Há momentos na vida em que o silêncio se adensa tanto que deixa de ser ausência: torna se matéria. Podemos quase pousar-lhe a mão, como quem toca numa parede antiga que guarda histórias. Nesse silêncio, percebemos que a vida não se explica, revela-se. Revela-se nos gestos que ninguém viu, nas palavras que nunca encontraram voz, nas memórias que regressam mesmo quando o corpo já não tem força para lhes abrir a porta.
Com o tempo aprendi que ele não é uma linha esticada entre o que fomos e o que seremos. O tempo é um círculo. E nesse círculo cabem as vozes dos nossos pais chamando-nos para dentro de casa ao anoitecer, o cheiro da terra molhada depois da chuva, o eco das nossas mãos a arrumar canetas sobre a secretária, como quem tenta alinhar também o que ficou desalinhado dentro da alma.
A profundidade não mora no pensamento. Mora no instante em que o pensamento se cala e o coração, finalmente, fala. É aí que descobrimos que a vida não nos pede grandeza: pede-nos verdade. A verdade humilde dos que amam sem fazer barulho. A verdade silenciosa dos que carregam responsabilidades que ninguém vê, mas que sustentam o mundo. A verdade dos que sabem que cada pessoa é uma história inteira feita de perdas, de pequenos milagres, de resistências que nunca foram celebradas.
E então percebemos que existir é uma espécie de oração contínua, mesmo para quem não reza. Uma oração feita de passos, de escolhas, de memórias que se tornam raízes. O que realmente importa não é o que conquistámos, mas o que permanecemos apesar das tempestades, das noites longas, das feridas que o tempo não fechou.
Profundidade é aceitar a fragilidade sem desistir de ser quem somos; é reconhecer que somos finitos, mas amar como se não fôssemos; é saber que o mundo muda, mas guardar dentro de nós aquilo que nunca deve mudar – a bondade, a lealdade, o silêncio que nos devolve ao essencial.
