quinta-feira, 18 de julho de 2019

É isto mesmo...

16.07.19


Quantos anos tenho?

Tenho a idade em que as coisas são vistas com mais calma, mas com o interesse de seguir crescendo.
Tenho os anos em que os sonhos se começam a acariciar com os dedos e as ilusões se convertem em esperança.
Tenho os anos em que o amor, às vezes, é uma chama intensa, ansiosa por consumir-se no fogo de uma paixão desejada. E outras vezes é uma ressaca de paz, como o entardecer numa praia.
Quantos anos tenho? Não preciso de um número para marcar, pois os meus anseios alcançados e as lágrimas que derramei pelo caminho ao ver as minhas ilusões despedaçadas… Valem muito mais que isso
O que importa se faço vinte, quarenta ou sessenta?!
O que importa é a idade que sinto.
Tenho os anos que necessito para viver livre e sem medos.
Para seguir sem temor pelo trilho, pois levo comigo a experiência adquirida e a força dos meus anseios.
Quantos anos tenho? Isso a quem importa?
Tenho os anos necessários para perder o medo e fazer o que quero e o que sinto.


José Saramago

quarta-feira, 17 de julho de 2019

Um dos meus poemas favoritos...

O Ribeiro da Beirã sem pinga d'água - Foto José Coelho

Na ribeira que secou
Bebia o gado que eu tinha;
Quando chegava à noitinha,
A voz das águas chamava,
E o rebanho que pastava
Deixava os tojos e vinha.

Eu próprio molhava as mágoas
Na pureza da nascente;
Metia as mãos docemente
Na limpidez da frescura,
E as caricias da corrente
Davam-me paz e ternura.

O gado, farto, bebia;
E eu deixava-me correr
Naquele suave prazer
Que me levava consigo...
Eu não tinha que fazer,
E o gado tinha pescigo.

A noite, então, vinha mansa
Cobrir a lã das ovelhas;
Era um telhado de telhas
Furadas ou embutidas
De luzes muito vermelhas
Por todo o céu repartidas.

E aquela viva irmandade
Do rebanho e do zagal
Era ali tão natural
Que apagava dos sentidos
A saudade do curral
Feita de sono e balidos.

Mas a ribeira secou.
Não sei que praga lhe deu
Que no leito onde correu
Há pedras e maldição...
E o meu rebanho morreu
De sede e de mansidão.

Coimbra, 20 de Maio de 1943
Miguel Torga

O pastor de palmo e meio..

Foto José Coelho


Final do verão de 1963. Terminada a instrução primária e já com o diploma da quarta classe acondicionado na gaveta da cómoda onde a tia Florinda Lourenço guardava numa caixa os papéis importantes da família – a sua cédula de nascimento e a dos filhos, a cédula de nascimento e a caderneta militar do marido, a caderneta predial da casa e mais alguns – não havia vagar para mais brincadeira com a malta da minha idade porque era chegado o tempo de começar a ajudar nas despesas da casa. A vida era dura, o dinheiro escasso, todos os tostões eram por isso bem-vindos.

Nessa altura já a minha irmã Adelina, a mais velha, trabalhava há três anos como aprendiza na Alfaiataria Barradinhas – instalada onde noutro tempo fora a Conservatória do Registo Civil da Beirã e o Conservador era o senhor Graça – a ganhar cento e cinquenta escudos por mês. E eu não era nem mais nem menos que ela. Por isso logo no dia seguinte ao do exame que ditou o fim da minha formação académica, o meu pai “ajustou-me” de pastor na casa do ti Zé Maroco e da ti Olímpia, aquele simpático casal de agricultores que moravam junto à ponte da Beirã onde todas as tardes as senhoras iam buscar leite de vaca acabado de ordenhar.

Cinco mil réis por dia também. Devia ser a tabela para os aprendizes porque foi a jorna mensal combinada entre o patrão e o meu pai. Exactamente a mesma que a mana Adelina ganhava a costurar os fatos de homem no Senhor Barradinhas. Não sendo muito, cinco mil reis por dia dava para comprar um pão e metade de outro pois nessa altura cada um custava três mil réis com trinta centavos que toda a gente abreviava dizendo apenas “três mil e trezentos”. O ti Zé Maroco apascentava as vacas turinas, ordenhava-as e cuidava do asseio do estábulo, a ti Olímpia distribuía o leite e cuidava dos seus muitos afazeres domésticos entre os quais a minha merenda.

Eu passei a ser o aprendiz de pastor. Pacientemente – porque era muitíssimo boa pessoa – o ti Zé Maroco ensinou-me a mudar o bardo logo à primeira hora da manhã assim como todos os caminhos e tapadas por onde eu teria que pastorear o rebanho, que, não sendo muito grande, também não era muito pequeno. Seriam para aí umas trinta cabeças, mais coisa menos coisa. E lá ia eu de bornal às costas aviado com um quarto de pão, uma pequena marmita com toucinho e farinheira fritos, uma fatia de queijo duro e uma córna com azeitonas, para o almoço e para a merenda.

Já nesse tempo gostava muito de ler, por isso à merenda que a ti Olímpia metia no bornal eu juntava sempre algum livrito para ler enquanto as ovelhas pastavam. Uma coboiada emprestada pelo Zé Gonçalves ou por outro amigalhaço qualquer da minha idade, às vezes um calhamaço mais avultado dos que me emprestavam na biblioteca itinerante Calouste Gulbenkian que vinha todos os meses à Beirã para esse efeito. Tudo corria muito bem até um final de tarde em que estávamos, rebanho e pastor, nos confins do isolado Monte Velho, bastante longe da aldeia.

Ao início da tarde começaram a surgir no céu vindos dos lados dos Carvalhos de Roque uns limbos negros e ameaçadores de trovoada que depressa cobriram todo o céu.  Não sei porquê sempre tive – e tenho ainda – pavor das trovoadas. Bem comecei logo a rezar a“santa Bárbara bendita que no céu estás escrita com papel e água benta livra-me Senhor desta tormenta...” ensinada pela minha avó Amélia, mas não me sossegou nada. Normalmente eu ficava sentado no cimo de uma pedra a ler enquanto ia vigiando o rebanho mas naquela tarde fugi imediatamente para perto das ovelhas para me sentir um pouco mais acompanhado.

Não tardou que os relâmpagos começassem a cruzar ininterruptamente as negras nuvens com o consequente ribombar dos trovões. E eu já quase a chorar aterrorizado sem saber o que fazer. De repente um clarão enorme, um zumbido arrepiante e um raio atingiu um grande sobreiro a uns duzentos ou trezentos metros do local onde eu estava mais as ovelhas, queimando-o de cima a baixo. O estrondo do impacto na árvore e o trovão ensurdecedor que se seguiu foram medonhos. Mijei-me de medo. Não havia mais que pensar. Reuni atabalhoadamente as ovelhas e obriguei-as a fazer correndo todo o percurso do Monte Velho até ao bardo que estava na tapada do ribeiro junto aos Três Castanheiros. Não seriam mais de quatro horas da tarde mas parecia noite.

Fechei o rebanho no bardo e corri para casa onde a essa hora não havia ninguém porque os pais estavam no seu trabalho, a irmã mais velha na alfaiataria e as mais novas na mestra. Escondi-me debaixo da cama e só de lá saí quando deixei de ouvir trovejar. Claro que não contei nada a ninguém. O pior foi que o ti Zé Maroco, o patrão, passou pelo caminho do ribeiro com as vacas turinas a caminho da ordenha e viu o rebanho já fechado no bardo a meio da tarde. A trovoada já soava longe e as ovelhas precisavam de pastar até ao anoitecer como nos outros dias, obviamente.

Na manhã seguinte, muito enxuto e comprometido, apresentei-me ao serviço antes do nascer do sol como era costume. Tinha à minha espera com cara de poucos amigos um ti Zé Maroco que na véspera tivera que deixar a ordenha das vacas a cargo da ti Olímpia para ir soltar e guardar as ovelhas até anoitecer, enquanto eu me escondia da trovoada debaixo da cama. E perguntou-me:

- Aonde foste ontem Zé Manel?
- Tive medo da trovoada e fugi para a minha casa. Respondi com verdade.
- Pois podes voltar para a tua casa que aqui já não tens mais que fazer!

Fui despedido.

Desolado e bastante inquieto com o que ia ser a reacção do ti Pixorra quando soubesse, e, pior um pouco, a da ti Florinda, por que essa então tinha uma mãozinha muito pronta e sempre lampeira para acertos contas. Entreguei o bornal da merenda que com o cagaço que apanhei nem havia comido toda.  Tinha só onze anos feitos em Março mas naquele tempo a tenra idade não era motivo para desculpar o que quer que fosse. 

Deste relato existe até hoje uma testemunha. Lá se encontra ainda, na parede do caminho quase ao pé da cancela de ferro da Tapada do Monte Velho, o toco que resta do sobreiro atingido naquela tarde pelo raio. Já o mostrei aos meus filhos e esposa a quem contei, em primeira mão e há bastante tempo, esta história verídica...

José Coelho
17jul’19

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Lar, doce lar...

Foto - Pedro Coelho

Gosto da minha casa. Mal o dia começa a clarear por volta das cinco e meia, imediatamente ilumina todas as divisões. Estrategicamente concebida pelo senhor meu pai com a frontaria voltada a poente e a traseira a nascente, ficaram por isso as sólidas empenas voltadas uma a norte e a outra a sul para melhor resguardo dos frios de neve ou dos ventos suões. Mais tarde quando a comprei e ampliei, fiz questão de aproveitar ao máximo a luminosidade do dia e planeei amplas janelas que a inundam de luz de ponta a ponta.

Assim, desde que nasce o sol até que o lusco-fusco o apaga, apesar das robustas venezianas, todo este meu reino de harmonia e paz é abençoado pela sua luz bendita, fonte de toda a vida. Nem as persianas internas das enormes vidraças nem os seus cortinados conseguem impedi-lo de entrar. Pelo contrário, a função de todo o conjunto é criar um agradável ambiente de semi-obscuridade, de uma frescura e aconchego inigualaveis. Cada pormenor da pequena casa original foi imaginado e concebido pelo meu pai. Cada pormenor deste casarão em que eu a transformei na sua inevitável ampliação, foi imaginado por mim.

Eis porque lhe assenta tão bem o seu nome próprio inventado por mim em honra do meu Pai e aprovado pelos meus filhos seus legítimos herdeiros. Nada na minha vida foi alguma vez por acaso. Nada. Tudo teve sempre um motivo, uma razão, uma causa, um sentido. É verdade que ficar com esta casa não foi ideia minha. Quando o meu pai se apercebeu que eu andava já em vias de negócio com outra aqui na aldeia, chamou-me à parte para me dizer:

- Mas que andas tu a fazer?

- Ando a ver de casa para comprar! Respondi-lhe.

- A tua casa é esta. Sentenciou peremptório. E prosseguiu.

- O teu cunhado – um deles – já se mostrou interessado em ficar com ela, mas eu disse-lhe logo que não, porque quero que a casa seja para ti.
Fui completamente apanhado de surpresa. Nunca havíamos falado tal coisa e muito menos imaginava que já haveria um candidato à aquisição dos bens porque era suposto os seus e meus queridos proprietários ainda terem muita vida para viver. Jamais fora equacionada sequer tal hipótese. Ainda assim, contestei:

- Pai fico agradecido pela sua vontade mas não posso ficar à espera que o Pai e a Mãe nos deixem para comprar uma casa. Moro actualmente numa do Estado à qual tenho direito pelas funções que desempenho. Mas no dia em que deixar de exercer essas funções dão-me trinta dias para sair. E quando esse dia chegar quero ter já a MINHA casa para nos acolher. A mim, à minha mulher e aos meus filhos. E por isso ando à procura.

Entendeu o meu Pai perfeitamente as minhas razões. Mas não desarmou da sua ideia e no mesmo momento decidiu o que iria imediatamente fazer. E fez. Convocou um jantar de família com os quatro filhos, os três genros, a nora e todos os netos, para literalmente “determinar” o que queria fazer. Vender a casa ao filho pelo – na altura era bastante – valor de 600. 000$00 – seiscentos contos. Eu teria que pagar a cada irmã a quantia de 150. 000$00 – cento e cinquenta contos – ficando, obviamente, com a minha parte. Para ele Pai e para a nossa Mãe, só punha uma condição. Morarem connosco enquanto vivessem. Todas essas condições foram apenas verbais. Na nossa família desde os mais remotos antepassados valeu sempre mais a palavra dada do que qualquer escritura de notário. Assim se disse, assim se cumpriu.

Nenhuma das minhas irmãs e cunhados se opôs às decisões e condições do querido e respeitado patriarca e em poucas semanas foram marcados os actos oficias necessários à compra venda e mudança de proprietário. E foi assim que, sem nunca sequer ter imaginado tal coisa, me tornei no novo dono das paredes que assistiram ao meu nascimento e das minhas duas irmãs Maria da Luz e Joaquina Maria – porque a Adelina já tinha nascido quando a casa ficou pronta – assim como foi também entre as mesmas que o pai do meu pai o Avô Faustino Coelho, ele próprio meu querido Pai, e também a mãe da minha mãe, a Avó Amélia, partiram para a sua última viagem.

Aqui se mantêm por isso guardadas as minhas mais queridas memórias pois tive o cuidado de não tocar em uma só pedra das divisões originais da casa quando se procedeu à sua ampliação. Aqui se escreveu grande parte da minha vida e dos meus entes queridos. Se dependesse de mim, aqui gostava de terminar algum dia o percurso que iniciei na fria madrugada de um já longínquo março. Mas isso é de todo imprevisível nos tempos que correm. Com um bocadinho de sorte talvez não termine sozinho numa maca nos corredores do serviço de urgência do hospital de Portalegre e tenha a sorte de, pelo menos, terminar este meu percurso noutra madrugada de outro frio março ou abril, no conforto de uma cama da Santa Casa da Misericórdia de Marvão…

José Coelho
15jul’19

sexta-feira, 12 de julho de 2019

As “Encelências” que me contou (e cantou) minha Mãe ...

Foto - Maria Coelho

Sentados os dois na varanda do primeiro andar numa manhã de meados de primavera. Eu a ler um dos meus romances, ela com o inseparável Bolinhas sobre o colo. Gostavam imenso um do outro. Toda a sua vida tinha sido amiga dos animais que sempre houve em nossa casa. Cães, gatos, galinhas, patos e até uma cabrinha que morreu afogada pela corda onde ficara presa na horta enquanto o meu pai veio almoçar e cuja morte causou tal desgosto que nunca na minha vida o vi chorar como nesse dia.

Também o inteligente caniche Bolinhas parecia perceber que a sua amiga velhinha era cega e necessitava ser protegida. Cada vez que uma vizinha ou amiga vinha visitá-la, assim que se aproximava dela para lhe dar um beijinho, o Bolinhas rosnava um aviso como que a dizer-lhe “não te aproximes mais”. E quando elas se abraçavam nas suas efusivas e amigas saudações ele desatava a ladrar zangado apesar de eu tentar acalmar a situação dizendo-lhe: - Não faz mal, Bolinhas, é amiga!

Nesse ano a quaresma fora tardia e a Páscoa quase por finais de abril. Toda a natureza brotava pelas redondezas emanando odores balsâmicos. As giestas em flor, as laranjeiras e limoeiros do laranjal em frente da nossa casa, as flores dos canteiros do quintal, a trepadeira e vasos floridos da varanda em nosso redor. Uma suave brisa fazia balançar os cachos em acelerado crescimento na latada e ao longe ouviram-se as badaladas do sino a dar as onze horas.

- Que dia é hoje, filho? Perguntou-me.

Estávamos no final da quaresma desse ano. Tomei nota disso porque escrevi e guardei-o para nunca mais esquecer o que ela me contou e eu escutei nesse dia com a maior atenção. 

Começou assim:

- A gente dantes não ia à missa e não era por falta de fé mas porque o domingo era o único dia de descanso semanal. As mulheres tínham que aproveitar para lavar e remendar a roupa, fazer limpeza e dar uma arrumadela nas casas, enquanto os homens tinham que ir tratar das hortas para preparar as sementeiras das hortaliças que metíamos na panela toda a semana para alimentar a família. Mas nem por isso deixávamos de ser devotos.

Parou um bocadinho absorta nas suas memórias e continuou:

- Quando andávamos a mondar, no Matinho, depois do almoço todos os dias enquanto durava a quaresma tínhamos que cantar as “Encelências”. Antes de começarmos, a primeira coisa que se fazía era benzermo-nos como se estivéssemos numa igreja. Depois do sinal da cruz toda a gente ficava calada. E começava a cantar a mondadeira de um dos extremos do rancho:

1 – Ó Avé Maria, cheia de Acções de Graças
Senhor é convosco, Bendita Sois Vós

E respondia a mondadeira do outro extremo:

2 – Entre  as mulheres, bendito é o fruto
De o Vosso ventre, que nasceu Jesus

Prosseguiam depois, à vez, de um e do outro extremo:

3 – Mas Santa Maria, Santa Mãe de Deus
Rogai Deus por nós, Mãe dos pecadores

4 – Agora e na hora, de a nossa morte
Ó amén Jesus, Maria, José

5 – Maria , José, lindo nome é
Salvai a minh’alma, que ela vossa é

6 – Que ela vossa é, sempre o há-de ser
A Virgem Maria, nos há-de valer

7 – Nos há-de valer, com todo o valor
Rainha dos Anjos, com seu resplendor

Esta sequência de sete versos  era cantada doze vezes seguidas e era um grande pecado se fosse interrompida. Terminada a repetição do sétimo verso pela décima segunda vez, dava-se ínicio a outra sequência das “Encelências” composta só de quatro versos repetidos seis vezes que se chamava:

“A OFERECER”

1 – Uma Encelência que eu tenho rezado
Também a ofereço, a Jesus louvado

2 – Duas Encelências que a Virgem tivesse
Senhora da Graça, que graça nos deste

3 – Ó almas benditas lá no Purgatório
Que estão esperando por este editório

4 – Ó almas benditas que lá estão esperando
Pelas Encelências que estamos rezando

Enquanto durava o cantar e devia ser quase toda a tarde pois feitas as contas, doze vezes sete versos, mais seis vezes quatro versos, dá a soma de – 108 – cento e oito, o  sossego era tão grande que só se ouvia a voz da mondadeira que cantava e o barulho dos sachos a abrirem a terra. Parecia até que os pássaros se calavam também...

Tão enleado fiquei na sua narrativa que quase tive a sensação de estar “a ver” as mondadeiras em linha no meio do trigo e “a ouvir” o som dos sachos que me é tão familiar pelas minhas sachadelas pelo quintal. O Grupo de Cantares da Beirã que fundei em 1994 e se extinguiu por falta de “quorun” – uns faleceram, outros foram embora para outras paragens  quando a estação fechou – ainda cantou estas “Encelências” que encantavam os nossos ouvintes mais idosos porque naturalmente lhes fazíamos recordar a sua idade de ouro. Conheço muito bem a nossa fala raiana e sei que "Encelências" quer com toda a certeza dizer "Excelências" ou o modo como a gente simples destas terras trata as pessoas importantes. 

Como Jesus, Maria e José, por exemplo!

Obrigado Mãe Florinda pelo muito que me ensinaste. Aqui transcrevo um pouquinho hoje e publico em tua memória.

José Coelho
12jul’19

quinta-feira, 11 de julho de 2019

Meu vício de ler...

11jul'19

Entra pela velhice com cuidado.
Pé ante pé, sem provocar rumores
Que despertem lembranças do passado,
Sonhos de glórias, ilusões de amores
Do que tiveres no pomar plantado
Apanha os frutos e recolhe as flores,
Mas lavra ainda e planta o teu eirado,
Que outros virão colher quando te fores.
Não te sejas a velhice enfermidade!
Alimenta no espírito a saúde,
Luta contra as tibiezas da vontade.
Que a neve caia! O teu ardor não mude!
Mantém-te jovem, pouco importa a idade!
Tem cada idade a sua juventude…


Bastos Tigre

Estou ainda à espera de quê?

C hegado já para lá dos setenta, há uma pergunta que merece ser feita com sinceridade: estou ainda à espera de quê? Esperei quase toda a vid...