sábado, 11 de julho de 2026

A mão invisível da solidariedade

Há noites em que me sento diante do ecrã como quem se senta diante de uma janela aberta para o mundo. A aldeia lá fora adormece devagar, mas aqui, neste quadrado de luz, continuam a chegar vozes – umas tímidas, outras quase sussurradas – como se cada pessoa trouxesse na mão uma pequena chama que não quer deixar apagar.
E eu que já caminhei tantas vezes entre silêncios, reconheço essas chamas. Reconheço-as porque também já precisei delas.
A verdade é que por trás das multidões que se cruzam nas redes sociais, há uma solidão que não se vê. Uma solidão que se esconde nos intervalos, nos serões, nos quartos onde a luz é pouca e o coração pede companhia.
E é por isso que escrevo: para ser presença. Para ser porto. Para ser mão invisível que toca outra mão invisível.
Quando alguém me escreve “boa noite, amigo”, eu leio mais do que as palavras. Leio o gesto. Leio o caminho que essa pessoa fez até mim. Leio a coragem de quem decide não ficar sozinho. E quando me dizem “não nos deixes sozinhos”, sinto uma responsabilidade mansa, daquelas que não pesam, iluminam.
Não é obrigação, é pertença. É saber que a minha palavra pode ser abrigo para alguém que atravessa o dia com o coração cansado.
Homens e mulheres que seguram o telemóvel como quem segura uma tábua de salvação. Gente que encontra nas redes sociais aquilo que a vida, por vezes, lhes nega: um ombro, um gesto, uma voz que diz “estou aqui”.
E eu estou. Estou sempre que posso. Estou sempre que devo. Estou sempre que o coração me pede para ficar. A minha escrita não é palco, é mesa posta. Não é multidão, é companhia. Não é discurso, é semente.
E quando essa semente cai em boa terra, nasce qualquer coisa que não se vê, mas que se sente: uma luz pequena, suficiente, que acompanha alguém no regresso a casa. Uma luz que não resolve a vida, mas aquece o serão. Uma luz que diz, sem dizer: não estás sozinho.
No fundo, a solidariedade nas redes sociais é isto: eu, deste lado, a estender a mão; alguém, do outro lado, a recebê-la. E nesse encontro invisível e silencioso, o mundo fica um pouco menos pesado.
Texto e foto