profissional contagiou vários camaradas do posto de Castelo de Vide nos tempos que se seguiram. Em apenas dois anos, concorremos ao curso de cabos cinco soldados, três dos quais se catapultaram em seguida para o curso de sargentos.

Um deles fui eu.

A guarda estava muito deficitária de graduados porque a promoção ao posto imediato implicava quase sempre a transferência de unidade e colocação em cascos de rolha e o consequente afastamento da família por normalmente não ser aconselhável a mudança de casa em virtude de os filhos estarem a meio dos seus estudos nas escolas das zonas de residência, o que originaria imensos transtornos. Além disso a diferença de ordenado por motivo da promoção não justificava tais incómodos. Tendo ainda em conta que muitos militares demoravam mais de dez anos a chegar novamente perto das suas famílias, era um risco que muita gente se escusava correr.

Por isso mesmo as vagas para cabo e sargento eram muitas e em 1982 entendeu o então comandante geral proporcionar a quem quisesse arriscar algumas benesses muito razoáveis e aliciantes. E foi assim que, provavelmente influenciados uns pelos outros, dois dos militares mais antigos - um deles já com quarenta anos - e três dos mais novos, decidimos concorrer.

Tal foi o nosso empenho que passámos todos as provas de admissão. Meses depois e sendo eu ainda soldado a meio do curso de promoção a cabo, abriu novo concurso para admissão ao curso de sargentos. E uma das tais benesses que o general comandante geral na altura concedeu, foi a de prescindir temporariamente da cláusula que obrigava os candidatos a sargento a permanecerem um mínimo de três anos no posto de cabo.

Estávamos em Março e faltavam ainda três meses para o terminus do meu curso de cabos, pelo que nem eu nem nenhum dos meus camaradas sabíamos ainda se conseguiríamos chegar ao fim com aproveitamento porque estávamos sujeitos a chumbar em qualquer das disciplinas, etapas ou objectivos, se porventura não fossem alcançados.

Eis senão quando e por um novo despacho de carácter excepcional do então comandante geral, o referido concurso de admissão ao curso de sargentos desse ano foi extensivo também aos candidatos que se encontravam na frequência do curso de cabos e se sentissem com capacidade para prestar provas mesmo sem ter ainda terminado o curso, tendo em conta que, na data prevista para início do de sargentos em Outubro desse ano, supostamente já todos seríamos cabos.

A maioria dos meus camaradas ficaram entusiasmadíssimos com o convite até porque a maior parte deles tinham o 5º ou mesmo o 7º ano - equivalentes hoje ao 9º e ao 12º respectivamente - e eram as habilitações que nesse tempo antecediam o ingresso ao ensino superior. Por isso não temiam as provas escritas de admissão.

Já para as provas físicas era bem mais complicado por terem fama de ser duríssimas e a realizar numa unidade do exército estranha à guarda – a academia militar – e metiam as costas para dentro a toda a gente pelo seu lendário grau de dificuldade. Eram mesmo ali que tinham chumbado sempre a maior parte dos candidatos aos cursos anteriores.

Eu ouvia-os mas nem ousava alimentar ilusões. Tinha só a quarta classe do ensino primário. A escolaridade mínima obrigatória. Apesar de ter alguma facilidade em assimilar as coisas e não estar assim muito mal posicionado em termos de notas na classificação geral do curso de cabos pois nos 94 instruendos eu estava no 48º lugar que não era nada mau tendo em conta que a sua equivalência era a nível do 9º ano de então e tinha áreas que eu desconhecia totalmente mas com as quais me tive que desenvencilhar; matemática, história universal, física e química, ciências do ambiente, língua francesa, direito penal, civil e administrativo, além de outras mais de que nunca sequer ouvira falar.

Para conseguir aguentar a pedalada tinha que estudar todas as noites duramente. Sete dias por semana até às duas ou três da manhã enquanto aqueles que tinham outras habilitações literárias arrumavam os livros às cinco da tarde quando terminavam as aulas, tomavam o duchezinho da ordem, jantavam tranquilamente, vestiam-se “à civil” e punham-se a milhas, a caminho da baixa lisboeta para se irem divertir.

Ao contrário deles eu nem sequer aos fins-de-semana podia pousar os livros! Nas viagens de comboio entre Santa Apolónia e Castelo de Vide e vice-versa, sentava-me a ler e a fazer apontamentos todo o tempo que a viagem durava. Nos sábados e domingos, em vez de dormir a manhã na cama como precisava e porque tinha os filhos pequenos, levantava-me às seis da manhã – a minha Maria é testemunha disso – para me fechar na sala a estudar sossegado e poder concentrar-me antes de os miúdos acordarem e para poder depois dar-lhes também algum miminho e atenção.

Voltando ao convite para o curso de sargentos, o bichinho da tentação para me aventurar e concorrer a sargento começou a minar o meu espírito aventureiro. Se por um lado pensava que era areia demais para a minha camioneta, logo a seguir o meu subconsciente respondia que nada perdia em tentar. Se conseguisse, conseguia, se não conseguisse, pelo menos tinha tentado. E se não aceitasse o desafio então é que nunca poderia saber o resultado.

Para ser justo devo referir ainda a impagável ajuda de muitos dos camaradas de curso, daqueles que tinham mais habilitações e que tão generosa como pacientemente nos explicavam, ensinavam e com isso muito ajudaram nos intervalos das aulas ou quando regressavam da borga à noite. E não só a mim como também aos outros doze camaradas que como eu tinham só a quarta classe e por isso tínhamos que “marrar” até às tantas.

Foi imprescindível a sua ajuda tão generosa como louvável a todos os níveis se analisarmos que naturalmente eles teriam muito mais vantagem em evitá-la por serem candidatos como nós, e, por isso, quantas mais negativas nós tivéssemos, mais se consolidaria a sua posição na classificação geral. Bons tempos da velha Guarda em que a amizade e a camaradagem não era apenas retórica…


José Coelho in Histórias do Cota

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Beirã - Maio 2017...

Preparado pela Joaquina Coelho, o altar da Senhora de Fátima no ano do centenário das aparições. Nas fitas azuis estão inscritas as datas 1917 e 2017

Coisas q'escrevi...

O posto onde todos estes factos aconteceram - Desconheço o autor da foto


Honras de ordenança (Mas não só)


Para encerrar a já longa narrativa da minha vida naquele posto não quero deixar para trás a atitude do então muito melindrado cabo comandante que, logo no dia a seguir à “briga” e numa atitude completamente inédita, me nomeou na escala de serviço de ordenança para sair com ele a pé em ronda às patrulhas após o almoço.

No posto tudo tinha voltado já à normalidade. Achei estranho o facto de o ordenança ser eu porque nunca o fora, já que por norma era sempre nomeado um camarada condutor e as rondas feitas de jipe pois os cabos (co)mandantes de posto desse tempo nunca andavam a pé. Era mesmo um estatuto deles!

Saímos então naquela tarde à hora escalada e não sei por que carga d’água pela porta das traseiras do posto. O cabo de metralhadora a tiracolo como era protocolar por ser graduado e eu com a velha mauser ao ombro em direção à Corredoura de São Roque e dali pela azinhaga bordejada de castanheiros que rumava para a Quinta do Prado. Muito amável e estranhamente atencioso para quem tratava quase sempre os guardas mais novos como se fossem seres insignificantes.

- Hum! Aqui há gato outra vez! Pensei.

- E não me enganei.

Às páginas tantas o cabo tossiu para afinar a garganta e pediu-me num tom matreiro muito cúmplice e a modos que confidencial:

- Agora que já ninguém nos ouve o senhor Coelho vai-me contar todas as coisas que o senhor (…) anda a dizer de mim! Nunca pensei que ele fosse assim, ó senhor Coelho! Tal é aquele traste?

Olhei para ele sem qualquer constrangimento e respondi-lhe com a maior franqueza.

- Não, nosso cabo! Não vou dizer-lhe mais nada. E ontem só me referi ao que esse camarada diz de si porque o senhor o estava a encobrir depois de ele me ter difamado. E ao encobri-lo, o senhor estava a fazer-me passar a mim por parvo.

- Ele diz de si é verdade porque eu não sou mentiroso. Mas também não sou de intrigas. E se o senhor quer saber tudo é muito fácil. Mande reunir o efetivo do posto uma manhã ou uma tarde destas e faça essa pergunta que me fez agora a mim a todos os outros porque o que eu ouço e o que eu sei todos os meus camaradas ouvem e sabem também. Se eles assim o entenderem poderão contar-lhe tudo na presença do visado como eu fiz ontem porque assim se deve fazer para não sermos todos iguais…

Não percebi se foi para mudar de tática ou se foi por ter ficado convencido do meu rotundo “não” ao seu convite de promoção a “bufo”, o cabo comandante após proferir um "acho que você tem razão" mudou de tema e começou a elogiar as minhas “grandes qualidades” como homem da guarda apesar de ser ainda tão novo. Que eu era assim, que eu era assado, que as pessoas na vila me tinham já um grande respeito e que isso era muito bom sinal. E mais isto, e mais aquilo…

Não gostei. Não gostei mesmo, nem me senti nada lisonjeado com tal atitude. Era graxa barata. Hipocrisia pura. Detesto essa forma de relacionamento profissional de tal modo que nunca a pratiquei, nem enquanto subordinado para com os meus comandantes, nem mais tarde já como comandante para com os meus subordinados.

Sempre entendi que um homem é um homem e que deve por isso empenhar-se em fazer bem feito tudo aquilo que é competência sua. Deve ainda também assumir imediata e responsavelmente as consequências de tudo quanto faz e diz. E se fez bem feito deve sentir apenas uma saudável e justa satisfação por ter agido de acordo com a sua obrigação. Mas se por lapso fez mal feito, deve em seguida e mal se aperceba do erro cometido ter a humildade de o reconhecer e se possível corrigir de imediato. Seja qual for a sua posição na vida.

Tal máxima em meu entender é universal, aplicável a qualquer cidadão do mundo e em todos os níveis da sociedade, com muito maior ênfase, dever, obrigação e responsabilidade para todos quantos detêm poderes de governo, de direção, de comando ou de chefia.

Para ser um homem não basta cortar a barba ou mijar de pé. Ser um homem tem de facto e no meu entender muito mais que se lhe diga. Tenho plena consciência de que não sou perfeito mas tenho contudo também a firme convicção de que todos os dias da minha vida procurei nortear a minha conduta pelos princípios e valores que me foram transmitidos desde o berço, e que, graças a isso, soube agir sempre de forma responsável em tudo quanto fiz ou disse. Até quando a minha dignidade e paciência foram levadas ao extremo do aceitável.

Tudo quanto o meu comandante de ronda e de posto não prativava quase sempre e muito menos ali, naquele preciso momento. Havia uma cruel mentalidade de princípios nesse tempo, um estatuto estranhamente rígido, desumano e desadequado. Um cabo comandante de qualquer posto territorial era de maneira geral um acérrimo praticante e defensor do quero, posso e mando, com um estatuto de quase-general. Aliás, eram mesmo zombeteiramente apelidados pelos efetivos que comandavam de “generais de província”.

Por sua vez isso originava em alguns dos guardas mais antigos, com algumas exceções obviamente, uma mentalidade prepotente. A velhice era também um posto. Mas um posto sem qualquer controlo e em que cada um exercia como lhe apetecia e conforme era seu timbre. Recordo por exemplo um dos meus antigos comandantes de patrulha – da Abegoa - Marvão – que “adorava” “judiar” com os mais novos mas que também se enganou quando bateu à minha porta.

De patrulha aos campos a pé pelos giros mais longos, tinha a “balda” de caminhar em passo acelerado, quase a correr, para atingir a “ponta” do giro 7 ou 8 quilómetros distante do posto e cujo percurso era calculado para fazer em 4 horas na ida e outras 4 no regresso mas que ele fazia  apenas em hora e meia pelo prazer de ver o mais novo cansado, a transpirar, aflito com as botas novas a magoar-lhe os pés ou sem saber ajeitar no ombro da forma mais cómoda o “empecilho” da pesada espingarda mauser.

No dia que me fez isso a mim no giro do Barregão e Atalaia acompanhei-o naquela marcha acelerada durante dois ou três quilómetros sem nada dizer. Quando me cansei abrandei pura e simplesmente o passo para uma marcha normal continuando na minha atitude de nada dizer.

Ele afastou-se umas centenas de metros até que por fim abrandou, esperou por mim e vociferou-me asperamente que eu tinha que o acompanhar porque a patrulha era a dois.

Tranquilamente, sem me atemorizar com o seu tom agressivo, respondi-lhe:

- Pois é nosso pronto, mas também temos oito horas para a fazer. Se você tem pressa vá andando que eu sei o giro e não tenho medo de o fazer sozinho…

Que remédio teve ele senão caminhar ao meu ritmo e foi se quis! Nunca mais piou no resto da patrulha e também nunca mais cometeu aquela proeza comigo. Não nos dávamos mal mas também nunca fomos grandes amigos apesar de sermos os dois do termo de Marvão. Assim me defendi sempre e exigi o respeito do restante efetivo daquele posto até algum tempo depois concorrer ao curso de promoção a cabo que tive a sorte e o privilégio de conseguir superar.  Mas esse relato fica para um próximo capítulo…


José Coelho in Histórias do Cota