quarta-feira, 1 de julho de 2026

A janela que me devolve o Mundo

Há objetos que não escolhemos: escolhem-nos eles a nós. Os meus óculos são companheiros silenciosos, indispensáveis, quase teimosos na forma como me lembram que já não avanço sozinho para dentro das palavras.
Sem eles, o mundo perde nitidez, as letras desfazem-se em sombras, e até o rosto das coisas parece afastar-se um pouco, como se pedisse licença para existir.
Procuro-os muitas vezes pela casa, como quem procura o próprio olhar. Quando finalmente os encontro e coloco, é como abrir uma janela que tinha ficado fechada.
A luz entra, o horizonte regressa, e tudo volta ao seu lugar: o papel, o ecrã, o livro, a memória.
Não são apenas lentes. São o gesto que me permite continuar a ver o que amo, as palavras que leio, as palavras que escrevo, as palavras que me sustentam.
E, no fundo, são também uma pequena lição de humildade: lembrar-me que, para ver bem, às vezes é preciso aceitar ajuda.
Texto e foto