quarta-feira, 30 de agosto de 2023

Para melhor, muda-se sempre


Decidi mudar muita coisa na minha vida e uma dessas mudanças foi o meu comportamento em relação a algumas pessoas, a minha forma de as tratar, o meu jeito de falar com elas e até a maneira de lhes dar atenção.

Decidi não me preocupar tanto com a maldade alheia, levar mais a sério os meus sonhos, objetivos e projetos, afastar-me do que me faz mal, ignorar o que me faz recuar nas minhas decisões, distanciar-me de amizades tóxicas, interesseiras e sufocantes, rejeitar os elogios de quem nem sei sequer se me quer bem e seguir em frente.

Há situações que acontecem e nos tiram o chão, mas nem tudo vem para nos derrubar, nem tudo é para nos prejudicar ou destruir. Há coisas que vêm para nos mudar, para nos fazer crescer, para nos ensinar a olhar a vida de uma forma mais ampla, mais aberta e com mais maturidade, a não esperar tanto dos outros nem permitir que isso limite a nossa felicidade. 

Se não conseguimos mudar o mundo, temos de ser nós a mudar.

Experimente pôr isso em prática e vai chegar à conclusão que as pessoas não mudam, que nem todas reconhecem os erros que cometem ou as suas imperfeições e que não será você que vai fazer alguém pensar diferente, que apenas pode você ser diferente neste mundo onde nem todos sabem o que é amar, o que é valorizar e respeitar o espaço, a vida e o coração dos outros”.

Cecilia Sfalsin

Foto José Coelho

terça-feira, 29 de agosto de 2023

Coisas minhas...


Gosto da lua. Cresci a saltar pedras e barrancos à sua luz, primeiro na "retouça" quando gaiato, depois a fazer alguns biscates de contrabando já zagal e por fim nas visitas semanais a casa das namoradas antes d'ir p'rá tropa. 

Era muito bom poder ver onde punha os pés nessas noites de namorico quando tinha de atravessar tapadas e canchais desde a Beirã até aos Cabeçudos, ou até aos Aires, ou até à Torre, para lá do Pereiro. 

Não parava quieto!

É verdade que já nesse tempo havia as estradas que há hoje, embora não tão boas, mas caminhar pelos "atravessos" que havia por toda a parte tornava os percursos bem mais curtos e menos cansativos, porque a brincar a brincar, eram sempre uns bons quilómetros para calcorrear a penantes.

Havia por aqui muitas histórias de medos, com ou sem culpas da lua. Por exemplo aquela da galinha com pintos nas proximidades do cemitério que seriam um bando d'almas penadas a pedirem rezas às pessoas que por ali passavam em noites de lua. 

A propósito dessa crença, certa noite, quatro e tal de uma enluarada madrugada vinha eu de ir levar a moça a casa no fim de um baile, quando ouvi um estranho resmalhar: 

- Ressshhhh.... Ressshhhhh... 

Depois aquilo parava. E eu parei também. Não com medo mas intrigado, decidido a ver e a entender de onde procedia aquilo. 

Outra rabanada de vento e outra vez... 

- Ressshhhh... 

- Mau! Pensei. 

- Q'ués ver qué a galinha c'os pintos? 

E mentalmente, continuando a brincar com a situação, chamei: 

- Pipi... pipi... pipi... conforme a minha mãe fazia a chamar as nossas galinhas para lhes dar o milho. De súbito e enquanto eu cogitava naquelas parvoíces todas, um novo ressshhh... quase, quase, ao pé de mim. 

Olhei. 

Prestei atenção. 

E vi. 

E percebi. 

E...

- Eureka! Pensei para comigo:

- "Télé lá" o misterioso "resmalhar"?

- Homessa!

- Assim se inventava um medo...

Eram apenas algumas folhas secas dos enormes choupos que ladeavam naquele tempo a estrada. Porque era outono, as árvores estavam a desfolhar-se. E as folhas secas, encarquilhadas, levadas pelo vento a serem arrastadas pelo alcatrão, faziam aquele barulho que o silêncio da madrugada ampliava tornando-o estranho e de certo modo inexplicável, pelo sossego da hora. 

Caminhei ao seu encontro e pisei-as desfazendo-as debaixo dos pés para me certificar. Era mesmo aquilo. Um sopro mais vivo do vento e lá atrás outras irmãs daquelas que eu havia pisado, aprontavam-se para a sua viagem sobre o alcatrão até encontrarem aconchego e se acomodarem nalguma nesga entre os canchos: 

- Ressshhh... Ressshhh...


Excerto de: "Contos da lua cheia" no Livro Histórias do Cota, págs.127 e seguintes.

José Coelho

segunda-feira, 28 de agosto de 2023

Tudo, menos isso


 "Que a gente perca tudo: A hora, os dentes, a razão em alguns momentos, o sono, os sapatos, as roupas, o cabelo… Qualquer coisa, menos os sonhos e a alegria de viver!"

(Ana Nunes)

* 14 de agosto 2021 *

domingo, 27 de agosto de 2023

Ser capaz de ser feliz...

O tempo passou e veio a idade, como vem a noite ao cair da tarde!

Nunca o meu sorriso foi forçado. Nunca na minha vida me ri com vontade de chorar como leio por aí que há quem faça. Se rio é porque tenho mesmo vontade, é porque no meu coração reina a serenidade, é porque estou bem. Não faço esses favores a ninguém. Ou é genuíno ou nem sequer existe. De igual modo também não sei, nunca soube, disfarçar a tristeza, a preocupação, a indignação. Se alguma coisa perturbar o meu espírito, a expressão sisuda e dizem que muito mal-encarada, revela e não deixa dúvidas que algo menos bom se passa comigo. 

Aprendi a batalhar pelo que queria desde muito pequeno. Contava a minha mãe que eu abalava a fugir rua abaixo assim que ouvia tocar o sino da igreja. Queria ir à missa, algo que nem sequer sabia ainda pronunciar porque lhe chamava "mixa". De pé descalço e calças remendadas que luxos não havia, lá tinha que vir do meio da rua até casa "a toque de caixa", que a tia Florinda não dava baldas nem poupava nas palmadas quando eram precisas, para mostrar que quem mandava era ela. 

E fizeram-me tão bem!

Ainda assim não deixei de levar sempre "a minha" avante. Com 5 anos fugi uma tarde à mestra, a querida senhora Vicência Olivença, para me apresentar na Sociedade Recreativa no dia que começaram os ensaios das crianças da catequese para um serão recreativo que se fazia todos os anos na Beirã para a população. Eu não andava ainda na catequese porque não frequentava a escola mas queria lá saber disso. Se as outras crianças podiam eu também tinha que poder. E como ninguém me convidou, fugi à mestra e fui.

Com tal sorte que a D. Mimi e o Sr. Cardoso acharam que eu era capaz de ficar bem no papel de um beirão de Monsanto a interpretar uma cantiga ao desafio com a neta da vizinha Joaquina Servo que era da minha altura. Logo no primeiro arremedo de ensaio assinámos o contrato artístico. 

Devia ser hilariante, porque toda a gente se ria à gargalhada. Eu era baixote e a miúda também, vestidos a condizer, aquilo correu mesmo bem. O pior foi a cara da mestra senhora Vicência quando terminou o ensaio. Dera pela minha falta e sabendo que havia ali atividades com crianças logo imaginou para onde eu me tinha escapulido sem sua licença e não achou graça nenhuma. Fui agarrado por uma orelha até casa dela e à noite queixa formal à mãe Florinda que me proibiu de voltar a por os pés na sociedade sob pena de levar uma sova. Valeu a diplomacia da senhora D. Mimi e do Sr Cardoso que conseguiram convencer mãe e mestra a deixarem-me participar.

Depois...

Depois toda a minha vida foi lutar constantemente para alcançar metas. A vida dura do campo e mais tarde a de cabouqueiro nas pedreiras com o meu pai, não me seduziam. Queria ser carteiro ou carregador da CP, empregos estáveis e com melhores ordenados. E por isso, mal completei os 17 anos convenci o meu pai a deixar-me ir voluntário cumprir o serviço militar pois sem esse obstáculo vencido não havia empregos possíveis. 

E fui. E passei um mau bocado mas voltei. 

Só que o regresso a casa deu-se em plena convulsão do 25 de Abril e os empregos viam-se por um canudo. Bem enviei requerimentos aos CTT e à CP mas... "lamentamos informar que nesta empresa não existe à presente data qualquer concurso para admissão de quadros". Então... Ala para as Minas da Panasqueira. Não imaginava o que era ser mineiro mas como era preciso ganhar a vida, fui. Parar é morrer, não? Ainda nas Minas, casei e fui pai. Então, a mãe, a mulher e filho convenceram-me que embora digno, aquele trabalho era sumamente perigoso e nada saudável. 

E convenceram-me a concorrer à GNR...

Nunca me senti mais corajoso ou ousado que qualquer outra pessoa. Só me sinto capaz de alcançar aquilo que acredito estar ao meu alcance. Tenho também o hábito de medir a distância de onde estou até onde penso que sou capaz de ir, de pesar todas as possibilidades na balança da prudência para não falhar compromissos, de não subestimar nunca qualquer dificuldade. Foram infinitas as inquietações. Os medos. As noites mal dormidas. Mas tudo valeu a pena porque infinitos foram também os momentos da mais profunda felicidade por cada conquista, por cada obstáculo vencido, por cada "consegui".

O tempo passou e veio a idade,
como vem a noite ao cair da tarde...

Veio a idade, vieram outras coisas inesperadas e dispensáveis com as quais tenho de conviver agora no silêncio dos meus dias. Acabaram-se as lutas por uma vida melhor mas iniciou-se há algum tempo a esperança de um dia de cada vez. E como não é possível melhor, que ao menos se mantenha assim. Com a noite a aproximar-se neste cair da tarde da minha vida, continuo, apesar do longo caminho percorrido, o mesmo petiz de pata descalça que corria rua abaixo ao ouvir o sino. Que agora já não corre, mas desce a rua em passo tranquilo e já pode ir à mixa sem a mãe lhe ralhar ou prender pela orelha.

Não foi fácil. Muito pelo contrário. A minha maior gratidão é para a maravilhosa Família em cujo seio nasci e a quem devo tudo o que sou. Depois estou também grato à Vida por tudo quanto vivi de bom e de mau. Guardo no coração sempre, em primeiro lugar, as memórias felizes, mas foram sem dúvida os tombos e as dificuldades que me ensinaram a lutar e a resistir. E nunca, em momento algum, perdi de vista aquele que me parece ser o principal objetivo na vida de qualquer pessoa: 

Ser capaz de ser feliz, apesar de tudo, mesmo de tudo...

José Coelho

Muitas vezes


 Às vezes a gente esconde-se no silêncio para que a paz nos encontre.

sexta-feira, 25 de agosto de 2023

quinta-feira, 24 de agosto de 2023

Também se chama amor-próprio


Muitas vezes temos que tirar pessoas das nossas vidas, apagar algumas interrogações, colocar pontos finais e escrever novos episódios da nossa história. Essas atitudes não significam que tenhamos ódio no nosso coração mas apenas respeito por nós mesmos.

Alexsandra Zulpo

Estou ainda à espera de quê?

C hegado já para lá dos setenta, há uma pergunta que merece ser feita com sinceridade: estou ainda à espera de quê? Esperei quase toda a vid...