quinta-feira, 9 de julho de 2026

Belos tempos

Houve um tempo em que as noites de verão na Beirã tinham uma respiração própria. Não era o silêncio que hoje domina as ruas – era um murmúrio vivo, uma espécie de música feita de gente, de passos, de vozes, de vida.

Ao cair da noite, quando o calor começava finalmente a largar a pele, a aldeia abria-se como um livro. As portas ficavam entreabertas, as janelas escancaradas, e as pessoas vinham para a rua como quem regressa ao seu lugar natural.

As mulheres traziam cadeiras de bunho, gastas pelo uso, e sentavam-se ao fresco, alinhadas como se fossem uma varanda contínua que atravessava a aldeia inteira. Conversavam baixinho, falavam dos filhos, das costuras, das dores que vinham e iam, das esperanças que nunca se perdiam.

Havia risos, confidências, desabafos e tudo isso se misturava com o cheiro da terra quente e dos quintais acabados de regar.

Os homens juntavam-se também a esse convívio estival e falavam das batatas, das cebolas, das couves, das chuvas que vinham tarde, das enxadas que precisavam de um cabo novo. Era uma conversa simples, mas cheia de mundo porque ali, naquela troca de palavras, estava a vida inteira de cada um.

E depois… depois vinha a música celestial dos gaiatos.

Dezenas deles – sim, dezenas – a correrem pelas ruas como se fossem rios de alegria. Jogavam à apanhada, ao pião, ao berlinde, inventavam mundos, criavam reinos, faziam da noite o seu palco. As mães chamavam, mas eles fingiam não ouvir. As estrelas acendiam-se, mas eles continuavam. A lua subia, mas eles ainda tinham histórias para viver.

A aldeia era um coro. Um coro de vozes, de passos, de gargalhadas. Um coro que não precisava de maestro – bastava existir.

E havia algo mais: respeito. Os funcionários públicos, os ferroviários, os guardas fiscais, os despachantes, todos conviviam lado a lado com os hortelãos, os pedreiros, as costureiras, os pequenos agricultores. Não havia manias de grandeza. Não havia quem se achasse mais do que o outro. A aldeia era uma só, inteira, igual, unida.

As noites de verão eram o espelho dessa união. Eram o lugar onde todos cabiam. Onde todos pertenciam. Onde todos eram alguém.

Hoje, a Beirã está mais silenciosa. Mas quando a noite cai, se escutarmos bem, ainda se ouve qualquer coisa – um eco, uma memória, um resto de vida antiga que insiste em ficar.

E talvez seja por isso que estas noites de agora, mesmo mais quietas, ainda têm beleza: porque carregam dentro delas todas as outras que já vivi.

José Coelho