sexta-feira, 3 de julho de 2026

Vida simples e bem vivida

Após uma mais que merecida noite de descanso, pus-me a pé ainda o dia não tinha decidido aquecer. A luz entrava a cachão pelas janelas como quem pede licença, e a casa guardava aquele silêncio que só existe antes das primeiras tarefas.
Foi então que vi o comentário da Vizinha Alzira, escrito na madrugada, como uma flor que se abre quando ninguém está a ver. Li-o devagar. Senti-o como se fosse um abraço deixado à porta.
E respondi logo ali, antes do café, porque a gratidão também nunca se deve deixar para depois.
Tomámos o pequeno almoço e a minha companheira foi cuidar das limpezas do fim de semana. Há um ritmo muito próprio, no modo como orienta a casa: não é pressa, não é esforço, é uma serenidade antiga, uma espécie de oração doméstica.
Cada gesto seu põe o mundo no devido lugar. E eu vendo-a tão ocupada, fui para a cozinha cumprir o meu papel de cozinheiro de dia, à moda da tropa.
Porque a vida a dois, é isso mesmo: partilha.
O fogão acendeu-se como um pequeno sol e o cheiro do almoço – uma sopa alentejana de batatas com beldroegas e ovos escalfados – começou a subir pelas paredes.
Cortei, temperei, mexi, com aquela paciência que vem de dentro, não de fora. O almoço ficou pronto, a cozinha arrumada e a casa ganhou o sossego que só aparece quando as tarefas se cumprem com amor.
A seguir vim espreitar o mundo do lado de fora da Toca dos Coelhos através da máquina HP Pavillion All-in-One, ler os jornais digitais e agora conversar convosco, como quem regressa ao banco da praça depois de cuidar da vida.
Há uma beleza discreta nestes instantes: a madrugada que me trouxe palavras de amizade, a companheira que organiza o mundo com a força tranquila das suas mãos, o almoço que fiz como quem escreve um poema sem papel, e este intervalo luminoso onde o tempo abranda e a escrita se acende.
Assim se faz a poesia dos meus dias: não com grandes gestos, mas com a verdade simples de duas vidas bem vividas.
A terminar, deixo os melhores votos de um excelente fim de semana a quem se dê ao trabalho de ler o que escrevo e ao resto do mundo, também.
Deixo ainda a imagem deste lugar paradisíaco que é a Portagem, provavelmente o mais fresco do concelho de Marvão, onde poderão abrigar-se deste calor excessivo que não faz bem à saúde, mormente à “rapaziada” do meu tempo. Cuidem-se…
Texto e foto