terça-feira, 21 de julho de 2026

Cante Alentejano à Senhora do Carmo

Na tarde quente do passado dia 16 de julho na Beirã, quando o sol escorria pelas paredes brancas da aldeia como ouro antigo, estava eu, diante da igreja cheia, sentindo o coração bater mais depressa do que a respiração.
A Senhora do Carmo brilhava no seu altar, rodeada de flores e de uma luz que parecia vir de dentro dela. E eu sabia que o momento se aproximava, aquele instante em que a minha voz ficaria sozinha, exposta, frágil, entregue.
O silêncio caiu. E comecei.
“Senhora… que és Padroeira… da nossa terra… hospitaleira.”
Sempre que canto estes versos, sinto a alma tremer. Há um aperto que me sobe à garganta, uma emoção que ameaça quebrar-me a meio. Mas avanço. Avanço porque não canto sozinho: canto com a fé de todos, canto com a história da aldeia, canto com a Senhora a olhar para mim.
Alonguei o “hospitaleeeeiiiraaa” como quem estende a mão à assembleia. E então aconteceu o milagre de todos os anos: o coro e a igreja inteira levantaram-se numa só voz.
“Nossa senho-o-o-ra do Carmo… que está-á no seu altar…”
Aquele momento não se explica, vive-se. A igreja vibrou. As velas estremeceram. As paredes respiraram. E eu senti que a aldeia inteira estava ali, unida, como se cada pessoa tivesse deixado à porta o peso da vida para entrar só com a fé.
O Senhor Bispo e os dois reverendos Padres voltaram-se para a Senhora e cantaram conosco. Não como autoridades, mas como homens tocados pela mesma luz.
E isso, para mim, foi uma bênção silenciosa.
Depois, o silêncio voltou.
E eu, sozinho outra vez, retomei o cante:
“Pedi-i-mos… a uma vó-óz… Nossa Senho-o-ra, rogai por nós.”
A voz embargou-se, mas não caiu. O coração apertou, mas não me traiu. E quando terminei, estava lavado em incontíveis lágrimas.
Como sempre.
Lágrimas de devoção, de felicidade e de missão cumprida.
Naquele dia, não fui apenas tenor. Fui ponte. Fui oferenda. Fui o homem que deu voz ao que todos traziam no peito.
E a Senhora do Carmo ouviu.
Texto e foto