A Guarda Nacional Republicana foi para mim mais do que uma instituição. Foi chão, foi destino, foi escola de vida. Entrei como Soldado, num tempo em que a farda tinha o peso da tradição e o estatuto de OPC – Órgão de Polícia Criminal – nos colocava lado a lado com todas as forças policiais do país. Éramos militares, sim, mas também investigadores, patrulheiros, homens de proximidade e de lei.
Comecei nas patrulhas, onde aprendi a verdadeira dimensão da palavra “servir”. A estrada era o meu livro, as aldeias eram capítulos vivos, e cada pessoa que encontrava era uma história que me ensinava qualquer coisa. Havia noites longas, de silêncio espesso, em que o motor da viatura parecia o único som do mundo. Havia madrugadas em que o frio entrava pelos ossos, mas o dever aquecia o espírito.
E havia também o lado humano: o idoso que esperava a nossa visita como quem espera família, a criança que nos via como heróis, o comerciante que dormia mais descansado porque sabia que estávamos lá. Foi ali que percebi que a segurança não se faz só com leis: faz-se com presença, com palavra, com respeito.
A fiscalização aduaneira, no meu tempo, era simples e direta: identificar estrangeiros, verificar documentos, detectar situações irregulares. Era uma peça discreta mas essencial da segurança nacional. E sempre houve colaboração institucional com a PJ, PSP, Guarda Fiscal, SEF, ASAE e outras congéneres, numa teia de proteção que fazia do país um corpo vivo, onde cada força era um órgão indispensável.
A proteção da natureza era um mundo. Caça, pesca, rios, cursos de água, ambiente, floresta, animais, tudo era GNR, tudo era responsabilidade nossa. A natureza não tinha ainda serviços especializados como hoje, mas tinha-nos a nós: soldados, cabos e sargentos que conheciam o terreno, que sabiam ler os vestígios, que distinguiam o canto das aves, que percebiam quando a terra estava ferida.
Fiscalizávamos a caça furtiva, a pesca ilegal, os despejos clandestinos, as agressões aos rios, as queimadas perigosas, os terrenos abandonados que se tornavam risco. E esse trabalho falava-me ao coração, porque sempre fui homem da natureza, de aves, de terra molhada.
A estrada, essa, era um livro aberto. Ali vi pressas que não voltam atrás, descuidos que mudam famílias, silêncios que ficam para sempre. Fiscalizar não era punir, era tentar evitar que o mundo se esquecesse das regras do civismo e da cidadania. E investigar acidentes era recolher pedaços de histórias interrompidas, marcas no asfalto que mereciam atenção.
A segurança a altas entidades que vivi não era a das grandes cerimónias de Lisboa, nem das escoltas a cavalo que pertencem à unidade especializada. A nossa era outra: a segurança territorial, aquela que se presta quando uma alta entidade entra no nosso espaço, pernoita na nossa área ou se desloca pelos caminhos que conhecemos como a palma da mão.
Preparávamos itinerários, verificávamos acessos, garantíamos que cada curva da estrada e cada porta de um edifício estavam sob olhar atento. Era o rigor silencioso de quem sabe que, por algumas horas ou dias, a responsabilidade aumentava e o território precisava de ser ainda mais seguro.
Foi na investigação criminal que a farda me pediu mais. Ali deixei de ser apenas patrulheiro: tornei-me olhos, memória, método, persistência. Como OPC, investigávamos furtos, burlas, violência doméstica, tráfico local de droga, agressões, danos, tudo aquilo que exigia olhar atento e trabalho minucioso. Aprendi a ouvir o que não é dito, a seguir rastos invisíveis, a reconstruir verdades partidas.
A investigação exige paciência, silêncio, coragem e humanidade.
Quando cheguei ao comando de posto, a chefia não foi um título, foi responsabilidade. Foi cuidar de homens e mulheres, decidir, orientar, proteger. Foi ser farol quando a noite era mais densa. Mais tarde, como chefe de secretaria de uma grande unidade de instrução, descobri que a Guarda também se faz de papel, de organização, de método. E que a eficiência administrativa é tão importante como a patrulha que percorre a estrada.
Ali percebi que a liderança não é mandar, é servir melhor.
Hoje, olhando para trás, sei que a Guarda não foi apenas profissão: foi caminho de vida. Foi o lugar onde cresci, onde me fiz homem mais consciente, onde aprendi que servir é uma forma de amar o país. A minha farda já não está no corpo, mas continua no gesto, na postura, na memória. E cada vez que rego as minhas plantas ao entardecer, sinto que a serenidade que transporto foi moldada por todas as estradas que percorri, por todas as pessoas que protegi, por todas as decisões que tomei.
A escolha certa. Foi isso que fiz. E foi isso que ficou.
Foto Pedro Coelho.
Os meus adereços do Grande Uniforme