Uma foto feita há menos de uma hora pela minha Maria Manuela na igreja paroquial da Beirã, ornamentada desta forma com 100 velas pela minha irmã Joaquina Coelho para a recitação do terço alusivo ao 100º aniversário das aparições da Virgem na Cova da Iria.
Aos 07 de Março de 2015 nasceu este blogue que tal como o seu antecessor TocadosCoelhos pretende apenas ser um ponto de encontro e de entretenimento pautando-se sempre pelas regras da isenção, da boa educação e do civismo em geral. Sejam muito bem-vindos.
sábado, 13 de maio de 2017
terça-feira, 9 de maio de 2017
Coisas q'escrevi...
A primeira foto no posto de sargento
E não houve duas, sem três
No
dia quinze de Junho do ano de 1983 por volta das onze horas da manhã recebi em
cerimónia pública e das mãos do então Comandante do Centro de Instrução da
Guarda, na Calçada da Ajuda, o diploma de promoção ao posto de cabo.
Regressámos
nesse mesmo dia cada um à unidade a que pertencia, com direito ao gozo de cinco
dias de licença concedidos normalmente no final de cada curso de formação. A
seguir entrei com 30 dias de licença de férias mas dos quais só pude gozar 10 em
virtude de ser o cabo mais novo da guarda e ter sido nomeado para monitor do
segundo alistamento que iria começar em 1 de Julho em Reguengos de Monsaraz.
Ainda hoje lá moram os restantes 20 dias de férias que não pude gozar por
motivo daquela nomeação de serviço e por não haver nesse tempo a benesse que há
hoje de as poder transferir para o ano seguinte.
Entretanto
aproveitei aqueles escassos dias para me autopropor aos exames nacionais do 6º
ano na Mousinho da Silveira em Castelo de Vide, aproveitando os conhecimentos
adquiridos no curso de cabos. Fui submetido a exame e obtive o diploma sem
dificuldade de maior.
Marchei
para Reguengos no início de Julho indo então integrar a equipa de graduados que
iríamos ministrar o 2º CFP de 1983. E por ser o cabo mais maçarico
impingiram-me logo a messe e as funções de vagomestre que mais ninguém quis e
eu não pude recusar. Foi uma experiência gratificante, completamente diferente
de tudo aquilo que eu tinha conhecido até ali. O relacionamento entre o oficial,
sargentos e cabos era excelente, sem qualquer vestígio de arrogância ou
prepotência quer de um, quer dos outros. Muito pelo contrário. Exigentes quando
tinham que ser e firmes a ensinar, mas muito humanos, educados e atenciosos
para com os alistados, preocupando-se particularmente com aqueles que tinham
maiores e mais dificuldades.
Foi
uma excelente escola de aprendizagem para nós, os dois cabos novatos que
estávamos prestes a ingressar também no curso de sargentos que iria começar logo
a seguir.
Nunca
como até ali tinha pensado o quanto valera a pena teimar e não desistir. E como
tinham sido sábios e oportunos os bons conselhos do camarada Marques na Senhora
da Penha. Depois, a proximidade e convívio diário com um senhor capitão tão
humano e sociável, sem manias de grandeza e que respeitava quer o soldado quer
o cabo ou o sargento e para todos tinha sempre uma atenção ou palavra de incentivo.
Particularmente para mim foi a certificação do quanto a Guarda é composta por
gente muito diversa no trato e na atitude. E que todos aqueles meus problemas
no inicio da carreira tinham sido um mero acaso.
Terminou
a minha primeira missão como graduado já muito perto do Natal. A despedida foi
memorável. Criaram-se amizades e uma camaradagem sem precedentes quer entre os
graduados quer com os novos guardas, gratificante e duradoura. Enriquecedora. O
relacionamento entre todos os efetivos da Guarda devia ser sempre assim em
qualquer unidade. O capitão chegou a coronel e sempre ouvi dizer muito bem dele
no seu longo percurso profissional. O sargento mais antigo chegou a Mor da
Brigada 3. O segundo sargento do pelotão concorreu a oficial pouco depois e
chegou a tenente-coronel. Os furriéis atingiram também todos o topo da carreira
de sargentos. Acho que isso ilustra bem a categoria de profissionais e de
homens de todos eles.
O
primeiro ano do curso de sargentos decorreu na maior normalidade e na mesma
rotina do curso anterior, com a vantagem de muitas das matérias serem já por
nós conhecidas e apenas agora um pouco mais aprofundadas. Curiosamente, os três
instruendos que pertencíamos a Portalegre e que tínhamos transitado também do
curso anterior ficámos todos na turma B e parceiros de carteira na sala de
aulas.
Fomos
depois estagiar em postos um pouco por todo o país não nos sendo permitido
estagiar na unidade de colocação. Assim, o meu camarada de carteira foi parar a
Pinhel e eu a S. João da Madeira. Foi uma experiência excelente e não tive
qualquer dificuldade em me adaptar.
O
efectivo do quartel que era simultaneamente posto, secção e companhia, era
composto por um punhado de muito bons camaradas e excelentes profissionais. Encostado
à Estrada Nacional Nº1 entre Lisboa e Porto, era um corrupio de gente todo o
dia e toda a noite. E o flagelo principal os inúmeros acidentes de trânsito
diários que obrigavam a uma quase permanente presença na estrada. Depois, numa
zona tão densamente povoada, as solicitações das mais diversas diligências por
parte dos tribunais empatavam quase o resto do efectivo. Em resumo, ali não
havia tempo para jogar cartas como em Castelo de Vide. Pelo contrário. Vezes
sem conta terminávamos o nosso serviço e tínhamos que “acudir” a outros que
entretanto surgiam, por não haver mais ninguém que os fosse resolver.
Fiz
mais serviço e aprendi na prática mais coisas nesses dois meses, do que nos três
anos que permaneci no meu posto de origem. Desde tomar conta de assaltos a
fiscalizar estabelecimentos ou investigar furtos, elaborar autos de tudo e de mais
qualquer coisa, foi um nunca mais parar. Nem dei pelo passar do tempo. Tive
ainda a sorte de ter por comandante de posto um grande amigo, um sargento
recém-promovido do curso anterior ao meu e que era de Castelo Branco e tinha
conhecido no curso de cabos quando ele estava já a terminar o de sargentos.
De
15 em 15 dias vinha passar o fim-de-semana sem obedecer à regra da folga
semanal que não me daria jeito nenhum, em virtude da distância a que estava de
casa e da complexidade de transportes nesse tempo. Uma ou outra vez, dada a
proximidade a que estava do Porto, ia visitar o meu compadre, o padrinho do meu
filho mais velho que esteve comigo em Angola e que mora ainda hoje em Santa
Cruz do Bispo. Ia à tarde no autocarro e voltava no outro dia de manhã cedo,
pois havia transportes de e para o Porto, de meia em meia hora.
A
meio de Agosto regressámos às nossas unidades e entrámos com 30 dias de licença
de férias até meio de Setembro, após o
que regressámos de novo à Ajuda para início do novo ano lectivo.
Fomos
pouco depois graduados em furriel. Ascendíamos assim à classe de sargentos
provisoriamente – coisa esquisita – não fosse dar-se o caso de chumbarmos por
falta de aproveitamento, pois, se assim fosse, voltaríamos a ser desgraduados e
passaríamos de cavalo a burro, ou seja, de furriel a cabo.
Não
sei até que ponto isso era legal e constitucional e várias vezes nos
questionámos uns com os outros. Mas depois que o vimos acontecer a um dos nossos
camaradas, nunca mais ousámos duvidar. Só mesmo na Guarda aconteciam aquelas
insólitas “graduações” porque nas forças armadas o posto de furriel era o
primeiro da classe de sargentos e em situação alguma seria despromovido
de furriel para regressar ao posto de cabo. Felizmente, fruto de muito empenho, trabalho, e a preciosa ajuda de alguns camaradas que nunca esquecerei, logrei alcançar com êxito, o final do curso.
Reza
o diploma que tenho pendurado no meu pequeno escritório em casa e em escrita
gótica, o seguinte:
Guarda Nacional
Republicana
Centro de Instrução
Faz-se saber que José
Manuel Lourenço Coelho, filho de António Maria Coelho e de Florinda da
Conceição Lourenço, nascido na freguesia de Beirã, concelho de Marvão, concluiu
no ano lectivo de 1984-1985 com a classificação final de 12,39 valores, o curso
de Formação de Sargentos estabelecido pelo Decreto-Lei nº465/83 de 31 de
Dezembro. Para constar onde convier e poder o interessado gozar de todas as
regalias que legalmente lhe pertencerem, se lhe passa o presente Diploma, que
vai assinado pelo Comandante, e firmado com selo branco deste Centro de
Instrução.
Lisboa, aos vinte dias do
mês de Junho de mil novecentos e oitenta e cinco.
O Comandante
José
Coelho in Histórias do Cota
domingo, 7 de maio de 2017
Dia da Mãe 2017...
Foto emoldurada pelo querido amigo José Alberto Barbosa
Para
Sempre
Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
—
mistério profundo —
de
tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.
Carlos
Drummond de Andrade
sábado, 6 de maio de 2017
quinta-feira, 4 de maio de 2017
Coisas q'escrevi...
6º Curso de Formação de Sargentos 1983/85 - CI/GNR/AJUDA
Mudança de rumo
A vontade de ascender na carreira profissional contagiou vários camaradas do posto de
Castelo de Vide nos tempos que se seguiram. Em apenas dois anos, concorremos ao
curso de cabos cinco soldados, três dos quais se catapultaram em seguida para o
curso de sargentos.
Um
deles fui eu.
A
guarda estava muito deficitária de graduados porque a promoção ao posto
imediato implicava quase sempre a transferência de unidade e colocação em
cascos de rolha e o consequente afastamento da família por normalmente não ser
aconselhável a mudança de casa em virtude de os filhos estarem a meio dos seus
estudos nas escolas das zonas de residência, o que originaria imensos
transtornos. Além disso a diferença de ordenado por motivo da promoção não
justificava tais incómodos. Tendo ainda em conta que muitos militares demoravam
mais de dez anos a chegar novamente perto das suas famílias, era um risco que
muita gente se escusava correr.
Por
isso mesmo as vagas para cabo e sargento eram muitas e em 1982 entendeu o então
comandante geral proporcionar a quem quisesse arriscar algumas benesses muito
razoáveis e aliciantes. E foi assim que, provavelmente influenciados uns pelos
outros, dois dos militares mais antigos - um deles já com quarenta anos - e
três dos mais novos, decidimos concorrer.
Tal
foi o nosso empenho que passámos todos as provas de admissão. Meses
depois e sendo eu ainda soldado a meio do curso de promoção a cabo, abriu novo
concurso para admissão ao curso de sargentos. E uma das tais benesses que o
general comandante geral na altura concedeu, foi a de prescindir temporariamente
da cláusula que obrigava os candidatos a sargento a permanecerem um mínimo de
três anos no posto de cabo.
Estávamos
em Março e faltavam ainda três meses para o terminus do meu curso de cabos,
pelo que nem eu nem nenhum dos meus camaradas sabíamos ainda se conseguiríamos
chegar ao fim com aproveitamento porque estávamos sujeitos a chumbar em
qualquer das disciplinas, etapas ou objectivos, se porventura não fossem alcançados.
Eis
senão quando e por um novo despacho de carácter excepcional do então comandante
geral, o referido concurso de admissão ao curso de sargentos desse ano foi extensivo também aos candidatos que se encontravam na frequência do curso de
cabos e se sentissem com capacidade para prestar provas mesmo sem ter ainda
terminado o curso, tendo em conta que, na data prevista para início do de
sargentos em Outubro desse ano, supostamente já todos seríamos cabos.
A
maioria dos meus camaradas ficaram entusiasmadíssimos com o convite até porque
a maior parte deles tinham o 5º ou mesmo o 7º ano - equivalentes hoje ao 9º e ao 12º respectivamente - e eram as habilitações que nesse
tempo antecediam o ingresso ao ensino superior. Por isso não temiam as provas
escritas de admissão.
Já
para as provas físicas era bem mais complicado por terem fama de ser duríssimas
e a realizar numa unidade do exército estranha à guarda – a academia militar –
e metiam as costas para dentro a toda a gente pelo seu lendário grau de
dificuldade. Eram mesmo ali que tinham chumbado sempre a maior parte dos
candidatos aos cursos anteriores.
Eu
ouvia-os mas nem ousava alimentar ilusões. Tinha só a quarta classe do ensino
primário. A escolaridade mínima obrigatória. Apesar de ter alguma facilidade em
assimilar as coisas e não estar assim muito mal posicionado em termos de notas
na classificação geral do curso de cabos pois nos 94 instruendos eu estava no 48º
lugar que não era nada mau tendo em conta que a sua equivalência era a nível do
9º ano de então e tinha áreas que eu desconhecia totalmente mas com as quais me
tive que desenvencilhar; matemática, história universal, física e química,
ciências do ambiente, língua francesa, direito penal, civil e administrativo, além de outras mais de que nunca sequer ouvira falar.
Para
conseguir aguentar a pedalada tinha que estudar todas as noites duramente. Sete dias por
semana até às duas ou três da manhã enquanto aqueles que tinham outras
habilitações literárias arrumavam os livros às cinco da tarde quando terminavam
as aulas, tomavam o duchezinho da ordem, jantavam tranquilamente, vestiam-se “à
civil” e punham-se a milhas, a caminho da baixa lisboeta para se irem divertir.
Ao
contrário deles eu nem sequer aos fins-de-semana podia pousar os livros! Nas
viagens de comboio entre Santa Apolónia e Castelo de Vide e vice-versa,
sentava-me a ler e a fazer apontamentos todo o tempo que a viagem durava. Nos
sábados e domingos, em vez de dormir a manhã na cama como precisava e porque
tinha os filhos pequenos, levantava-me às seis da manhã – a minha
Maria é testemunha disso – para me fechar na sala a estudar sossegado e poder
concentrar-me antes de os miúdos acordarem e para poder depois dar-lhes também algum
miminho e atenção.
Voltando ao convite para o curso de sargentos, o bichinho da tentação para me aventurar e concorrer a sargento começou a minar o
meu espírito aventureiro. Se por um lado pensava que era areia demais para a
minha camioneta, logo a seguir o meu subconsciente respondia que nada perdia em
tentar. Se conseguisse, conseguia, se não conseguisse, pelo menos tinha
tentado. E se não aceitasse o desafio então é que nunca poderia saber o
resultado.
Para
ser justo devo referir ainda a impagável ajuda de muitos dos camaradas de
curso, daqueles que tinham mais habilitações e que tão generosa como
pacientemente nos explicavam, ensinavam e com isso muito ajudaram nos intervalos das aulas ou quando regressavam da borga à noite. E não só a
mim como também aos outros doze camaradas que como eu tinham só a quarta
classe e por isso tínhamos que “marrar” até às tantas.
Foi
imprescindível a sua ajuda tão generosa como louvável a todos os níveis se analisarmos
que naturalmente eles teriam muito mais vantagem em evitá-la por serem
candidatos como nós, e, por isso, quantas mais negativas nós tivéssemos, mais se
consolidaria a sua posição na classificação geral. Bons tempos da velha Guarda em que a
amizade e a camaradagem não era apenas retórica…
José
Coelho in Histórias do Cota
segunda-feira, 1 de maio de 2017
Beirã - Maio 2017...
Preparado pela Joaquina Coelho, o altar da Senhora de Fátima no ano do centenário das aparições. Nas fitas azuis estão inscritas as datas 1917 e 2017
Coisas q'escrevi...
O posto onde todos estes factos aconteceram - Desconheço o autor da foto
Honras de ordenança (Mas
não só)
Para
encerrar a já longa narrativa da minha vida naquele posto não quero deixar
para trás a atitude do então muito melindrado cabo comandante que, logo no dia
a seguir à “briga” e numa atitude completamente inédita, me nomeou na escala de
serviço de ordenança para sair com ele a pé em ronda às patrulhas após o
almoço.
No
posto tudo tinha voltado já à normalidade. Achei estranho o facto
de o ordenança ser eu porque nunca o fora, já que por norma era sempre
nomeado um camarada condutor e as rondas feitas de jipe pois os cabos (co)mandantes
de posto desse tempo nunca andavam a pé. Era mesmo um estatuto deles!
Saímos então naquela tarde à hora escalada e não sei por que carga d’água pela porta das
traseiras do posto. O cabo de metralhadora a tiracolo como era protocolar por
ser graduado e eu com a velha mauser ao ombro em direção à Corredoura de São
Roque e dali pela azinhaga bordejada de castanheiros que rumava para a Quinta
do Prado. Muito amável e estranhamente atencioso para quem tratava quase sempre
os guardas mais novos como se fossem seres insignificantes.
-
Hum! Aqui há gato outra vez! Pensei.
-
E não me enganei.
Às
páginas tantas o cabo tossiu para afinar a garganta e pediu-me num tom matreiro
muito cúmplice e a modos que confidencial:
-
Agora que já ninguém nos ouve o senhor Coelho vai-me contar todas as coisas que
o senhor (…) anda a dizer de mim! Nunca pensei que ele fosse assim, ó senhor
Coelho! Tal é aquele traste?
Olhei
para ele sem qualquer constrangimento e respondi-lhe com a maior franqueza.
-
Não, nosso cabo! Não vou dizer-lhe mais nada. E ontem só me referi ao que esse camarada
diz de si porque o senhor o estava a encobrir depois de ele me ter difamado. E
ao encobri-lo, o senhor estava a fazer-me passar a mim por parvo.
-
Ele diz de si é verdade porque eu não sou mentiroso. Mas também não sou de
intrigas. E se o senhor quer saber tudo é muito fácil. Mande reunir o efetivo
do posto uma manhã ou uma tarde destas e faça essa pergunta que me fez agora a
mim a todos os outros porque o que eu ouço e o que eu sei todos os meus camaradas
ouvem e sabem também. Se eles assim o entenderem poderão contar-lhe tudo na
presença do visado como eu fiz ontem porque assim se deve fazer
para não sermos todos iguais…
Não
percebi se foi para mudar de tática ou se foi por ter ficado convencido do meu
rotundo “não” ao seu convite de promoção a “bufo”, o cabo comandante após
proferir um "acho que você tem razão" mudou de tema e começou a
elogiar as minhas “grandes qualidades” como homem da guarda apesar de ser ainda
tão novo. Que eu era assim, que eu era assado, que as pessoas na vila me tinham
já um grande respeito e que isso era muito bom sinal. E mais isto, e mais
aquilo…
Não
gostei. Não gostei mesmo, nem me senti nada lisonjeado com tal atitude. Era
graxa barata. Hipocrisia pura. Detesto essa forma de relacionamento
profissional de tal modo que nunca a pratiquei, nem enquanto subordinado para
com os meus comandantes, nem mais tarde já como comandante para com os meus
subordinados.
Sempre
entendi que um homem é um homem e que deve por isso empenhar-se em fazer bem
feito tudo aquilo que é competência sua. Deve ainda também assumir imediata e
responsavelmente as consequências de tudo quanto faz e diz. E se fez bem feito
deve sentir apenas uma saudável e justa satisfação por ter agido de acordo com
a sua obrigação. Mas se por lapso fez mal feito, deve em seguida e mal se
aperceba do erro cometido ter a humildade de o reconhecer e se possível corrigir
de imediato. Seja qual for a sua posição na vida.
Tal
máxima em meu entender é universal, aplicável a qualquer cidadão do mundo e em
todos os níveis da sociedade, com muito maior ênfase, dever, obrigação e
responsabilidade para todos quantos detêm poderes de governo, de direção, de comando ou de chefia.
Para
ser um homem não basta cortar a barba ou mijar de pé. Ser um homem tem de facto
e no meu entender muito mais que se lhe diga. Tenho plena consciência de que
não sou perfeito mas tenho contudo também a firme convicção de que todos os
dias da minha vida procurei nortear a minha conduta pelos princípios e valores que
me foram transmitidos desde o berço, e que, graças a isso, soube agir sempre de
forma responsável em tudo quanto fiz ou disse. Até quando a minha dignidade e paciência
foram levadas ao extremo do aceitável.
Tudo
quanto o meu comandante de ronda e de posto não prativava quase sempre e muito menos ali, naquele preciso momento. Havia uma cruel
mentalidade de princípios nesse tempo, um estatuto estranhamente rígido, desumano
e desadequado. Um cabo comandante de qualquer posto territorial era de maneira
geral um acérrimo praticante e defensor do quero, posso e mando, com um
estatuto de quase-general. Aliás, eram mesmo zombeteiramente apelidados pelos
efetivos que comandavam de “generais de província”.
Por
sua vez isso originava em alguns dos guardas mais antigos, com algumas exceções
obviamente, uma mentalidade prepotente. A velhice era também um posto. Mas um
posto sem qualquer controlo e em que cada um exercia como lhe apetecia e conforme
era seu timbre. Recordo por exemplo um dos meus antigos comandantes de patrulha
– da Abegoa - Marvão – que “adorava” “judiar” com os mais novos mas que também
se enganou quando bateu à minha porta.
De
patrulha aos campos a pé pelos giros mais longos, tinha a “balda” de caminhar
em passo acelerado, quase a correr, para atingir a “ponta” do giro 7 ou 8 quilómetros
distante do posto e cujo percurso era calculado para fazer em 4 horas na ida e
outras 4 no regresso mas que ele fazia apenas em hora e meia pelo prazer de ver o
mais novo cansado, a transpirar, aflito com as botas novas a magoar-lhe os pés
ou sem saber ajeitar no ombro da forma mais cómoda o “empecilho” da pesada
espingarda mauser.
No
dia que me fez isso a mim no giro do Barregão e Atalaia acompanhei-o naquela
marcha acelerada durante dois ou três quilómetros sem nada dizer. Quando me
cansei abrandei pura e simplesmente o passo para uma marcha normal continuando
na minha atitude de nada dizer.
Ele
afastou-se umas centenas de metros até que por fim abrandou, esperou por mim e vociferou-me
asperamente que eu tinha que o acompanhar porque a patrulha era a dois.
Tranquilamente,
sem me atemorizar com o seu tom agressivo, respondi-lhe:
-
Pois é nosso pronto, mas também temos oito horas para a fazer. Se você tem
pressa vá andando que eu sei o giro e não tenho medo de o fazer sozinho…
Que
remédio teve ele senão caminhar ao meu ritmo e foi se quis! Nunca mais piou no
resto da patrulha e também nunca mais cometeu aquela proeza comigo. Não nos
dávamos mal mas também nunca fomos grandes amigos apesar de sermos os dois do
termo de Marvão. Assim me defendi sempre e exigi o respeito do restante efetivo
daquele posto até algum tempo depois concorrer ao curso de promoção a cabo que
tive a sorte e o privilégio de conseguir superar. Mas esse relato fica para um próximo capítulo…
José
Coelho in Histórias do Cota
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