quarta-feira, 29 de julho de 2026

Escrever é o meu modo preferido de conversar

Há noites em que a minha casa parece respirar comigo. O silêncio não é ausência – é companhia. E eu, sentado na varanda do quintal, deixo que o ar fresco me conte aquilo que o dia não teve tempo de dizer.
O chão sob os meus pés guarda passos de décadas, memórias que não pedem licença para regressar. A penumbra desce sobre o quintal e sobre os regos da horta que reguei, ainda húmidos; as aves já recolheram e o rumor distante da natureza nunca abandona quem nela cresceu.
Há sempre um instante – breve, mas intenso – em que sinto que tudo o que fui, tudo o que fiz, tudo o que perdi e ganhei, cabe dentro deste aproximar da noite. Como se a vida, por um momento, se deixasse tocar.
A Maria Manuela está na sala dobrando a roupa que recolheu do estendal e arrumando-a num cesto para depois engomar. O Manel, o Pedro, as netas – todos eles são presenças que não precisam de estar para se sentirem. A Beirã tem esse dom: guarda as pessoas dentro dos corações, mesmo quando estão longe.
E eu escrevo, porque é o meu modo preferido de conversar com o mundo. Escrevo devagar, como quem colhe fruta madura ao fim da tarde. Escrevo porque a memória é uma casa que só se mantém de pé quando alguém acende a luz.
E quando a noite enfim se instala, mansa e inteira, deixo que o silêncio se estenda sobre tudo o que amo. Há uma paz antiga que desce sobre a casa, como se viesse da serra, como se viesse de muito antes de mim.
Penso na Maria Manuela, companheira de tantos anos, que arruma a roupa com a serenidade de quem sabe que cada gesto também é amor. Penso nos meus filhos e nas minhas netas que iluminam a nossa vida mesmo quando não estão aqui.
Penso nos amigos de sempre, nos que a vida me deu e nos que a vida me devolveu, e sinto que a noite os abraça a todos, um a um, como se chamasse cada nome em silêncio.
E desejo-lhes paz. Uma paz simples, daquelas que não fazem barulho: a paz de uma horta regada, de um quintal arrumado, de uma casa que respira com quem nela vive. A paz de saber que, apesar das distâncias e das ausências, há laços que não se desfazem.
Esta é também a hora em que o rouxinol de vez em quando me visita ao fim do dia. Imagino-o a pousar no bordo do balde de água que renovo todas as tardes, talvez porque alguém lhe contou que aqui encontraria sempre um lugar seguro. Talvez tenha sido uma rola, um melro ou um pardal – todos sabem reconhecer quem cuida deles.
Nessa confiança da passarada encontro também a confiança das pessoas que fazem parte da minha vida. Da família que me acompanha desde sempre, e dos amigos. Cada um deles, tal como o rouxinol, chega quando quer, pousa onde precisa e traz consigo a luz que me ilumina o dia.
A todos desejo uma noite serena. Uma noite que desça devagar, como a brisa que passa entre as oliveiras. Uma noite que traga descanso aos que trabalham, sossego aos que se inquietam e ternura aos que amam.
Que a tranquilidade encontre cada um onde estiver, que o silêncio lhes seja leve e que a madrugada os receba com esperança. Boa noite.