segunda-feira, 13 de julho de 2026

Cinquenta anos de nós dois

Há memórias que não se contam: acendem-se. E quando penso nos nossos cinquenta anos de vida a dois, sinto que cada lembrança é uma pequena chama que insiste em permanecer acesa, mesmo quando vento sopra forte.
Lembro-me do início, tão simples, tão despretensioso, como quem encontra um caminho sem saber ainda que seria o caminho de toda a vida. Éramos jovens, com mais sonhos do que certezas, mas havia já em ti uma serenidade que me prendia, e em mim uma vontade de te acompanhar para onde fosse preciso. Não sabíamos nada do futuro, mas sabíamos um do outro.
E isso bastou.
Os anos foram chegando como chegam as estações na Beirã: sem pressa, mas com marca. Houve primaveras de entusiasmo, verões de trabalho duro, outonos de mudança, invernos de silêncio. E em cada um deles fomos aprendendo a arte difícil de permanecer. Permanecer mesmo quando o mundo parecia querer arrancar-nos do lugar. Permanecer mesmo quando a vida nos pedia mais do que julgávamos ter para dar.
A verdade é que crescemos juntos. Crescemos na casa que fomos construindo com as nossas mãos e com os nossos gestos. Crescemos nos domingos em família, onde o cheiro dos petiscos herdados dos nossos pais parecia sempre trazer de volta quem já partiu. Crescemos nas conversas longas, nas discussões breves, nos perdões que nunca foram ditos, mas sempre foram dados.
E crescemos, sobretudo, no silêncio. No silêncio bom, aquele que só existe entre duas pessoas que se conhecem tão profundamente que já não precisam de palavras para se entender. O silêncio de quem olha e sabe. O silêncio de quem partilha o mesmo cansaço, a mesma esperança, a mesma fé discreta que tantas vezes nos levou à igreja da Beirã, onde desde menino arrumei bancos e acendi luzes como quem arruma também o coração.
Cinquenta anos…
É estranho como o tempo, quando é vivido lado a lado, deixa de ser uma linha e passa a ser uma tapeçaria. Cada fio é um dia, cada nó é uma dificuldade, cada cor é uma alegria. E quando olho para essa tapeçaria, vejo que não é perfeita, mas é nossa.
E isso basta para ser bela.
Hoje, quase a celebrarmos as Bodas de Ouro, percebo que o amor não é aquilo que sentimos no início. O amor é aquilo que resistiu. É aquilo que ficou depois das tempestades, depois das perdas, depois das noites longas. É aquilo que permanece quando tudo o resto muda.
E permanece em ti. No modo como me chamas pelo nome que só tu sabes dizer. No modo como ajeitas a casa para receber quem amamos. No modo como olhas para mim, não com a paixão de outrora, mas com a ternura profunda de quem caminhou comigo metade de uma vida.
Cinquenta anos…
E eu continuo a agradecer-te. Pelo que fomos, pelo que somos, pelo que ainda seremos enquanto houver tempo, enquanto houver memória, enquanto houver esta forma tão nossa de amar.