terça-feira, 7 de julho de 2026

Crónica matinal da Beirã (nascida nesta alvorada fresca de julho, com o ritmo sereno que só a minha aldeia conhece).

A alvorada foi-se abrindo devagar como quem empurra uma porta antiga com cuidado para não acordar a casa toda. O sol vinha ainda tímido, escondido atrás da Murta, mas já deixava no ar aquele brilho dourado que faz cintilar as pedras e desperta os pássaros para o seu primeiro voo.
E eu já acordado, não por obrigação, mas por esse hábito antigo de quem aprendeu a ouvir o mundo antes que ele se torne barulhento. A Toca dos Coelhos respirava silêncio, apenas quebrado pelo arrulhar das minhas vizinhas rolas que parecem sempre saber quando começo o meu dia.
Ajeitei os óculos, como quem afina o olhar para o que importa, e deixei que a luz da manhã pousasse sobre a mesa onde a escrita me esperava, fiel como um cão velho.
O café com leite fumegava, espalhando aquele aroma que anuncia que o dia vai ser bom, mesmo que não traga novidades. Duas torradas, como sempre, esse pequeno ritual que me acompanha desde há tantos anos, quase uma oração doméstica.
Lá fora o quintal ainda estava húmido e as plantas cuidadas com paciência erguiam-se como quem agradece a água da véspera.
A aldeia começava a acordar. Uma porta que se abria, o motor de um trator que ronronava preguiçoso, o passo firme de alguém que vai para o trabalho. E eu, sentado à mesa, deixo que tudo isso me atravesse não como espectador, mas como parte da paisagem.
A Joaquina Coelho e a Maria Coelho começaram também cedo, com aquela energia decidida de quem sabe que a fé também se cuida com panos, paciência e mãos firmes. E começaram o ritual da limpeza dos “amarelos” esse nome tão aldeão, tão verdadeiro, que diz tudo sem precisar de explicação.
O brilho dos metais ia voltando devagar: coroas que voltaram a ser coroas, resplendores que voltaram a ser luz, castiçais que voltaram a ser braços de fogo, o sacrário que volta a ser casa. E eu, como sempre, estava ali. Não para mandar, mas para apoiar, porque apoiar é também uma forma de amar.
O incensário quando o levantei já pronto, parecia quase respirar. Há objetos que ganham vida quando são tocados com respeito. E eu toco-os como quem toca história, memória, promessa.
Depois uma pausa. Um café, um descanso breve, um respirar fundo. E nessa pausa olhei enternecido a Senhora que há dez dias acolho, a Senhora que é sempre a mesma, seja do Carmo, de Fátima, da Conceição, do Sagrado Coração de Maria, ou de qualquer outro nome que o povo lhe deu ao longo dos séculos.
A Senhora não muda. Muda o manto, muda o título, muda o lugar onde repousa… mas o coração é o mesmo. É a mesma Mãe que atravessa gerações, que entra nas casas, que acompanha os medos, que acolhe as alegrias.
Hoje, enquanto as senhoras limpam os metais e eu lhes dou apoio, é como se a aldeia inteira estivesse a preparar o regresso da Mãe ao seu lugar. E há uma beleza profunda nisso: não é só trabalho. É gesto de amor. É gesto de pertença. É profunda devoção.
Há uma serenidade particular no modo como decorrem estas minhas manhãs: não as apresso, não as domino, apenas as acolho. E é nesse acolhimento que nasce esta escrita. Esta crónica surge como a luz: primeiro tímida, depois clara, depois inevitável.
O dia ainda não se impôs, mas eu já lhe dou forma com palavras que são como pedras bem colocadas no caminho, firmes, honestas, sem artifícios.
A Beirã acorda comigo e eu acordo com ela. É um pacto antigo, silencioso, que só quem ama a sua terra compreende.
Tenham uma excelente terça-feira, família e amizades.
Texto e foto