quarta-feira, 6 de setembro de 2023

Ensaio geral

Hoje às 14:00 horas - Convento de Nossa Senhora da Estrela 
Tuna Sénior de Marvão - Foto António Gil

terça-feira, 5 de setembro de 2023

Sempre alguma coisa mais

Foto c/ filtro José Coelho


Rodeado de estantes repletas de livros, indiscutivelmente os mais fiéis e silenciosos companheiros de uma vida inteira porque não só me instruíram como ainda ajudaram a conseguir quase tudo o que conquistei na vida, passo grande parte dos meus dias a sós com eles. Sobre as estantes junto aos livros, as relíquias da profissão que abracei e, entre elas, aquelas outras que herdei da minha mãe das quais não quis ainda separar-me nem me separarei provavelmente enquanto viver.

Fui sempre um pouco dado à solidão em consequência de uma meninice e juventude extremamente precárias onde quase tudo faltava menos o amor familiar. Cada centavo ganho era para ajudar no sustento de todos e não havia margem para mais nada. Nunca tive brinquedos, nunca aprendi sequer a andar de bicicleta porque nunca tive nenhuma. E ninguém jamais me ouviu queixar, assim como nunca tive inveja ou me senti menos gente do que aqueles meus amigos a quem não faltava nada.

Distante já desses tempos, a minha vida é hoje razoavelmente melhor, mas foi bastante dura e difícil de vencer até aqui chegar. Quando terminei a escola primária, imediatamente no dia seguinte fui trabalhar. Tinha onze anos. Nunca fiquei com um centavo sequer do meu modesto ordenado e em vez disso entregava-o feliz à minha mãe na certeza que era uma ajuda, ainda que pequenina, para as suas inúmeras necessidades no governo da casa. E ajudá-la foi sempre a minha grande prioridade. Ela gostou sempre muito de mim, mas eu gostei também, toda a minha vida, muito dela. Era recíproco.

Cedo percebi sem que ninguém tivesse de mo explicar que não podia ir com os outros rapazes da minha idade para as farras e petiscos aos domingos, pois o que iria gastar era necessário para coisas mais importantes do que essas folias domingueiras. Talvez por isso mesmo muito cedo o fascínio pelas letras e pelos livros tomou conta de mim. Primeiro as histórias infantis mal aprendi a ler, depois já rapazote as aventuras de cow-boys como o Billy the Kid que alguns amigos me emprestavam, e por fim, milagre dos milagres, da Biblioteca Itinerante Calouste Gulbenkian que vinha todos os meses à Beirã e emprestava logo três livros de cada vez, à escolha do leitor.

Aí começaram as minhas mais emocionantes aventuras. Vinte mil léguas submarinas, Viagem ao centro da terra, A Ilha misteriosa do Júlio Verne com centenas de páginas, Guerra e Paz de Tolstoi, Os Miseráveis de Vitor Hugo, Retrato de uma Senhora, O Monte dos vendavais, Camilo, Herculano, Camões, Junqueiro, Garret, e mais, mais, mais, muitos mais autores de centos de livros que literalmente "devorava" na ânsia de conhecer e aprender, mas se calhar também para me evadir um pouco do meu mundo real e das suas incontáveis dificuldades.

Namorisquei por aqui e por acoli, ofereci-me voluntário para o serviço militar ainda gaiato o que me levou para a guerra e me tornou ainda mais saudoso do sossego e da paz destas minhas paisagens Beiranenses. A seguir, como se na guerra não tivesse sido suficiente, fui comer pó de pedra a três mil metros de profundidade numa mina nos contrafortes da Serra da Estrela, na Beira Baixa.

Casei e finalmente alistei-me nas fileiras da GNR onde fui injustamente maltratado antes de os conseguir convencer da minha inocência com a força da minha razão. E venci.

Não é porém possível enfrentar tantas dificuldades uma vida inteira sem se ficar marcado para sempre. Se cada sacanice vencida me deixou no coração o sabor agridoce da vitória, deixou também em simultâneo a intragável amargura da injustiça e uma infindável lista de porquês. 

Porquê isto? 
Porquê assim? 
Porquê a mim?

Nunca encontrei as respostas, as razões, ou os motivos. 

E continuo ainda hoje a procurar na solidão e no silêncio aquela paz e a harmonia que a vida não me facilitou nunca. Porque há sempre alguma coisa mais que dói, que magoa e entristece.

José Coelho 

Padroeira do Concelho de Marvão 2023



Foto de 2022

segunda-feira, 4 de setembro de 2023

Setembro, verão quase outono

Foto José Coelho - Casa dos vizinhos da Avó Amélia junto ao Ribeiro da Cavalinha

De súbito o céu da calma e quente tarde de início de Setembro cobriu-se de nuvens cinzento-escuras que sem cerimónia "apagaram" um atrevido sol até então radioso. E ainda mais inesperadamente o suave tamborilar de chuva saudou-me, caindo certa e de mansinho para nos inebriar o olfato com o seu dulcíssimo cheiro a terra molhada. Mmmmm... Que saudades da chuva e deste cheirinho, depois dos últimos meses com tórridas temperaturas mais próprias do meu forno a lenha, muitos dias a ultrapassarem os 40º.

Sei que ainda é verão pelo menos por mais uns dias. E que o tempo já não é o que era por isso vai vir ainda mais calor por outubro adentro, quiçá até depois dos Santos. Mas isso não impede, de modo nenhum, a satisfação que uns pingos de chuva foram capazes de me trazer, mesmo sendo particularmente anunciados na forma de avisos a cores, amarelo, laranja ou vermelho, os quais, na maior parte das vezes, mais alarmam do que acautelam.

A vindima ainda não está feita mas como as elevadas temperaturas queimaram as folhas das parreiras e cozeram as uvas em crescimento e maturação, deixaram-nas de tal jeito que 80% irão diretamente das parreiras para o contentor do lixo. Figos este ano já não tivemos. A figueira pingo de mel que durante seis décadas deu camadas atrás de camadas, cada uma mais doce e suculenta que a anterior, teve de ser abatida por estar a forçar a parede que divide o nosso quintal da Tapada da Rabela, que estava já a rebentar.  

Esta é a melhor época do ano em questão de fartura nas hortas e nos pomares que infelizmente já rareiam e as poucas árvores de fruto que ainda vão resistindo ao tempo e ao abandono irão sucumbir definitivamente nestes tórridos verões cada ano mais agressivos e, consequentemente, à falta de humidade no ar e nos solos.  

Esta foi sempre também a época em que eu faço de conta que não sou diabético e me desculpo a mim próprio conjecturando que o doce da fruta não é tão perigoso como o do açúcar de pacote. Como diz o outro, morra Marta mas morra farta! Por isso, cada vez que passo por qualquer árvore com fruta madura em vez de três, colho seis! Até os sacanas dos figos-chumbos são de comer e chorar por mais.

Viver numa aldeia deste Portugal profundo que só é visitado pela malta do poder de 4 em 4 anos - vocês sabem porquê - tem muitas limitações e inconvenientes, mas tem também - por enquanto - algumas vantagens, como, por exemplo, a de se poder comer ainda assim a fruta diretamente da árvore, sem qualquer perigo de contaminação por químicos. 

Quando muito, haverá a possibilidade de o fruto conter algum "marisco" hospedeiro que também precisa de se alimentar, porque, tal como nós, também tem direito à vida. Além disso, já dizia o meu avô Zé Lourenço, "mal do bicho que vai para a barriga de outro".

Caminho de vez em quando pelos campos ao redor da minha Beirã e sei exatamente onde eram as hortas de antigamente e onde continuam a lutar valentemente pela sua sobrevivência muitas velhinhas árvores de fruto plantadas pela mão de gente boa que conheci e frequentemente recordo com saudade. Uma dessas pessoas foi o meu Pai, exímio hortelão que tudo o que plantava se reproduzia fartamente. 

No Cancho de Ruivo há pereiras e macieiras, parreiras moscatel e figueiras de várias espécies que são mais velhas do que eu. Lá continuam a lutar contra as silvas que as tentam sufocar e a dar frutos, ano após ano. Pelas margens do ribeiro da Cavalinha já não se vislumbra a terra das hortas cobertas de matagal mas em muitos locais ainda se podem ver as videiras a treparem em busca dos raios do sol, pereiras, figueiras, nogueiras e macieiras. 

Junto às casetas da via férrea do velhinho Ramal de Cáceres, como por exemplo na do Maxial que já nem telhado tem, lá continuam as cerejeiras de pé, a dar flor e fruto cada primavera, marmeleiros e pereiras, tudo enleado nas silvas assassinas. 

Mais admirável ainda é a resiliência de algumas flores plantadas pelas mãos das mulheres, esposas e mães d'outrora, porque até essas continuam a vencer o tempo e a florir primavera após primavera, recusando-se a morrer. Assim cercada de roseiras em flor de várias espécies, a esventrada caseta do Maxial transforma-se num tão admirável como bucólico quadro que exibe em simultâneo a casa em ruínas num contraste absolutamente oposto ao da vida e beleza de todas aquelas roseiras floridas a exalarem o seu inigualável perfume, indiferentes ao desleixo a que foram deixadas. 

Mas não é só no Maxial que se desenrola esse milagre da vida. Também no antigo jardim da casa da minha avó Amélia junto à passagem de nível da Cavalinha as açucenas que ela plantou há mais de cinquenta anos continuam a nascer, a crescer e a florir, em cada primavera. Vou sempre visitá-las. Acaricio-as com os olhos e com as mãos como se nelas permanecessem ainda as santas mãos de quem as plantou e eu amava tanto. 

Como é possível uma planta aparentemente tão frágil não morrer sem ser regada sob tantos verões tórridos, no meio do matagal que cerca quase sempre a casa? Já por várias vezes falámos, eu e a minha companheira, em trazermos uns tubérculos para replantar num canteiro do nosso quintal. Mas ainda nunca o fizemos porque no nosso íntimo sabemos que não seria a mesma coisa. Aquelas é que são obra das amadas mãos da tia Amélia da Conceição de Brito. 

Quaisquer outras seriam apenas uma imitação sem sentido e sem o mesmo valor sentimental. É naturalmente uma fantasia nascida da saudade imensa que muitas vezes me atormenta o espírito, mas simbolicamente, aquelas flores são a minha avó que me vem visitar cada ano. 

Mas... 

Este texto tinha a ver com a chuva que começou a cair inesperadamente. Despistei-me ou deixei-me envolver pela melancolia da tarde chuvosa. 

Desculpem!

José Coelho

Boa semana


Que vivas rodeado de amigos e familiares e, se esse não for o teu destino, que todas as bençãos te encontrem na tua solidão.

Leonard Cohen

- agosto 2023

domingo, 3 de setembro de 2023

Demasiado comum

Foto Pedro Coelho


Pensar que os outros farão por nós o mesmo que nós fazemos por eles é infelizmente um problema demasiado comum. A origem de muitas das nossas decepções é esperarmos sempre a mesma sinceridade, o mesmo respeito e a mesma reciprocidade. No entanto isso nem sempre acontece. Os valores que definem o nosso comportamento raramente são os mesmos que definem o que acontece na mente dos outros.

Uma maneira simples de conseguirmos desiludir-nos menos pode residir no simples facto de minimizarmos as nossas expectativas. Quanto menos se esperar, mais se poderá receber ou encontrar. É certamente um argumento controverso, no entanto, não deixa de ter a sua lógica.

“Não esperes nada de ninguém, espera tudo de ti apenas e desse modo o teu coração vai seguramente sofrer menos.”

Todos nós sabemos que no que diz respeito às nossas relações é impossível não ter expectativas. Esperamos que os outros tenham para conosco comportamentos corretos porque desejamos ser amados, defendidos e valorizados, mas isso não impede que muitas vezes essas previsões falhem. 

Quem espera muito dos outros, geralmente acaba ferido.

Ninguém erra ao procurar o lado bom das pessoas. Temos o direito de o fazer, de o encontrar e até mesmo de o promover, mas com alguma cautela. Porque a decepção é a irmã das expectativas elevadas, por isso é mais apropriado não se deslumbrar antes do tempo.

As aparências não costumam enganar, o que muitas vezes falha é aquilo que nós esperávamos dos outros. Podemos esperar muito deles, no entanto o correto é esperar sempre mais de nós próprios.

Lembremo-nos sempre do seguinte:

Ninguém é perfeito, nem sequer nós somos. Se fôssemos agradar às expectativas que os outros têm a nosso respeito, viveríamos preocupados e infelizes. Por vezes é impossível porque ninguém é um exemplo de perfeição ou virtude absoluta. Basta por isso respeitarmo-nos uns aos outros e exercermos a reciprocidade da forma mais humilde possível. 

Nem sempre se tem de obter algo em troca. Às vezes o melhor é aceitar que os outros são como são e que eles nem sempre irão fazer por nós aquilo que nós estamos dispostos a fazer por eles. E claro, existem sempre também aquelas pessoas que simplesmente não valem a pena, que não nos respeitam nem merecem ter-nos na sua vida. Nesses casos é necessário desapegarmo-nos, por mais difícil que pareça ser. 

Para concluir: 

Quanto menos esperarmos mais boas surpresas poderemos receber. Dessa forma seremos um pouco mais livres e a nossa felicidade será menos dependente do comportamento dos outros. Somos todos falíveis, somos todos seres imperfeitos a tentar viver num mundo onde por vezes as decepções são inevitáveis, mas no qual habitam também o amor sincero e as amizades duradouras.


Valeria Sabater 

sexta-feira, 1 de setembro de 2023

Bom fim de semana

Entardecer de hoje com cheirinho a Outono, observado do meu quintal. Será?
Foto José Coelho - 01. 09. 2023

Estou ainda à espera de quê?

C hegado já para lá dos setenta, há uma pergunta que merece ser feita com sinceridade: estou ainda à espera de quê? Esperei quase toda a vid...