E no meio da terra arável da Tapada da Lagem Alta, lá continua firme o cancho onde
morava o lacrau que me ferrou num dedo do pé, no verão de 1954/55
Já mais do que uma vez pensei não
voltar aos lugares mais longínquos e remotos por onde sempre andei, engendrando
de mim para comigo as mais plausíveis desculpas como por exemplo o facto de
estar a ficar menos ágil, de já não ter a leveza de quando era moço para subir ou
descer canchos e saltar paredes, de não ser aconselhável afastar-me dos
caminhos já tão raramente percorridos, porque pode dar-se a casualidade de algum
inesperado trambolhão que origine a necessidade de socorro urgente, situação a
que quase todos esses ermos distantes são inacessíveis.
Talvez por isso mesmo tenham sido
sempre os meus lugares de eleição. Por lá tudo quanto nos envolve é genuíno e perfeito.
O melodioso despertar da natureza ao romper de cada manhã e o silêncio de cada
entardecer também. A brisa leve que nos acaricia o rosto nos dias amenos ou o
vento agreste a gretar-nos os beiços, em dias gélidos. Nada por ali é a fingir.
Não existe fisga de cancho ou saltador de parede que eu não conheça ou não
tenha saltado. Cresci e fiz-me homem a percorrer estas paisagens onde atava
feixes lenha de giesta seca para a tia Florinda e também para a avó Amélia
cozinharem ao lume, porque o luxo dos fogareiros a petróleo ou a gás ainda não tinha
chegado.
Nestes descampados me refugiei
centos de vezes em busca de tranquilidade, quando me senti inquieto. Por mil e
um motivos. A dureza da vida naquele tempo, os meus primeiros amores e
desamores, mas também, quantas vezes, o meu espírito indomável que nunca aceitou
render-se fosse qual fosse o desafio. Há por estas paragens imensos lugares onde
não chega ninguém durante semanas, meses, anos até. E quando alguém lá tem de
ir, desloca-se em transportes apropriados. Tratores agrícolas ou carrinhas todo-o-terreno,
onde, além de se transportar, leva ainda palhas e rações para o gado que por lá
pastoreia todo o ano.
Ou vão apenas, sazonalmente, carregar
alguma lenha no outono e na tiragem da cortiça dos sobreiros, ao início do verão.
A Cavalinha de Cima onde fui
acolhido sempre com tanto amor e carinho pela avó Amélia e pelo avô e padrinho
José Lourenço que me deu o nome, faz parte integrante da minha vida. E o Muro
de que tanto ouvi falar a vida toda, por ter sido ali que nasceu e se criou
a minha mãe mais os seus sete irmãos e irmãs. Tantas peripécias deles contadas
nos nossos serões à lareira! O Monte do Matinho onde o avô José guardava
gado e avó Amélia mondava com outras companhas e para onde foram depois também transitando
para trabalharem na lavoura, à medida que iam crescendo, todos os meus tios e
tias.
Quantos lugares conheço por aqui?
São quase incontáveis…
A Cabeçuda, a Herdade
dos Pombais, as Amendoeiras, o Batão, o Bravo a Bola
da Cera, o Cavalo, os Aires, a Pereira, a Nave,
a Anta, a Murta, a Meirinha, a Retorta, o Monte
Velho, o Pereiro Velho, a Malhadinha Alta, a Herdade do
Pereiro com a sua Fadagosa, a Torre, o Vale do Cano, o
Cabeço de Seixo, os Pavios, o Chão Salgado, o Santo
Amador, a Saragoça, a Defesa, as Cebolas, o Vale da
Amoreira, as Águas, a Castinceira, a Bica, o Cabril,
a Fonte Salgueiro, o Cabeço, os Carvalhos de Roque, a Lagem
Alta…
E tantos outros que agora não me
ocorrem.
Conheço-os de cor. Percorri-os a
pé, sozinho e acompanhado, inúmeras vezes. Nunca tive sequer uma bicicleta,
quando a maior parte dos meus amigos até motorizadas já tinham, mas nunca me
senti diminuído por não as ter. Muito cedo compreendi que na vida tem de haver prioridades.
E que a família é, entre todas, a primeira. O pouco que ganhava fazia falta para
colmatar algumas dessas prioridades e não dava para mais. Por isso, sozinho ou
acompanhado, quase sempre com algum livro debaixo do braço, marchava a pé pelos
campos e perdia-me horas a fio na companhia da aragem ou do vento até ao pôr do
sol e quantas vezes a noite me apanhou ainda longe de casa.
Havia veredas tão seguras como
estradas e nelas eu sabia onde estava cada obstáculo a contornar. Hoje nem com
óculos graduados vejo bem. Naquele tempo, no meio do mato e em noites cerradas
eu “via” a vereda, o caminho, os obstáculos. Mais do que boa visão, era instinto.
E que bem sabia o sossego dos campos, a companhia das furtivas raposas, o
musical gorjeio dos melros e rouxinóis, o cantar dos grilos e dos ralos. O meu
mundo era aquele e nele fui infinitamente feliz.
Por isso depois de muitos sóis já
passados venho ainda visitá-lo, as pernas já a doerem e os pés a pesarem demais.
A última vez fui acompanhado pela
minha inseparável companheira e quando demos conta estávamos demasiado longe
para as nossas energias. Mas gostei. Enchi os olhos de harmonia e o coração de
serenidade. Antes de sair de lá olhei demoradamente à minha volta, acariciei as
omnipresentes giestas e pensei emocionado:
- Será que irei voltar aqui mais
alguma vez?
Disse olá a uma bonita vitela que
mal que nos viu logo se encaminhou para nós e pregou um susto monumental à
minha marida que pensou que ela lhe ia dar alguma marrada.
- Não tenhas medo!
Tranquilizei-a…
A bezerra pastoreava por entre as
altas giestas do Monte Velho do tio João Forte, com mais duas ou três irmãs.
Provavelmente habituada a que o dono lhes leve sempre algum miminho em forma de
feno ou granulado de ração, dirigiu-se a nós à espera do seu “presente” mas quando
percebeu que não levávamos nada, seguiu o seu caminho.
E nós, o nosso.
Estava uma tarde linda e no ar
pairavam por toda a parte os intensos aromas dos pastos secos a estalarem constantemente
ao calor do estio. O cenário transportou-me à minha meninice quando passei pelo
carcomido toco do sobreiro que um raio derrubou quase ao meu lado quando era
pastor. Meio desfeito já pelos temporais
mas negro ainda pela forte descarga incandescente que caiu do céu e o rasgou de
alto a baixo, lá continua de pé indiferente ao tempo e às memórias.
A seguir saltámos para a Tapada
da Lagem Alta, onde junto à vereda continua e vai continuar pelos séculos dos
séculos o pequeno cancho – que fotografei comovido – de onde eu pulava sem
parar naquela manhã que me ferrou num dedo do pé um lacrau que lá morava,
enquanto a minha mãe mondava milho um pouco mais abaixo.
Sem que isso signifique que continue
a viver no passado, é tão bom e sabe sempre tão bem revisitar os locais que guardam
estes testemunhos silenciosos da minha meninice e juventude, a atestarem como foi
abençoadamente feliz, mesmo com sustos de tormentosas faíscas e ferroadas de
escorpiões.
- Se puder vou lá voltar, pelo
menos mais uma vez.
Ou… dez!
Está decidido...
José
Coelho
(Texto e foto republicados com algumas modificações)