Às vezes o mundo parece-me suspenso, como se precisasse de respirar devagar para não perturbar o principal habitante da minha Beirã: o silêncio.
Sentado à mesa onde vou escrevendo tantas memórias, percebo agora que a vida é feita de camadas: umas que brilham, outras que doem, outras que apenas existem, como o murmúrio distante do rio Sever, a correr entre fragas sem pedir testemunhos.
A verdade é que caminhamos sempre entre o que fomos e o que ainda tentamos ser. E nesse intervalo tão estreito, tão humano, cabe tudo: o cheiro da melancia fresca, a voz da Manuela a chamar-me, o riso das netas que devolve ao mundo a inocência que julgávamos perdida, a igreja limpa e arrumada com as nossas próprias mãos, como quem arruma também a sua própria alma.
A vida não é um enigma para decifrar. É uma presença para escutar.
E quando a escutamos com atenção percebemos que ela nos fala sempre da mesma coisa: da beleza discreta que se esconde nos gestos pequenos, da força que nasce da humildade, da eternidade que cabe num domingo em família.
Talvez a maior sabedoria seja essa: aceitar que somos feitos de instantes e que cada instante por mais breve que seja, deixa em nós uma marca que o tempo não apaga.
Tenham uma excelente terça-feira.
