Há ausências que não se explicam, apenas se habitam. Doze anos depois, descubro que a saudade não é uma ferida, mas uma casa onde a memória acende luzes inesperadas. E é nessa casa que a minha mãe continua a entrar, sem pedir licença, como fazia quando chegava da horta com o avental cheio de cheiros da terra.
Nos últimos dias da sua vida, o corpo já não lhe obedecia, mas havia ainda uma claridade no olhar que me desconcertava. Eu sabia – como quem sabe sem querer saber – que ela caminhava para o fim. E, no entanto, havia nela uma serenidade antiga, como se já tivesse feito as pazes com tudo o que a vida lhe deu e tirou.
Uma tarde, perguntei-lhe baixinho:
– Mãe, o que sente?
Ela sorriu com aquela simplicidade que era só dela, e disse:
– Sinto vontade de ir ter com o teu pai.
Não era lamento. Era despedida. Era reencontro anunciado.
Mas o que nunca esquecerei foi o que aconteceu depois. Como se a alma tivesse encontrado uma porta secreta, ela começou a falar alto, feliz, radiante, chamando por gente que eu nunca conheci, mas que lhe habitava a juventude. Ria como quem volta a ser menina. Conversava com vozes que só ela ouvia. Chamava por animais, por lugares, por sombras boas que a acompanhavam desde o tempo em que corria livre pelos montes.
E eu, sentado ao lado, era apenas testemunha de um milagre discreto: a memória a abrir janelas para que ela pudesse respirar antes de partir.
Durante horas – tantas que perdi a conta – ela viveu num mundo que não era o meu. E nunca me chamou. Nunca disse o meu nome. Não por esquecimento, mas porque naquele instante ela regressava a um tempo anterior a todos nós, ao lugar onde a vida lhe era leve e inteira.
Quando finalmente se calou, foi como se alguém tivesse apagado o candeeiro. Adormeceu exausta, mas em paz. E eu fiquei ali, a segurar-lhe a mão, tentando compreender o que tinha acontecido.
Dias depois, partiu. Partiu como quem cumpre um destino. Partiu com uma mão na minha e outra na da minha irmã Joaquina, com a nora Maria Manuela aos pés da cama, como se quisesse garantir que nenhum de nós ficava de fora da sua última viagem.
Hoje, doze anos passados, percebo que aquele episódio não foi delírio. Foi despedida. Foi bênção. Foi a vida a oferecer-lhe, antes do fim, a alegria que talvez lhe faltava. E foi também a prova de que a memória – essa companheira fiel – sabe sempre o caminho de casa.
A saudade é um mistério inexplicável, sim. Mas é também o lugar onde ela continua viva.
Beijinho, Mãe.