A Senhora do Carmo já deixou a Toca dos Coelhos e seguiu serena, para o seu altar. E eu fiquei aqui, parado no meio da manhã da Beirã, com a alma a tremer como se tivesse sido tocada por algo maior do que a própria vida.
Nunca imaginei viver uma honra destas. Nunca sonhei que um dia me caberia a mim acolher esta Senhora que tantas gerações de Beiranenses amaram, veneraram e confiaram como quem confia num porto seguro.
Ela não é apenas devoção – é memória viva, é raiz, é sangue antigo correndo nas veias da nossa gente.
Enquanto a viatura a leva devagar e com o maior cuidado, sinto que cada passo, cada olhar, cada silêncio à minha volta carrega histórias de quem já partiu, de quem cresceu com esta fé, de quem encontrou nela consolo nos dias difíceis.
E eu, no meio de tudo isto, percebo que não estou só a assistir: estou a participar. Estou a ser parte de uma corrente que vem de muito longe e que continuará muito depois de mim.
A emoção aperta-me o peito, mas não me envergonha porque é boa, é limpa, é verdadeira. É o reconhecimento silencioso de que a minha terra me deu um lugar naquilo que tem de mais sagrado.
A Senhora do Carmo passou por minha casa como passa o vento que conhece cada pedra da Beirã. E eu fiquei com a certeza íntima de que há momentos que não se repetem, ficam guardados no coração como uma bênção que ninguém nos pode tirar.
Foram doze dias a viver com o coração em estado de espera. Doze dias em que cada gesto, cada flor, cada olhar parecia carregar uma história maior do que eu.
E agora percebo que esta devoção não é só fé: é pertença. É raiz. É sangue que vem de trás e que continua em mim, sem eu ter pedido, sem eu ter escolhido, como se a própria terra tivesse decidido que eu era digno de A acolher em minha casa.
Nunca lhe faltou o nosso infinito respeito, nunca lhe faltaram flores. Nunca lhe faltou a nossa fé e devoção.
E hoje, pela primeira vez, senti que também eu não lhe faltei. Que estive com Ela sem máscaras, sem vaidades, sem nada que não fosse verdade.
O inimaginável aconteceu.
E não foi barulho, não foi espetáculo, foi uma paz funda, quase secreta, que me disse que a vida às vezes recompensa quem nunca pediu nada.
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