Há dias em que o coração pede silêncio antes de começar a falar. Hoje Dia de Santa Ana e de São Joaquim, Avós do Menino Jesus e consequentemente Dia de Todos os Avós, daqueles que já foram, e dos que ainda são, é um deles.
Não é um dia de festa ruidosa; é um dia de recolhimento. Um dia em que cada pessoa se lembra de quem lhe segurou a infância pelas pontas, para que ela não se desfizesse ao vento.
Estou sentado à mesa na minha casa na Beirã, com a luz da manhã a entrar devagar, como se soubesse que aqui mora uma história antiga. A Maria Manuela sentada a meu lado, no seu jeito tranquilo de quem aprendeu a amar sem fazer alarde.
E juntos, sem precisarmos de muitas palavras, somos avós, não apenas no nome, mas também na alma.
As nossas Princesas, Francisca, Mariana e Filipa não imaginam ainda o que significa terem-nos. Para elas nós somos apenas o colo certo, a casa onde o cheiro do jantar tem sempre um toque de memória, o lugar onde o tempo abranda e a vida parece mais inteira.
Mas um dia, quando forem mulheres, vão perceber que a nossa presença nas suas vidas foi a primeira forma de segurança que o mundo lhes ofereceu.
E eu sei bem o valor disso, porque também fui neto. E os meus amados avós, que já não estão, ainda me acompanham quando caminho ao entardecer, quando rego a terra, quando abraço as minhas Princesas.
Eles estão em todos esses meus gestos. Estão no modo como ajeito a vida, como quem aprendeu, pelo seu exemplo, que tudo o que vale a pena precisa de cuidado.
Ser avós é continuar uma história que começou muito antes de nós, é ser ponte entre o que já foi e o que ainda virá, é guardar no olhar uma paciência que só a idade concede, é amar sem urgência, como quem sabe que o amor verdadeiro não precisa de ser apressado.
Hoje eu e a avó Maria Manuela celebramos mais do que um dia.
Celebramos a continuidade. Celebramos o privilégio de ver três vidas crescer com raízes que nós ajudamos a firmar. Celebramos o dom de sermos memória viva, de sermos abrigo, de sermos esta ternura que não se explica – sente-se.
E, no fundo, celebramos também os avós que nos antecederam, porque tudo o que nós damos às nossas Princesas, é, de alguma forma, herança deles.
Neste dia, deixo-vos esta crónica como quem acende uma vela, não para iluminar a casa, mas para aquecer o coração.
Feliz Dia dos Avós 2026.
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