terça-feira, 16 de agosto de 2022

A gastronomia (também) é cultura

Foto José Coelho - 16.08.2019

Chama-se butelo, é um produto da Galiza, mas também de Trás-os-Montes. Talvez porque as duas províncias fazem fronteira uma com a outra. Foi o meu almoço em Oimbra - Ourense faz hoje precisamente três anos, primeira e última vez que o comi. 

É, sem dúvida, uma delícia. 

Trata-se de bucho de porco enchido com pedaços de carne agarrada ao osso - entrecosto e outras - que depois do tempero no alguidar vai ao fumeiro a curar juntamente com os outros enchidos da matança. 

Na Galiza é acompanhado com batatas, cozidas no caldo onde cozeu o butelo. Em Trás-os-Montes é acompanhado com casulas, ou seja, feijão seco com a casca, um legume que os meus pais também sempre secavam no verão para comermos no inverno, após demolhado de um dia para o outro para amaciar e fazer uma sopa divinal. 

Na minha terra chamamos-lhe "bajas secas", em Trás-os-Montes "casulas". Quer numa, quer na outra região, são já um produto difícil de encontrar porque não vai havendo hortas nem gente que saiba as voltas que o feijão com casca tem de levar, para ficar em condições de se armazenar por vários meses sem se deteriorar.

Coisas boas e saberes que tendem a desaparecer na voragem do tempo. E é pena, porque a gastronomia de cada região também é, toda ela, parte integrante da sua cultura, do seu povo. 

Seja em que país for.

José Coelho
16.08.2022

Porque sim


O bouquet de flores naturais da "noiva", na celebração das Bodas de Rubi - 45 anos - há um ano atrás, continua a ornamentar um dos móveis da sala de jantar da Toca dos Coelhos, um ano depois!
Foto José Coelho
14.08.2022

O Rex e a mãe-javali




Era lindo o Rex. Em casa dos meus pais, como já por aqui afirmei, sempre houve bicharada. Cães, cabras, gatos, galinhas, patos e até pintassilgos numa gaiola, coisa que eu sinceramente não achava graça nenhuma porquanto entendo que os pássaros, tal como nós, foram criados para viverem felizes em liberdade.

Muitas vezes algumas pessoas chegadas apercebendo-se da apetência da passarada para fazerem os seus ninhos nas árvores e latadas do meu quintal – na primavera passada, por exemplo, tínhamos um ninho de pintassilgo na roseira-que-trepa, outro no abrunheiro, mais um de verdelhão na latada ao lado da casa e finalmente outro de carriça na trepadeira da varanda – pediam-me para lhes “apanhar” um pintassilgo ou um verdelhão, o que sempre recusei, costumando perguntar-lhes meio a rir e meio a sério:  - Também gostavas que te metessem numa gaiola?

Mas hoje quero contar-vos uma divertida história do nosso Rex. Era um cãozarrão enorme, todo negro com um pelo brilhante como verniz, nascido do cruzamento do cão labrador pisteiro do destacamento da GNR de Almada, com a cadela pastor alemão do então comandante daquela sub-unidade, o capitão Ochôa, posteriormente colocado em Nisa onde eu prestava também serviço.

A Lai, assim se chamava a cadela mãe do Rex, vinha prenha e deu à luz, algum tempo depois, uma bela ninhada de cachorros. Saíram todos da raça da mãe pastor alemão, à exceção do Rex que nasceu assim negro como uma amora madura, da raça do pai. Enquanto os outros cachorros espetavam as orelhas, o Rex tinha-as caídas. Por isso ninguém o quis, apesar de, para mim, ser de todos o mais bonito.

Como a mais ninguém interessou fiquei eu com ele para o oferecer ao meu filho Pedro que tinha na altura 9 anos – e porque o Manel já tinha a gata siamesa Princesa que lhe tinham oferecido no seu aniversário – o qual não só ficou encantado com o seu novo amigo, como lhe dedicou uma amizade sem paralelo, digna de se ver. De tal modo que, ainda hoje, mais de duas décadas depois de já não estar connosco, o Rex é recordado com frequência como um velho e querido amigo que deixou muitas saudades.

Mimado e bem tratado como o são sempre todos os animais na nossa casa, o pequeno cachorro fez-se um gigante. Enorme, dócil e lindo. E valente. Nada lhe metia medo. Corria para o mato todo arrufado assim que sentia qualquer mexida, fosse um saca-rabos, uma raposa, ou mesmo uma corpulenta vaca ou um burro. Ali não havia hesitações! Às vezes arreliava-me bastante com ele porque desatava a correr desatinado atrás de qualquer bicharoco e tanto fazia chamar por ele, como ficar calado. Muitas vezes o perdi de vista e tive que depois andar de cancho em cancho já zangado à sua procura, até que lá me aparecia o gajo com um palmo de língua de fora, esbaforido pela correria!

Até que um dia…

Tínhamos vindo morar definitivamente para a nossa Toca dos Coelhos na Beirã. Todas as tardes, assim que eu chegava de Portalegre saíamos os dois a dar grandes passeios por aí, subindo e descendo canchos a desbravar matagais até às barreiras do rio Sever, coisa que o cão não só adorava como também necessitava para desentorpecer, para dar umas valentes corridas e fazer o exercício indispensável ao seu bem-estar físico.

E foi numa dessas tardes que eu me ri até às lágrimas com o que aconteceu. Caminhávamos os dois pela “carreteira” de terra batida da Tapada dos Carvalhos de Roque quando o Rex pressentiu algo a mexer entre as giestas.

Nem pensou duas vezes.

Atirou-se de cabeça para meio do mato num furioso ladrar, capaz de comer o que quer que fosse que tivesse provocado aquela agitação, para o afugentar e perseguir como tanto o regalava! Porém, se muito depressa o perdi de vista, mais depressa o vi voltar pelo mesmo caminho aflito e a ganir apavorado à frente de uma furibunda mãe-javali que, aos sopros e grunhidos o perseguia sem medo. Atrás dela vinha uma dúzia de bacorinhos-javalis recentemente paridos, motivo pelo qual, com toda a certeza, a zelosa marrã-mamã não achara piada nenhuma à evidente ameaça que aquele cãozarrão representava para os seus meninos. Sem hesitar um segundo, contra-atacou.

E o Rex, ó abre...

Fujam da frente que atrás vem gente!

Patas para que vos quero!

Nunca tinha visto nada assim.

A mãe-javali quando encarou comigo, tacitamente recuou. Deu meia-volta com os bácoros atrás e desapareceu de novo no mato. Mas o Rex, de rabo entre as pernas, o tal matulão valentão, atiradiço e destemido, naquela tarde não mais se atreveu a descolar o focinho dos meus calcanhares, enquanto durou o resto do passeio. 

E eu continuei a rir a bom rir durante o resto da tarde, rio-me ainda algumas vezes, muitos anos depois, cada vez que passo por aquele sítio e me lembro da hilariante cena.

Bons tempos. E Boas recordações.

José Coelho in Histórias do Cota

Foto: O Rex e o Pedro em 1992

Nota Explicativa:

* Em nossa casa os animais nunca viveram presos à corrente porque eu não gosto e porque temos um quintal enorme onde eles sempre puderam circular à sua vontade dia e noite. Nesta foto o Rex estava preso, porque decorriam as obras de remodelação da cozinha-fumeiro e acessos no quintal, tendo o portão que dá para a rua de manter-se aberto para os trabalhadores entrarem e saírem com os materiais de construção, das oito da manhã às cinco da tarde.

domingo, 14 de agosto de 2022

Bodas de Alabastro


 
Cumprimos hoje 46 anos de matrimónio. Somados a mais 5 de namoro, já ultrapassamos os 50 juntos. Não foi um percurso nada fácil, mas valeu a pena. Este ano não houve festa porque a inesperada perda da minha irmã mais velha merece este meu respeitoso luto e sobriedade. Foi nesses princípios que fui educado e é a cumpri-los que me sinto bem. Ainda assim, com as nossas duas netinhas por companhia, foi um dia minimamente feliz e tranquilo. A quem, Família e Amizades, nos fez chegar as suas felicitações e carinho, um enorme bem hajam.

Selfie Maria Coelho
Parque João José da Luz - Castelo de Vide 

quinta-feira, 11 de agosto de 2022

Não há volta a dar...

Em 2002, quando me sentia quase invencível

Sou, sempre fui, profundamente arreigado aos afetos. Afeiçoado à família, aos amigos, vizinhos e conterrâneos, sejam eles de freguesia, de concelho, de distrito, de província ou de nação. Afeiçoado à minha aldeia como se ela fosse o único lugar no mundo, afeiçoado também aos animais, às aves, ao vento, à chuva e ao sol, à infinita natureza e a todo o seu misterioso esplendor. Afeiçoado ao mundo que me rodeia com muito raras exceções. O berço humilde em que nasci e a família honrada à qual tive a sorte de pertencer moldaram-me assim, razão pela qual dou graças quase todas as noites antes de adormecer.

Sim, escrevi quase todas as noites e não todas as noites. Porque há algumas em que não me sinto motivado a agradecer por razão de qualquer coisa que me terá deixado amuado. Por exemplo se estou triste ou desiludido, cansado ou doente, irritado ou indignado. E quando isso acontece costumo amuar como uma criança – que acho nunca deixarei de ser – porque sim, e porque, ao não entender os porquês de algumas coisas, não sou obrigado a concordar com elas. Tenham as mesmas sucedido por suposto desígnio do Criador ou por outro qualquer.

Desde que me conheço tenho seguido e procurado cumprir os preceitos e comportamentos que me foram ensinados. Incansavelmente. Por isso me sinto também no direito de não aceitar ou contestar aquilo que não consigo perceber. Há muito que me esforço por compreender as respostas e sinais de tudo o que me rodeia. E também a ausência deles. Poderia descrever um cento dessas manifestações na primeira pessoa, mas seguramente muitos de vós não as iríeis entender como eu as entendi e provavelmente iríeis entender outra coisa qualquer ditada pelo vosso raciocínio. O que para mim, à luz das minhas crenças, pode ter sido um sinal, para vocês pode ser visto apenas como mera coincidência ou casualidade. 

E há que respeitar todas as opiniões.

Sei, tenho plena consciência, de ser a mais imperfeita das criaturas. Mas sei também com toda a certeza que dentro das minhas humanas limitações e inúmeras imperfeições sempre tentei – e acho que conseguido – pautar cada dia da minha vida pelo caminho do bem, da honestidade, da lisura de carácter, do não fazer a ninguém aquilo que não quero que me façam a mim, conforme a formação que me foi ensinada desde tenra idade.

Daí que me desiluda e fique revoltado algumas vezes quando vejo ou sou alvo de injustiças de toda a ordem, faltas de honestidade ou de carácter, de sujos e inexplicáveis esquemas que têm como objetivo único prejudicar, denegrir, enxovalhar ou tirar proveitos indevidos. E é nessas ocasiões que não percebo e questiono zangado:   

- Porquê? 

- Se eu não o faço essas porcarias a ninguém, porque m'as fazem a mim? 

É verdade que frequentemente todos somos postos à prova e temos que ter a capacidade de aceitar seja o que for, mesmo aquilo que nos fere e magoa. Porém, uma coisa é termos que irremediavelmente aceitar aquilo que vem, outra coisa muito diferente é sermos capazes de o entender.

E as perguntas surgem do nosso íntimo aos milhões:

- Porque há tantas coisas ruins neste mundo que se diz que Deus criou? Doenças incuráveis, guerras, atentados, refugiados, fome, sofrimento humano indescritível onde os mais atingidos são sempre os mais frágeis tais como, entre muitos outros, as mulheres, os velhos e as inocentes crianças?

- Porque há milhões de ricos a nadarem na abundância em contraste com outros tantos milhões de infelizes que nada têm, nem sequer o que comer?

- Porque existe tanta corrupção, cobardia, oportunismo, deslealdade e ganância humana?

 - Porque... 

- Porque... 

- Porque... (ad infinitum)

Sofro com o declínio irreversível da minha terra porque nunca imaginei vê-la morrer primeiro que eu, sofro com este ensurdecedor e sepulcral silêncio que se foi instalando por quase todas as ruas, por cada casa vazia, mercê das políticas seguidas – e de progresso – de todos os governos das últimas décadas. Não posso fazer pela Beirã muito mais do que já fiz desde o dia em que, para começar, decidi comprar a casa dos meus pais para a ela regressar e definitivamente viver. 

E não só. 

Mas isso também são outros quinhentos. 

Infelizmente as pessoas têm a memória curta. 

Percebo hoje que tomei a decisão mais errada de toda a minha vida. Muitos Beiranenses, tal como eu, tiveram de procurar outros destinos em busca do sustento para si e para os seus. Mas naturalmente por lá foram também ficando e não mais voltaram. Cá deixaram os seus mais idosos e à medida que eles se foram finando as suas casas foram ficando desabitadas. Nem sequer a interesseira "moda" de agora se transformarem algumas delas em Alojamentos Locais, por outras palavras "mini-hotéis" turísticos que a Covid 19 impulsionou, irá trazer o desenvolvimento que definitivamente se perdeu. Tal como todas as outras modas, também esta vai ter prazo curto. 

É só uma questão de tempo. 

As pragas ruins são normalmente irreversíveis. E não há cura científica para esta variante de cancro que se chama "desertificação" e se propaga por toda a Freguesia da Beirã, prossegue por todo o Concelho de Marvão, continua por todo o Distrito de Portalegre, segue depois pelo Alto e Baixo Alentejo e contamina todo o interior de Portugal de Bragança a Vila Real de Santo António perante a mortífera indiferença dos sucessivos governos que só se preocupam com o bem-estar de quem habita as grandes metrópoles eleitorais.

Porque é lá que se ganham votos.

Cancro. Disse bem. E maligno. Incurável como aquele que levou o querido Amigo e Pároco Luís Ribeiro, uma perda tão inesperada para mim e para todos os seus paroquianos que passados alguns anos ainda não a consegui digerir nem aceitar. Com ele se foi também a Paróquia de Nossa Senhora do Carmo que desde então tem vindo a extinguir-se lentamente. Por isso e por muito mais, tudo aquilo que planeei noutro tempo para a minha reforma e velhice, a qual imaginava muito tranquila e feliz nesta aldeia linda, ficou sem efeito. Vivo hoje um dia de cada vez sem acreditar já em nada, sem esperar também muito mais do que aquilo que me rodeia e entristece. Até mesmo a vigorosa fé que sempre foi a minha principal fonte de força, já perdi. 

E aos poucos vou desistindo, deixando cair os braços. 

Não há volta a dar.


José Coelho

quarta-feira, 10 de agosto de 2022

Não é Alentejano quem quer

A minha açorda d'alho alentejana - Foto José Coelho

Palavra mágica que começa no Além e termina no Tejo, o rio da portugalidade. O rio que divide e une Portugal e que à semelhança do Homem Português, fugiu de Espanha à procura do mar.

   

O Alentejo molda o carácter de um homem. A solidão e a quietude da planície dão-lhe a espiritualidade, a tranquilidade e a paciência do monge; as amplitudes térmicas e a agressividade da charneca dão-lhe a resistência física, a rusticidade, a coragem e o temperamento do guerreiro. Não é alentejano quem quer. Ser alentejano não é um dote, é um dom. Não se nasce alentejano, é-se alentejano.

    Portugal nasceu no Norte mas foi no Alentejo que se fez Homem. Guimarães é o berço da Nacionalidade, Évora é o berço do Império Português. Não foi por acaso que D. João II se teve de refugiar em Évora para descobrir a Índia. No meio das montanhas e das serras um homem tem as vistas curtas; só no coração do Alentejo, um homem consegue ver ao longe.

    Mas foi preciso Bartolomeu Dias regressar ao reino depois de dobrar o Cabo das Tormentas, sem conseguir chegar à Índia para D. João II perceber que só o costado de um alentejano conseguia suportar com o peso de um empreendimento daquele vulto. Aquilo que para o homem comum fica muito longe, para um alentejano fica já ali. Para um alentejano não há longe, nem distância porque só um alentejano percebe intuitivamente que a vida não é uma corrida de velocidade, mas uma corrida de resistência onde a tartaruga leva sempre a melhor sobre a lebre.

    Foi, por esta razão, que D. Manuel decidiu entregar a chefia da armada decisiva a Vasco da Gama. Mais de dois anos no mar... E, quando regressou, ao perguntar-lhe se a Índia era longe, Vasco da Gama respondeu: «Não, é já ali.». O fim do mundo, afinal, ficava ao virar da esquina.

    Para um alentejano, o caminho faz-se caminhando e só é longe o sítio onde não se chega sem parar de andar. E Vasco da Gama limitou-se a continuar a andar onde Bartolomeu Dias tinha parado. O problema de Portugal é precisamente este: muitos Bartolomeu Dias e poucos Vasco da Gama. Demasiada gente que não consegue terminar o que começa, que desiste quando a glória está perto e o mais difícil já foi feito. Ou seja, muitos portugueses e poucos alentejanos.

    D. Nuno Álvares Pereira, aliás, já tinha percebido isso. Caso contrário, não teria partido tão confiante para Aljubarrota. D. Nuno sabia bem que uma batalha não se decide pela quantidade mas pela qualidade dos combatentes. É certo que o Rei de Castela contava com um poderoso exército composto por espanhóis e portugueses, mas o Mestre de Avis tinha a vantagem de contar com meia-dúzia de alentejanos. Não se estranha, assim, a resposta de D. Nuno aos seus irmãos, quando o tentaram convencer a mudar de campo com o argumento da desproporção numérica: «Vocês são muitos? O que é que isso interessa se os alentejanos estão do nosso lado?»

    Mas os alentejanos não servem só as grandes causas, nem servem só para as grandes guerras. Não há como um alentejano para desfrutar plenamente dos mais simples prazeres da vida. Por isso, se diz que Deus fez a mulher para ser a companheira do homem. Mas, depois, teve de fazer os alentejanos para que as mulheres também tivessem algum prazer. Na cama e na mesa, um alentejano nunca tem pressa. Daí a resposta de Eva a Adão quando este, intrigado, lhe perguntou o que é que o alentejano tinha que ele não tinha: «Tem tempo e tu tens pressa.» Quem anda sempre a correr, não chega a lado nenhum. E muito menos ao coração de uma mulher. Andar a correr é um problema que os alentejanos, graças a Deus, não têm. Até porque os alentejanos e o Alentejo foram feitos ao sétimo dia, precisamente o dia que Deus tirou para descansar.

    E até nas anedotas, os alentejanos revelam a sua superioridade humana e intelectual. Os brancos contam anedotas dos pretos, os brasileiros dos portugueses, os franceses dos argelinos... só os alentejanos contam e inventam anedotas sobre si próprios. E divertem-se imenso ao mesmo tempo que servem de espelho a quem as ouve.

    Mas para que uma pessoa se ria de si própria não basta ser ridícula porque ridículos todos somos. É necessário ter sentido de humor. Só que isso é um extra só disponível nos seres humanos topo de gama.

    Não se confunda, no entanto, sentido de humor com alarvice. O sentido de humor é um dom da inteligência; a alarvice é o tique da gente bronca e mesquinha. Enquanto o alarve se diverte com as desgraças alheias, quem tem sentido de humor ri-se de si próprio. Não há maior honra do que ser objeto de uma boa gargalhada. O sentido de humor humaniza as pessoas, enquanto a alarvice diminui-as. Se Hitler e Estaline se rissem de si próprios, nunca teriam sido as bestas que foram.

    E as anedotas alentejanas são autênticas pérolas de humor: curtas, incisivas, inteligentes e desconcertantes, revelando um sentido de observação, um sentido crítico e um poder de síntese notáveis.

    Não resisto a contar a minha anedota preferida. Num dia em que chovia muito, o revisor do comboio entrou numa carruagem onde só havia um passageiro. Por sinal, um alentejano que estava todo molhado, em virtude de estar sentado num lugar junto a uma janela aberta. «Ó amigo, porque é que não fecha a janela?», perguntou-lhe o revisor.

    «Isso queria eu, mas a janela está estragada.», respondeu o alentejano. «Então porque é que não troca de lugar?» «Eu trocar, trocava... Mas com quem?»

    Como bom alentejano que me prezo de ser, deixei o melhor para o fim. O Alentejo, como todos sabemos, é o único sítio do mundo onde não é castigo uma pessoa ficar a pão e água. Água é aquilo por que qualquer alentejano anseia. E o pão... Mas há melhor iguaria do que o pão alentejano? O pão alentejano come-se com tudo e com nada. É aperitivo, refeição e sobremesa. E é o único pão do mundo que não tem pressa de ser comido. É tão bom no primeiro dia como no dia seguinte ou no fim da semana. Só quem come o pão alentejano está habilitado para entender o mistério da fé. Comê-lo faz-nos subir ao Céu!

    É por tudo isto que, sempre que passeio pela charneca numa noite quente de verão ou sinto no rosto o frio cortante das manhãs de Inverno, dou graças a Deus por ser alentejano. Que maior bênção poderia um homem almejar?

Vou mas éi comer a açorda que tenho mais que fazer.

João Mário Caldeira - Professor de História

Estou ainda à espera de quê?

C hegado já para lá dos setenta, há uma pergunta que merece ser feita com sinceridade: estou ainda à espera de quê? Esperei quase toda a vid...