quarta-feira, 15 de julho de 2026

O menino que aprendeu o valor do mundo antes de o mundo lhe dar valor

Mesmo quando o tempo tenta levá-las devagar, há memórias que não se apagam. Ficam ali, como pedras antigas aquecidas pelo sol, prontas a serem tocadas sempre que o coração precisa de recordar de onde veio. A minha começa numa aldeia pobre, onde a chuva não era apenas chuva: era ausência de trabalho, ausência de pão, ausência de dinheiro. Uma semana de céu fechado era uma semana de mesa curta, e ainda assim as mães camponesas punham a mesa todos os dias, como se a esperança fosse também um alimento.
A mãe Florinda punha a mesa para seis. Todas as outras mães punham e algumas para oito, para dez. Era um gesto que não se discutia, não se lamentava, não se dramatizava. Fazia se. E nesse fazer havia uma grandeza silenciosa que só quem viveu a pobreza verdadeira consegue compreender.
Não era heroísmo. Era sobrevivência. Era amor. Era dignidade.
Naquele tempo, os merceeiros eram quase santos sem altar. Nunca negavam um avio, fosse farinha, azeite, arroz, sabão ou açúcar. Sabiam que a pobreza não era falha moral, era destino. Sabiam que o freguês voltaria, que pagaria até ao último centavo assim que o sol deixasse trabalhar a terra. Havia uma ética antiga entre pobres e pobres: ninguém ficava para trás.
Essa confiança mútua foi, talvez, a primeira forma de solidariedade que aprendi a reconhecer.
Foi nesse mundo que a Mestra Vicência me ensinou a ler, a escrever e a contar. E, sem saber, abriu-me uma porta que nunca mais se fechou. A leitura tornou-se abrigo, a escrita tornou-se casa, os números tornaram-se ferramenta. Enquanto os filhos dos funcionários públicos tinham brinquedos, roupas novas e mesas fartas, eu tinha livros emprestados por eles e, sem perceber, tinha o mundo inteiro dentro deles.
A leitura e a escrita eram o meu refúgio. Não para fugir da vida, mas para a compreender. Era a forma de me erguer acima das ausências, de construir dentro de mim aquilo que faltava fora. Talvez por isso tenha nascido tão cedo o "meu vicio da escrita”: porque escrever era a única coisa que não dependia da chuva, do patrão, da colheita, da carteira vazia. Escrever era liberdade.
Aos onze anos, quando entreguei à minha mãe os meus primeiros cento e cinquenta escudos mensais, senti uma alegria que ainda hoje me aquece. Não era dinheiro, era dignidade. Era poder ajudar. Era perceber que, mesmo pequeno, já podia aliviar um pouco o peso que ela carregava sozinha. E essa consciência precoce moldou-me mais do que qualquer escola, mais do que qualquer livro, mais do que qualquer lição.
Cresci a saber que a vida não nos deve nada. Que o que temos, damos. Que o que falta, inventamos. Que o que dói, escrevemos. E que o que amamos, guardamos.
Hoje, quando olho para trás, vejo o menino que fui: pobre, sim, mas rico de vontade; com pouco, mas cheio de mundo; sem brinquedos, mas com palavras; sem luxos, mas com uma ânsia enorme de ser útil. E penso nos homens de trinta anos de hoje que ainda dependem dos pais para tudo. Não os julgo, apenas reconheço a diferença de tempos, de urgências, de vidas.
Aquele menino da aldeia, que entregava cento e cinquenta escudos com orgulho, ainda vive dentro de mim. É ele que me lembra que a grandeza não está no que se possui, mas no que se reparte. É ele que me diz que a pobreza não rouba carácter – revela-o. É ele que me ensina que a dignidade nasce muitas vezes daquilo que falta, e não daquilo que sobra.
Por isso escrevo. Porque a memória não é só passado, é também espelho. E eu continuo a ver naquele menino a melhor parte de mim.

Foto na minha profissão de fé, com 10 anos. A mãe Florinda punha-me sempre uma gravatinha, mas neste dia - comunhão solene - tive direito a um papilon, provavelmente costurado por ela.