sexta-feira, 24 de julho de 2026

A Estação que merece respeito


Há lugares que não deviam conhecer o abandono. A estação de Marvão Beirã, ainda de pé como um velho pastor que já viu demasiados invernos, é um desses lugares. As telhas gastas, os azulejos a perderem o brilho, a erva atrevida a crescer entre os carris, tudo isso é mais do que degradação.

É um aviso. Um murmúrio. Uma espécie de lamento que só escuta quem ainda sabe ouvir a terra.
O poder político deste país, tantas vezes ocupado com urgências que duram apenas um ciclo eleitoral, esquece-se de que há urgências que duram séculos. O património é uma delas. Não cuidar dele é como deixar cair um livro antigo ao chão: perde-se a capa, soltam-se as páginas e quando alguém tenta recolher o que resta já não encontra a história inteira.
A estação da minha aldeia não pede muito. Não exige discursos, nem inaugurações, nem fotografias para jornais. Pede apenas respeito. Pede mãos que a toquem com cuidado, olhos que a reconheçam como parte da memória coletiva de um povo que já caminhava por estas terras quando ainda não havia nação escrita em papel.
E, no entanto, ali está ela: silenciosa, ferida, mas digna. Como se esperasse que alguém se lembrasse de que o passado também merece futuro.
A negligência não é só desleixo, é uma forma de empobrecimento.
Quando se abandona o património, abandona-se também a identidade. E um país que não cuida da sua memória arrisca-se a tornar-se estrangeiro dentro de si próprio.
Por isso, a “minha” querida estação não é apenas um edifício degradado. É um espelho. Mostra-nos o que fomos, o que somos, e o que poderemos deixar de ser se continuarmos a caminhar sem olhar para trás.
E talvez seja por isso que mais dói.
Porque quem ama a sua terra sente cada telha partida como se fosse uma pequena fratura no coração, e porque um país que não cuida da sua memória perde-se de si próprio, pois cada lugar abandonado é uma página arrancada da nossa história.
Texto e foto