sexta-feira, 11 de agosto de 2023

Bom fim de semana


Não me arrependo de ter feito o melhor que podia. Mas não o repetiria!

Hóspedes ou vizinhos?

Encostado à parede do forno, um dos baldes com água para a passarada

Deabulam pelo quintal sem cerimónia e comiam até a meias com a nossa Suri, a rafeira alentejana que já se finou, servindo-se do granulado que ela comia, escolhendo aquele que melhor ou mais mal conseguiam levar no bico e iam depenicá-lo para os ramos das árvores mais próximas.

Era interessante ver como nos vigiavam à sucapa e sempre a postos à hora das refeições da cadela, estrategicamente empoleiradas entre as folhas da figueira ao lado do canil. E assim que nós voltávamos costas esvoaçavam discretamente para a cerca em frente do mesmo e dali lá para dentro, para partilharem as refeições para as quais não eram convidadas.

Garganeiras agarravam-se às vezes a granulado maior do que o alcance do seu bico e não raro a vizinha Joaquina Brites a dizer-me que lhe aparecia granulado da Suri espalhado pelo seu quintal vinte metros acima do nosso. Eram elas ao voarem para as árvores do outro lado da parede que o deixam cair por não conseguirem segurá-lo.

Quem são estas personagens? Um bando de lindíssimas e melodiosas rolas turcas vindas não sei de onde - há quem diga que foi o Parque Natural da Serra de S. Mamede que o repovoou desta resiliente espécie - e se instalaram nos arredores da nossa casa há mais de duas décadas não sei se como moradoras, se como hóspedes, ou apenas como vizinhas permanentes, porque nunca mais daqui arredaram pé, nem de verão nem de inverno.

Despertador certo e seguro assim que raia o dia, empoleiram-se em cima das nossas chaminés a anunciar a alvorada e cantando em competição com os galos da vizinhança. Só há uma coisa que que me irrita um pouco. Nas horas de maior calor esvoaçam silenciosas entre as árvores do quintal para esgaravatarem e se espojarem como os burros em volta das plantas - salsa, hortelã, coentros, alfaces e outras - a fim de se refrescarem na terra regada de fresco e às vezes estragam.

Como bom anfitrião, bom hospedeiro e bom vizinho que me prezo de ser, cuido desta "malta" toda com esmero o ano inteiro. Durante o verão há sempre no quintal dois baldes cheios de água fresca para beberem quando necessitam. E todos os dias à hora de maior calor mudo a água já morna e renovo-a com água fresca. Até as toalhas da mesa das nossas refeições diárias a minha companheira sacode sempre para o quintal para comerem as migalhas. 

As rolas e toda a outra passarada.

Há duas famílias a fazerem ninho na nossa latada e nas oliveiras todas as primaveras. Uma de verdelhões, outra de pintassilgos. Assim que me apercebo que já estão a construí-los quase nem me acerco do local para não os perturbar, até os filhos voarem. Esta primavera uma rabanada de vento mais forte quase derrubou o do verdelhão. Não fosse eu ver o desastre iminente e correr a amarrar a pernada que tombou, com um bocado de ráfia, lá se iam os ovinhos todos estatelar no chão. 

Os melros preferem o limoeiro por ser mais fechado. As rolas a laranjeira, por ser mais aberta. Até já no loureiro um casal fez ninho também sem eu me ter apercebido e só ao cortar alguns ramos dei com ele já vazio, mas pela quantidade de excrementos deu para perceber que ali procriaram em absoluto sigilo.

Ainda assim e no meio desta "malta" toda há também os indesejáveis predadores. Pardais, carriças e estorninhos. Depenicam as couves e deixam-nas tão esburacadas que em vez de folhas para caldo verde mais parecem alinhavados de Nisa. Vão à caça dos insetos que por ali habitam e de caminho comem-nos com a verdura para a dieta ficar mais completa. 

Não acho graça nenhuma, mas sempre ouvi dizer que roubar para comer nunca deverá ser considerado crime...

José Coelho

quarta-feira, 9 de agosto de 2023

Que mal faz recordar e ter saudades?


O comboio Expresso TER a chegar à Estação de Marvão-Beirã por volta das onze 
da manhã com destino a Madrid, quando ainda éramos fronteira!

Desconheço o autor da foto

terça-feira, 8 de agosto de 2023

Coisas que leio




"Abri os olhos e não te vi. Desesperado procurei-te em cada compartimento da casa, na cozinha, no quarto, para finalmente, desolado e ofegante me sentar no sofá da sala a chorar a minha solidão.

Aos poucos o desespero transformou-se em paz e o choro em sorriso pois fui encontrar-te justamente onde não tinha procurado, no lugar mais óbvio: dentro de mim, no meu coração e na minha memória, protegida pelo amor que sinto por ti.

Olha, mãe, entre nós não existe distância, o amor entre mãe e filho pode vencer qualquer barreira que a morte possa impor.

Sou fruto teu e trago a tua semelhança no meu jeito de agir e de ser. Estou  a aprender a substituir o teu abraço pela tua lembrança; a ver-te no sorriso dos meus filhos ou na fala de um amigo que comenta alguma passagem da tua vida.

O nosso amor não depende dos sentidos, não é escravo da matéria, pode elevar-se acima de tudo e encontrar a plenitude de Deus. No passado ensinaste-me a dar os meus primeiros passos na tua direção e agora ensinas o meu espírito a dar os seus primeiros passos rumo à tua luz.

Não é fácil equilibrar-me sem as tuas mãos a ampararem-me, mas sou persistente e aprenderei a compreender o equilíbrio divino que Deus proporciona a todas as suas criaturas. Em meus sonhos converso contigo todas as noites e acordo sereno para mais um dia de trabalho aqui na Terra.

Não tenhas receio de nada, minha mãe. Podes seguir a tua jornada de luz em paz que nós saberemos honrar a tua memória em cada gesto ou atitude, para que tu tenhas a certeza que valeu a pena todo o teu esforço e luta no período encarnado da tua vida terrena.

Volta para o Pai, nosso Criador, e realiza o plano que te foi confiado. Vai em paz, minha mãe, cresce em luz e glória, e ilumina as nossas vidas com a tua serenidade e sabedoria."


- do Livro "Do Sal ao Céu: Reflexões da Alma"

Foto Pedro Coelho

Meu chão sagrado


Entre o matagal sob o calor inclemente do Alto Alentejo e sem gota de água pelas redondezas, consegue mesmo assim a mãe natureza produzir os seus frutos. Selvagens já é verdade mas nem esse facto tira a importância a este prodígio. Abrunhos-de-frança que fotografei ali por perto da casa da Anta. Já não são comestíveis há muito tempo por falta de mão amiga que deles cuide como decerto cuidou quem, há muitas décadas, ali os plantou...

José Coelho
Texto e foto

Almoço campestre para amenizar a canícula



Poucas pessoas conhecem esta espécie de sopa fria, nem sei se já alguma vez por aqui vi fotos dela. Mas cá em casa todos os verões continuamos a fazê-la. Eu, a marida e o filho mais velho, adoramo-la. O mais novo não gosta por ser avinagrada, as noras e netas também não.
Era um dos "comeres" de todos o verões em casa dos meus pais e de todos os pobres, por ser exclusivamente confeccionada com produtos frescos das abundantes hortas que todos cultivavam também. Prima direita do um pouco mais famoso gaspacho raiano, só não leva poejo pisado com alho e sal, como ele.
Saímos cedo rumo a Espanha de onde regressámos já perto do meio dia com os termómetros a subirem em flecha e a recomendarem abrigo urgente à sombra ou sítios frescos.
- Zé, que almoçamos? Perguntou a marida!
- Uma coisa fresca, respondi.
- Umas batatinhas de salada? Inquiriu de novo.
- Excelente ideia, bora lá...
E foi assim:
Quatro batatas novas médias arrancadas já hoje pela manhã cedo, de imediato lavadas em água corrente e metidas com a pele num tacho, para cozerem. Entretanto, enquanto as batatas coziam, a marida cortou em jardineira para um recipiente, dois tomates frescos, meio pimento verde e um quarto de cebola, que reservou.
A seguir cortou um olhinho de alface fresca muito fino, tipo caldo verde, e reservou também.
Passados quinze minutos as batatas estavam cozidas e depois de escorrida a água fervente, foram metidas em água fria mudada por duas vezes ainda com a pele, para arrefecerem. Só depois lhes foi então retirada a pele e cortadas em rodelas finas para uma saladeira, adicionando-lhe o tomate, o pimento, a cebola e a alface, já cortados, azeite e vinagre a gosto, mais uma pitada de sal. E por último, água quanto baste da Fonte da Celorica, das encostas de Marvão.
Normalmente esta salada é feita duas ou três horas antes para se colocar no frigorífico um bom pedaço a refrescar ainda mais, mas hoje, como foi em cima da hora, adicionaram-se três ou quatro pedras de gelo...
Acompanhámos com azeitonas e... soube a glória!
Fica a dica, para quem quiser experimentar.

Texto e foto
08. 08. 2023

Estou ainda à espera de quê?

C hegado já para lá dos setenta, há uma pergunta que merece ser feita com sinceridade: estou ainda à espera de quê? Esperei quase toda a vid...