sexta-feira, 10 de julho de 2026

A fé da Beirã encontrou abrigo no silêncio da minha casa

Sempre o senti. Nunca precisei de o dizer. A paz, para mim, não é para se exibir, é para se viver. E talvez por isso este acontecimento tenha chegado com a nobreza das coisas que não se anunciam.
Inesperadamente, sem nunca sequer ter sido sonhado por tão improvável que era, a Senhora do Carmo – Padroeira da Beirã desde 1943 – veio repousar no meu lar.
Jamais imaginei que a imagem que acompanhou gerações inteiras da minha aldeia, que viu procissões atravessarem as ruas da terra, que escutou promessas murmuradas ao entardecer, que acolheu lágrimas e esperanças, viria encontrar abrigo precisamente aqui, neste espaço simples onde há 74 anos nasci, onde vivo agora com serenidade e gratidão.
Quando a Senhora entrou, não entrou apenas uma imagem. Entrou a história da Beirã. Entraram as vozes das mulheres que rezaram diante dela, os passos firmes das procissões, as mãos calejadas dos homens que nela confiaram. Entrou a memória viva de um povo inteiro, com a sua dignidade antiga e o seu coração fiel.
E a minha casa – esta casa que sempre cuidei com respeito, com silêncio e com verdade – reconheceu a hóspede. Houve luz, mas não ostentação; houve recolhimento, mas não vazio; houve presença, mas não peso.
Houve, acima de tudo, paz profunda, aquela paz que não se explica, apenas se sente.
Mas esta honra não começou agora. Começou há mais de sete décadas, quando eu ainda era apenas o Zéi com dois anos, a aprender a falar, a descobrir o mundo com passos pequenos.
Contava a mãe Florinda que sempre que os sinos tocavam para a missa, eu desatava a correr pela rua abaixo. Ela chamava: “Zéi… mas onde é que vais a correr tanto?” E eu, ainda a tropeçar nas palavras, respondia com a alegria pura da infância: “Vou à micha, mãe… vou à micha.”
Talvez essa corrida de menino tenha sido o primeiro passo para este inesperado e tão honroso acolhimento, porque desde aquele tempo até hoje, a Senhora do Carmo foi o farol da minha vida, a luz que nunca se apagou, a presença que sempre me guiou, mesmo quando o caminho era estreito, mesmo quando a noite era longa.
Não escrevo estas palavras para exibir a minha profunda devoção. Não as escrevo para me colocar no centro de nada. Escrevo-as apenas porque são verdade.
A maior honra da minha vida aconteceu assim sem testemunhas, sem discursos nem alardes. Aconteceu no silêncio de que tanto gosto e me acompanha permanentemente, no silêncio que permaneceu desde o dia que a Senhora chegou até hoje, o dia em que a Senhora regressou ao seu altar, ao seu lugar de sempre, ao coração da comunidade que a ama desde 1943.
Só hoje, quando tudo está de novo no seu lugar, publico estas linhas. Não para me gabar mas para deixar registado que, por alguns dias, a minha humilde casa foi abrigo de uma história maior do que eu. E que essa história me trouxe uma honra sem tamanho, uma alegria sem fim, uma bênção que nunca imaginei merecer, quanto mais receber.
Avé Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco...
Texto e foto