Há pessoas que passaram pela minha vida como vento: chegaram, tocaram-me por instantes, deixaram um sorriso breve e seguiram o seu caminho. Mas outras… outras ficaram. Ficaram como raízes antigas, dessas que seguram o chão mesmo quando a vida muda de estação. São presenças que não se apagam, mesmo quando o tempo tenta levar tudo consigo.
E eu lembro-me, sim. Lembro-me da infância pobre em bens, mas rica em afetos. Lembro-me da menina – a querida Batistinha – que repartia o lanche comigo, sem cálculo nem medida, apenas porque a amizade já vivia ali, mesmo antes de sabermos o que era amizade. Do sapateiro que denunciou a cumplicidade dos dois, talvez por achar graça à cena. Mas o mais bonito foi a resposta: a mãe dela, em vez de se zangar, começou a enviar dois lanches. Dois. Como quem diz: partilhem, que a amizade é coisa boa.
Esse gesto ficou gravado em mim como uma bênção que ainda hoje me acompanha.
Também me lembro do dia em que fugi à mestra para ir ver o ensaio na sociedade. Eu queria tanto participar, tanto sentir aquele mundo maior do que a mestra, mas não tinha roupa “fina”, nem sapatos, nem traje de beirão de Monsanto. Era apenas o menino descalço, com a roupa do dia, e um sonho enorme no peito.
E foi então que a vida me mostrou o que é a generosidade verdadeira. A mãe de um companheiro – o Joaquim Eusébio – abriu o armário e emprestou-me a roupa dele. Sapatos incluídos. Vestiu-me para o sonho. Vestiu-me para a vida. E naquele gesto simples começou a minha pequena “carreira artística”, que ainda hoje me faz sorrir quando a memória me chama.
Ao longo dos anos, muitos passaram. Alguns ficaram apenas como brisa. Mas outros – os mais raros, os mais preciosos – ficaram como raízes profundas. São os que atravessaram décadas, oceanos, continentes. São os que me guardaram no coração mesmo quando a vida nos separou por mares e por anos. São os que regressam de vez em quando vindos do Canadá ou de outras paragens, trazendo consigo o perfume antigo das memórias partilhadas.
A amizade sincera não envelhece. Amadurece. Não exige presença diária, nem fotografias, nem provas. Vive na memória boa, na estima guardada, no reencontro que não estranha. Vive na certeza de que fui importante para alguém e alguém foi importante para mim.
Hoje, quando um amigo de há setenta anos atrás bate à minha porta, não é apenas ele que chega. É a minha própria história que regressa para me dizer que valeu a pena ser quem fui. Que valeu a pena ser verdadeiro, ser leal, ser raiz na vida dos outros.
Esta crónica é a minha homenagem para todos eles e elas: para quem repartiu o lanche, para quem me vestiu para o sonho, para quem caminhou comigo na poeira da infância, para quem me guardou no coração, para quem regressa sempre com o mesmo brilho antigo no olhar.
A amizade eterna é isso: um fio que não se rompe, uma raiz que sustenta, uma luz que atravessa o tempo, uma bênção que se renova no reencontro. E eu, que o vivi, sou testemunha de que a amizade, quando é sincera, não passa, fica para sempre.
Tchim-tchim a todas as amigas e amigos – felizmente são ainda muitos – que me honram com a sua estima e amizade desde a nossa infância.
José Coelho