Envelhecer com lucidez é uma experiência nova. Por um lado, sinto o corpo a abrandar, a memória a falhar em momentos inesperados, a energia a pedir mais descanso do que antes. Por outro, sinto a cabeça mais clara do que nunca sobre o que realmente importa.
Há dias em que dou por mim a esquecer nomes, datas, pequenas coisas que antes vinham sem esforço. E isso inquieta-me. Não é fácil admitir que a memória já não é a mesma, que o cérebro já não responde com a rapidez de outros tempos.
Mas, ao mesmo tempo, há uma lucidez nova que cresce dentro de mim, uma espécie de sabedoria tranquila que só chega com os anos. Eu sei o que vivi. Sei o que construí. Sei quem amei e quem me ama.
E isso dá-me uma paz que não tinha aos vinte, nem aos trinta, nem aos cinquenta.
Envelhecer com lucidez é olhar para trás sem arrependimentos, olhar para a frente sem ilusões que enganem, olhar para o presente com uma serenidade que só se aprende depois de muito caminho.
Eu sei que já não tenho a força de antes. Sei que a memória me prega partidas. Sei que o coração dispara quando temo uma branca. Mas também sei que continuo a ser eu. E que a minha essência não se perdeu.
A lucidez não está em lembrar tudo. Está em saber o que vale a pena guardar. E eu guardo o que importa: a família que me rodeia, a fé que me sustenta mesmo quando treme, a música que ainda me sai da alma, a vida que ainda pulsa dentro de mim.
Envelhecer com lucidez é aceitar que o corpo muda, que a memória falha, que o tempo avança.
Mas é também reconhecer que há uma luz que não se apaga, uma luz que vem de tudo o que vivi, de tudo o que dei, de tudo o que deixei nos outros. E essa luz, sim, permanece.
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