quinta-feira, 21 de agosto de 2025

Coisas que leio e gosto



Portugal: um país que manda milhões para a guerra e deixa o povo a arder no próprio quintal
Como todos sabem, o Governo aprovou em Março 205 milhões de euros para a Ucrânia. Repito devagarinho: duzentos e cinco milhões. Tanques, drones, munições, blindados… tudo para mostrar que Portugal é um aliado de primeira linha na NATO.
E cá dentro? Bem, cá dentro os portugueses enfrentam as chamas com baldes, alguidares, mangueiras furadas e ramos de giesta. Não é caricatura — é citação direta de especialistas em fogos florestais. Somos uma superpotência em enviar armas, mas um país de terceiro mundo em apagar incêndios.
É como se tivéssemos dois Portugais:
O Portugal diplomático: musculado, generoso, guerreiro, sempre pronto a abrir a carteira em nome da “liberdade europeia”.
O Portugal real: miserável, abandonado, entregue às labaredas, onde o povo defende a própria casa como quem participa num concurso medieval: “Combata o fogo com utensílios domésticos!”.
O Estado, esse, joga sempre no seguro: lá fora distribui milhões em contratos de Defesa. Cá dentro sobra sempre fogo e falta sempre pão.
Enquanto isso, o Zé Povinho descobre que afinal não é só carne para canhão — também é lenha para a fogueira.

In RiseUp Portugal
- 21. 08. 2025

Foto José Coelho

É difícil encontrar amigos verdadeiros, mas eles existem.

Primeiro acto oficial como Comandante do Posto da GNR de Nisa

Foi em Alvor no Algarve, agosto de 1985, longe do nosso Alentejo e das nossas famílias que teve início esta amizade que dura até hoje quarenta e muitos anos depois, com a pessoa mais íntegra, leal, frontal, sensível e honesta que conheci em toda a minha vida.

Nos poucos momentos disponíveis entre o corre-corre de um lado para o outro numa vila a abarrotar de turistas e inúmeros problemas para resolver, talvez também por sermos os dois do Posto da GNR, começámos, quase sem nos darmos conta, a falar das nossas vidas e famílias.

Eu, porque precisava saber coisas sobre Nisa e suas gentes mas também sobre os seus camaradas que já comandava desde o início do mês e aguardavam o nosso regresso depois de terminarmos a missão para a qual havíamos sido nomeados.

Talvez porque ele se sentisse um pouco isolado no meio de camaradas que não conhecia de lado nenhum e com quem não tinha a menor afinidade, estabeleceu-se entre nós alguma confiança, se não mesmo o início desta amizade. Dali até eu ficar a saber de onde ele era e que tinha uma filha linda que adorava, entre outras confidências, foi apenas um passo, porque quando estamos longe de casa e a saudade bate à porta é que nos damos conta da falta que a família nos faz.

Quando finalmente regressámos às nossas normais funções, a confiança e empatia foram-se consolidando de tal modo que ao fim de poucos meses as famílias se tornaram também boas amigas passando a ser normais os convívios familiares ora em nossa casa, ora em casa deles.

Mas o mais gratificante era o facto de nunca este incomparável amigo se ter tentado aproveitar dessa proximidade e situação em seu benefício. Muito pelo contrário. Se alguém pecou por excesso de confiança, fui eu. Não o fiz por mal mas fiz, no dia em que lhe sugeri que fosse fazer uma guarda de honra no lugar do outro camarada a quem calhava o serviço por ordem de escala mas como queria ir a Lisboa ver um jogo do seu Sporting pediu-me se não se arranjaria alguém que quisesse trocar o serviço.

E, irrefletidamente, dirigi-me ao meu novo amigo para lhe sugerir:

- Podias ir tu, depois quando te calhar a ti, irá ele no teu lugar!

Sério e íntegro até à medula, olhou-me muito surpreendido e com a frontalidade que todos sempre lhe conheceram respondeu decididamente:

- Não meu sargento, não acho que deva ir eu. O camarada não está doente e não é justo que eu vá fazer um serviço duro que lhe pertence a ele, para ele ir ver um jogo de futebol!

A lógica do argumento deixou-me embaraçado e não pude evitar dar-lhe razão. Mas confesso que fiquei ligeiramente melindrado com a recusa, como se o proveito ou o prejuízo fossem meus.

Porém, com tempo e reflexão, percebi que o erro havia sido só meu. E ainda hoje agradeço aquela frontalidade muito própria dos homens íntegros e de carácter como ele sempre foi, é, e irá ser, até ao fim dos seus dias.

Prova daquilo que afirmo foi a atitude deste amigo invulgarmente leal na tarde do dia em que eu fui promovido ao posto seguinte. Já sem sequer seu "chefe" por ter pedido transferência de Nisa para Catelo de Vide, um pouco mais perto da terra natal e restante família.

Ao ouvir uma voz depreciativa da minha pessoa, provavelmente por alguma razão que eu desconheço, pois nem que um chefe se pinte jamais conseguirá agradar a todos pois em todos os rebanhos haverá sempre alguma ovelha ronhosa, nunca soube nem quis saber a razão por que assentou tão mal àquele fulano a minha promoção ao posto seguinte.

Ainda a sua "boca" depreciativa fazia eco e já o meu leal amigo indignado com o que ouviu, estava diante do mal-dizente para lhe dizer cara a cara:

- Na minha presença não voltas a falar mal desse homem estando ele ausente e sem poder defender-se!

O fulano, por sinal mais graduado que o meu leal amigo, retorquiu meio atarantado:

- Isso, isso! Defende o teu padrinho, defende...

E o meu amigo respondeu-lhe no mesmo tom indignado:

- Não, não é meu padrinho! Mas é meu amigo e eu sou amigo dele. Não é de homem o que tu o insultes nas suas costas, quando na frente dele lhe andavas a lamber as botas. Ficas já avisado que ele vai saber o que tu disseste, porque sou eu que o irei informar...

- Mas não informou.

- Nunca me falou em tal coisa.

- Ainda hoje não sabe que eu sei.

Quem me contou algumas semanas depois essa história, foi um dos subordinados que eu então comandava e tinha sido nomeado também para ir fazer tiro naquela tarde. Assistiu a tudo e ficou admirado quer com a atitude honesta do meu leal amigo que não se intimidou com a patente do outro e lhe meteu o dedo no nariz, quer com a amizade para comigo assim provada, mais de um ano depois de eu ter deixado de ser o seu chefe.

Não digo o seu nome. Não por que ele não mereça, muito pelo contrário, mas por respeitar o direito à sua privacidade, como ele sempre me respeitou a mim. Tive a honra e o privilégio de estar presente no casamento da filha que ele adora e merecidamente o adora também a ele, assim como ele me concedeu a honra de festejar comigo os casamentos dos meus dois filhos.

O tempo passou. Muito tempo mesmo. Quatro décadas já. Mas a amizade permanece intacta. Intocável. Rara. Não existem no mundo muitas pessoas assim. Infelizmente. Obrigado, meu leal amigo por tudo o que me ensinaste. Se hoje sou uma pessoa melhor, aprendi a sê-la contigo também.

José Coelho

quarta-feira, 20 de agosto de 2025

Pensamento do dia


Tira um momento para ti mesmo, respira fundo, fecha os olhos e sente o mundo acalmar. Descansar não é desistir; 
é dar paz ao teu corpo e à tua alma.

Foto José Coelho

Haverá sempre uma primeira vez

"À chegada dos meios de socorro ao local, uma mulher de 70 anos encontrava-se encarcerada na viatura e em paragem cardiorrespiratória. Foi assistida no local pelas equipas dos bombeiros e pela equipa da Ambulância de Suporte Imediato de Vida (SIV) de Ponte de Sor e a seguir transportada para o Centro de Saúde daquela cidade, onde o óbito viria a ser decretado.

A vítima mortal seguia numa viatura ligeira de passageiros que embateu, também numa zona de curva, frontalmente numa viatura pesada de passageiros. O acidente envolveu ainda uma outra viatura ligeira de passageiros, não tendo a condutora sofrido qualquer ferimento.

No socorro estiveram meios dos Bombeiros Municipais de Coruche e Voluntários de Mora, INEM e GNR, num total de 17 operacionais, apoiados por 7 viaturas."

(Imagem e notícia da net)

Há dias assim.

Desde 2016 que percorro regularmente e várias vezes por ano os 249,8 km que separam a minha Beirã da capital do reino, para cuidar principalmente dos problemas crónicos de saúde da minha companheira de vida, já que, para mim, costuma apenas ser um checkup preventivo anual. 

E nunca nos tinha acontecido uma situação destas. 

Mas, como diz a sabedoria popular, para tudo haverá sempre uma primeira vez.

Num percurso normalmente tranquilo, a marcha da viatura em que seguíamos foi inesperadamente interrompida numa zona de curvas e contracurvas já perto do Couço, por uma gigantesca coluna de trânsito parado à nossa frente, maioritariamente camiões. Causa, o choque frontal entre um camião e um ligeiro de passageiros cuja condutora ficou encarcerada e a cortar a estrada.

Duas horas imobilizados a aguardarmos que o trânsito fosse restabelecido, a mais de meio do caminho. Com horas de atendimento pré marcadas, lá se foi o motivo da nossa viagem por água abaixo, com necessidade de remarcação de nova viagem. 

Almoçámos tarde e a más horas e logo a seguir regressámos a casa.

Nunca a vida parou de me surpreender. 

Nunca. 

Desengane-se quem pense que já viu tudo e nada mais tem para aprender.

Paz à alma da vítima. 

Todos os cuidados na estrada nunca serão demais.

José Coelho

segunda-feira, 18 de agosto de 2025

Sermos capazes de ser felizes

Foto da autoria da neta Francisca em 15 de agosto de 2024



Nunca o meu sorrir foi forçado. Nunca na minha vida esbocei sequer um sorriso com vontade de chorar, como já ouvi pessoas dizerem que o fazem. Se rio é porque estou feliz e no meu íntimo reina a serenidade. É porque estou bem. Não faço favores desses a ninguém. Em mim tudo é genuíno, ou nem sequer existe. De igual modo também não sei disfarçar a tristeza, a preocupação ou a indignação. Se alguma coisa me perturba, a minha expressão facial dizem que muito mal-encarada, revela e não deixa dúvidas que estou preocupado ou mal disposto.

Nunca deixei de dizer cara a cara e fosse a quem fosse, o que tinha de ser dito. Lamber botas, dar palmadinhas nas costas de qualquer pessoa para logo a seguir ir dizer mal dela não faz o meu género, porque a má-fé e a cobardia nunca habitaram o meu coração. A quem gosta de mim tento sempre retribuir em dobro. E quem não gosta, ponha no bordo do prato. Estou-me nas tintas.
Aprendi a lutar pelo que queria desde muito pequeno. De pezitos descalços e calças remendadas que luxos não havia e a tia Florinda não dava baldas, nem poupava nas nalgadas quando eram precisas para nos ensinar que quem mandava era ela.
Fizeram-me tão bem!
Ainda assim não deixei de levar sempre "a minha" avante. Com apenas cinco anos, uma tarde fugi à Mestra, a querida senhora Vicência Olivença, para me apresentar na Sociedade Recreativa num dia em que começaram os ensaios das crianças da catequese para um serão recreativo que se fazia todos os anos na Beirã para a população.
Eu não andava ainda na catequese porque também ainda não frequentava a escola, mas queria lá saber disso. Se as outras crianças podiam lá estar eu também tinha de poder. E como ninguém me chamou fugi à mestra e fui lá ter.
Com tal sorte que a D. Mimi e o Sr. Cardoso acharam que eu era capaz de ficar bem no papel de um Beirão de Monsanto a interpretar uma cantiga ao desafio com uma das netas da vizinha Joaquina Servo que era da minha idade e altura. E de tal modo aquilo correu bem que logo naquele primeiro arremedo de ensaio assinámos contrato artístico com a produção do evento.
Devia ser hilariante porque toda a gente ria à gargalhada. Eu era baixote e a miúda também, vestidos de Beirões e com o sotaque de Monxanto a condizer, aquilo correu mesmo bem. O pior foi a cara indignada da Mestra Vicência quando terminou o ensaio. Dera pela minha falta e sabendo que havia ali atividades com crianças logo imaginou para onde eu me tinha escapulido sem a sua licença.
E não achou graça nenhuma.
Fui agarrado por uma orelha até sua casa e à noite queixa formal à mãe Florinda que me proibiu de voltar a por os pés na Sociedade sob pena de levar uma sova. Valeu-me a diplomacia da senhora D. Mimi e do Sr Cardoso que lá conseguiram convencer Mãe e Mestra a deixarem-me participar.
Depois...
Toda a minha vida foi uma luta constante para alcançar metas, como a vida de todos aqueles que tiveram a sina de nascerem pobres. A vida dura do campo e mais tarde a de cabouqueiro nas pedreiras com o meu pai, não me seduziam nem um pouco. Não me sentindo mais corajoso ou ousado do que qualquer outro gaiato da minha idade, sabia com toda a certeza que iria ser capaz de arranjar uma vida melhor.
Pesei sempre na balança da prudência todas as possibilidades, sem nunca subestimar as naturais dificuldades. Foram infinitas as inquietações. Os medos. As noites mal dormidas. Mas tudo valeu a pena porque infinitos foram depois os momentos da mais profunda felicidade por cada conquista, por cada obstáculo vencido, por cada "porra, consegui!".
Poetizando um pouco...
"O tempo passou e veio a idade,
como vem a noite ao cair da tarde".
Mas com a idade vieram outras coisas inesperadas, absolutamente dispensáveis e com as quais tenho de conviver agora no silêncio dos meus dias. Acabaram-se as lutas que foram sendo substituídas pela simplicidade de aprender a viver um dia de cada vez.
E não sendo possível melhor, que ao menos se mantenha assim.
Neste cair de tarde da minha vida com a noite a aproximar-se, continuo apesar do já longo caminho percorrido o mesmo petiz de pés descalços que corria rua abaixo para fugir à mestra, que agora já não corre mas continua a descê-la em passo tranquilo e já pode ir para onde quer sem que ninguém lhe ralhe ou o prenda por uma orelha.
Não foi fácil.
Muito pelo contrário.
A minha mais sincera gratidão vai direta para a Família em cujo seio nasci e a quem devo tudo o que sou. Depois à Vida pelo tanto que me deu, bom e mau. Guardo no coração sempre em primeiro lugar as memórias mais felizes, mas foram sem dúvida os tombos e as dificuldades que me ensinaram a lutar, a resistir e a nunca desistir. Porque felizmente em momento algum perdi de vista aquele que me parece ser o objetivo principal na vida de qualquer um de nós:

O de sermos capazes de ser felizes. E porque não também, de ajudar os outros a sê-lo?

domingo, 17 de agosto de 2025

A verdadeira magia


Olha para dentro de ti e cuida do que te faz bem sem nunca te esqueceres que a verdadeira magia está em seres simples, em seres tu.

- 14. 08. 2025
Em Marvão

sábado, 16 de agosto de 2025

O Rex e a mãe javali (republicação)

Era lindo o Rex. Em casa dos meus pais, como já por aqui afirmei, sempre houve bicharada. Cães, cabras, gatos, galinhas, patos e até pintassilgos numa gaiola, coisa que eu sinceramente não achava graça nenhuma porquanto entendo que os pássaros, tal como nós, foram criados para viverem felizes em liberdade.
Muitas vezes algumas pessoas chegadas apercebendo-se da apetência da passarada para fazerem os seus ninhos nas árvores e latadas do meu quintal – na primavera passada, por exemplo, tínhamos um ninho de pintassilgo na roseira-que-trepa, outro no abrunheiro, mais um de verdelhão na latada ao lado da casa e finalmente outro de carriça na trepadeira da varanda – pediam-me para lhes “apanhar” um pintassilgo ou um verdelhão, o que sempre recusei, costumando perguntar-lhes meio a rir e meio a sério:
- Também gostavas de ser metido numa gaiola?
Mas hoje quero contar-vos uma divertida história do nosso Rex. Era um cãozarrão enorme, todo negro de pelo brilhante como o verniz, nascido do cruzamento do cão labrador pisteiro do destacamento da GNR de Almada com a cadela pastor alemão do então comandante daquela sub-unidade o capitão Ochôa, posteriormente colocado em Nisa onde eu prestava também serviço.
A Lai, assim se chamava a cadela mãe do Rex, vinha prenha e deu à luz, algum tempo depois, uma bela ninhada de cachorros. Saíram todos da raça da mãe pastor alemão, à exceção do Rex que nasceu assim negro como uma amora madura, da raça do pai. Enquanto os outros cachorros espetavam as orelhas, o Rex tinha-as caídas. Por isso ninguém o quis, apesar de, para mim, ser de todos o mais bonito.
Como a mais ninguém interessou fiquei eu com ele para o oferecer ao meu filho Pedro que tinha na altura 9 anos – porque o Manel já tinha a gata siamesa Princesa que lhe tinham oferecido no seu 12º aniversário – o qual não só ficou encantado com o seu novo amigo, como lhe dedicou uma amizade sem paralelo, digna de se ver. De tal modo que ainda hoje, mais de duas décadas depois de já não estar connosco, o Rex é recordado com frequência como um velho e querido amigo que nos deixou muitas saudades.
Mimado e bem tratado como o são sempre os animais na nossa casa, o pequeno cachorro fez-se um gigante. Enorme, dócil e lindo. E valente. Nada lhe metia medo. Corria para o mato todo arrufado assim que sentia qualquer mexida, fosse um saca-rabos, uma raposa, ou mesmo uma corpulenta vaca ou um burro. Ali não havia hesitações! Às vezes arreliava-me bastante com ele porque desatava a correr desatinado atrás de qualquer bicharoco e tanto fazia chamar por ele, como ficar calado. Muitas vezes o perdi de vista e tive que depois andar de cancho em cancho já zangado à sua procura, até que lá me aparecia o gajo com um palmo de língua de fora, esbaforido pela correria!
Até que um dia…
Morávamos definitivamente já na nossa Toca dos Coelhos na Beirã. Todas as tardes assim que chegava de Portalegre saía com ele a dar grandes passeios por aí, subindo e descendo canchos a desbravar matagais até às barreiras do rio Sever, coisa que o Rex não só adorava como também necessitava para desentorpecer e dar umas valentes corridas a fazer o exercício indispensável ao seu bem-estar físico.
E foi numa dessas tardes que eu me ri até às lágrimas com o que aconteceu. Caminhávamos pela “carreteira” de terra batida da Tapada dos Carvalhos de Roque quando o Rex pressentiu algo a mexer no meio das giestas.
E nem pensou duas vezes.
Atirou-se para meio do mato num furioso ladrar, capaz de comer o que quer que fosse que tivesse provocado aquela agitação a fim de o afugentar e perseguir, a coisa que mais o regalava! Porém, se muito depressa o perdi de vista, mais depressa o vi voltar pelo mesmo caminho aflito e apavorado à frente de uma furibunda mãe-javali que aos sopros e grunhidos destemidamente o perseguia.
Atrás dela vinha uma dúzia de bácoros-javalis recentemente paridos, motivo pelo qual, com toda a certeza, a zelosa mamã javali não achara piada nenhuma à evidente ameaça que aquele cãozarrão representava para os seus ricos meninos.
Sem hesitar um segundo, contra-atacou.
E o Rex, ó abre...
Fujam da frente que atrás vem gente!
Patas para que vos quero!
Nunca tinha visto nada assim.
A mãe-javali quando encarou comigo tacitamente recuou. Deu meia-volta com os bácoros atrás dela e desapareceu no mato. Mas o Rex, de rabo entre as pernas, o tal matulão valentão, atiradiço e destemido, naquela tarde não mais se atreveu a descolar o focinho dos meus calcanhares, enquanto durou o resto do passeio.
E eu continuei a rir o resto da tarde, rio-me ainda algumas vezes, todos estes anos depois cada vez que passo por aquele sítio e me lembro da hilariante cena...
in Histórias do Cota
Foto:
O Rex comigo no Monte Velho - Beirã

Estou ainda à espera de quê?

C hegado já para lá dos setenta, há uma pergunta que merece ser feita com sinceridade: estou ainda à espera de quê? Esperei quase toda a vid...