terça-feira, 26 de agosto de 2025

Marida pede, marido faz


A pedido da marida, caldeirada de bacalhau à minha maneira - sem ameijoas nem mariscos porque isso são modernices que não havia cá antigamente - para o almoço de hoje. E, no nosse falar marvaneje, nã tava má de tode...

Coisas que leio e gosto


Não é alentejano quem quer

Palavra mágica que começa no Além e termina no Tejo, o rio da portugalidade. O rio que divide e une Portugal e que à semelhança do Homem Português, fugiu de Espanha à procura do mar.

O Alentejo molda o carácter de um homem. A solidão e a quietude da planície dão-lhe a espiritualidade, a tranquilidade e a paciência do monge; as amplitudes térmicas e a agressividade da charneca dão-lhe a resistência física, a rusticidade, a coragem e o temperamento do guerreiro. Não é alentejano quem quer. Ser alentejano não é um dote, é um dom. Não se nasce alentejano, é-se alentejano.

Portugal nasceu no Norte mas foi no Alentejo que se fez Homem. Guimarães é o berço da Nacionalidade, Évora é o berço do Império Português. Não foi por acaso que D. João II se teve de refugiar em Évora para descobrir a Índia. No meio das montanhas e das serras um homem tem as vistas curtas; só no coração do Alentejo, um homem consegue ver ao longe.

Mas foi preciso Bartolomeu Dias regressar ao reino depois de dobrar o Cabo das Tormentas, sem conseguir chegar à Índia para D. João II perceber que só o costado de um alentejano conseguia suportar com o peso de um empreendimento daquele vulto. Aquilo que para o homem comum fica muito longe, para um alentejano fica já ali. Para um alentejano não há longe, nem distância porque só um alentejano percebe intuitivamente que a vida não é uma corrida de velocidade, mas uma corrida de resistência onde a tartaruga leva sempre a melhor sobre a lebre.

Foi, por esta razão, que D. Manuel decidiu entregar a chefia da armada decisiva a Vasco da Gama. Mais de dois anos no mar... E, quando regressou, ao perguntar-lhe se a Índia era longe, Vasco da Gama respondeu: «Não, é já ali.». O fim do mundo, afinal, ficava ao virar da esquina.

Para um alentejano, o caminho faz-se caminhando e só é longe o sítio onde não se chega sem parar de andar. E Vasco da Gama limitou-se a continuar a andar onde Bartolomeu Dias tinha parado. O problema de Portugal é precisamente este: muitos Bartolomeu Dias e poucos Vasco da Gama. Demasiada gente que não consegue terminar o que começa, que desiste quando a glória está perto e o mais difícil já foi feito. Ou seja, muitos portugueses e poucos alentejanos.

D. Nuno Álvares Pereira, aliás, já tinha percebido isso. Caso contrário, não teria partido tão confiante para Aljubarrota. D. Nuno sabia bem que uma batalha não se decide pela quantidade mas pela qualidade dos combatentes. É certo que o Rei de Castela contava com um poderoso exército composto por espanhóis e portugueses, mas o Mestre de Avis tinha a vantagem de contar com meia-dúzia de alentejanos. Não se estranha, assim, a resposta de D. Nuno aos seus irmãos, quando o tentaram convencer a mudar de campo com o argumento da desproporção numérica: «Vocês são muitos? O que é que isso interessa se os alentejanos estão do nosso lado?»

Mas os alentejanos não servem só as grandes causas, nem servem só para as grandes guerras. Não há como um alentejano para desfrutar plenamente dos mais simples prazeres da vida. Por isso, se diz que Deus fez a mulher para ser a companheira do homem. Mas, depois, teve de fazer os alentejanos para que as mulheres também tivessem algum prazer. Na cama e na mesa, um alentejano nunca tem pressa. Daí a resposta de Eva a Adão quando este, intrigado, lhe perguntou o que é que o alentejano tinha que ele não tinha: «Tem tempo e tu tens pressa.» Quem anda sempre a correr, não chega a lado nenhum. E muito menos ao coração de uma mulher. Andar a correr é um problema que os alentejanos, graças a Deus, não têm. Até porque os alentejanos e o Alentejo foram feitos ao sétimo dia, precisamente o dia que Deus tirou para descansar.

E até nas anedotas, os alentejanos revelam a sua superioridade humana e intelectual. Os brancos contam anedotas dos pretos, os brasileiros dos portugueses, os franceses dos argelinos... só os alentejanos contam e inventam anedotas sobre si próprios. E divertem-se imenso ao mesmo tempo que servem de espelho a quem as ouve.

Mas para que uma pessoa se ria de si própria não basta ser ridícula porque ridículos todos somos. É necessário ter sentido de humor. Só que isso é um extra só disponível nos seres humanos topo de gama.

Não se confunda, no entanto, sentido de humor com alarvice. O sentido de humor é um dom da inteligência; a alarvice é o tique da gente bronca e mesquinha. Enquanto o alarve se diverte com as desgraças alheias, quem tem sentido de humor ri-se de si próprio. Não há maior honra do que ser objeto de uma boa gargalhada. O sentido de humor humaniza as pessoas, enquanto a alarvice diminui-as. Se Hitler e Estaline se rissem de si próprios, nunca teriam sido as bestas que foram.

E as anedotas alentejanas são autênticas pérolas de humor: curtas, incisivas, inteligentes e desconcertantes, revelando um sentido de observação, um sentido crítico e um poder de síntese notáveis.

Não resisto a contar a minha anedota preferida. Num dia em que chovia muito, o revisor do comboio entrou numa carruagem onde só havia um passageiro. Por sinal, um alentejano que estava todo molhado, em virtude de estar sentado num lugar junto a uma janela aberta. 

- Ó amigo, porque é que não fecha a janela? Perguntou-lhe o revisor.

- Isso queria eu, mas a janela está estragada, respondeu o alentejano. 

- Então porque é que não troca de lugar? 

- Eu trocar, trocava... Mas com quêim?

Como bom alentejano que me prezo de ser, deixei o melhor para o fim. O Alentejo, como todos sabemos, é o único sítio do mundo onde não é castigo uma pessoa ficar a pão e água. Água é aquilo por que qualquer alentejano anseia. E o pão... Mas há melhor iguaria do que o pão alentejano? O pão alentejano come-se com tudo e com nada. É aperitivo, refeição e sobremesa. E é o único pão do mundo que não tem pressa de ser comido. É tão bom no primeiro dia como no dia seguinte ou no fim da semana. Só quem come o pão alentejano está habilitado para entender o mistério da fé. Comê-lo faz-nos subir ao Céu!

É por tudo isto que, sempre que passeio pela charneca numa noite quente de verão ou sinto no rosto o frio cortante das manhãs de Inverno, dou graças a Deus por ser alentejano. Que maior bênção poderia um homem almejar?

Vou mas éi comer a açorda que tenho mais que fazer.

Texto João Mário Caldeira - Professor de História

Foto José Coelho (da minha açorda de bacalhau)

segunda-feira, 25 de agosto de 2025

D@ minh@ escritor@ f@vorit@


A CALÚNIA

Nunca tinha sido alvo da calúnia. Foi preciso chegar a esta idade e a 30 anos de comunicação social, para ter tido essa experiência, que me magoou muito, mas simultaneamente me permitiu ver quem, de facto, me aprecia e defendeu.

A calúnia é uma das formas mais cruéis de injustiça, porque ataca aquilo que é mais precioso numa pessoa: a sua honra e a sua dignidade. Diferente de uma agressão física, que deixa marcas visíveis, a calúnia age de maneira silenciosa e corrosiva, espalhando desconfiança, mágoas e ruturas muitas vezes irreparáveis. Uma palavra distorcida, uma mentira repetida, pode destruir amizades, abalar famílias, manchar reputações construídas ao longo de anos e, até, comprometer a vida profissional e social de alguém.

O mais doloroso é que, depois de espalhada, a calúnia dificilmente pode ser totalmente reparada. Mesmo quando a verdade vem à tona, as dúvidas já foram lançadas, e o olhar das pessoas nunca mais é o mesmo. É como uma mancha que permanece, mesmo após tentativas de limpeza.

A devastação da calúnia não atinge apenas a vítima direta. Ela corrói laços de confiança na comunidade, incentiva a injustiça e alimenta a maldade. Quem calunia fere não só o outro, mas também a si mesmo, pois revela a própria fragilidade de carácter.

Por isso, é fundamental refletir antes de falar e cultivar a responsabilidade nas palavras. A verdade pode ferir, mas liberta. A calúnia, por sua vez, aprisiona todos num ciclo de dor e desconfiança.

Helena Sacadura Cabral

domingo, 24 de agosto de 2025

Mea culpa (republicação)

Foto - Estúdio Foto Vila - Castelo de Vide

Na voragem dos dias que me parecem cada mais céleres à medida que vou envelhecendo, dou por mim a pensar inúmeras vezes que a vida nunca deixou de me surpreender. Outras porém, tenho a nítida sensação de que já vivi mais coisas boas e menos boas do que a maioria das pessoas do meu tempo.

Após 73 “quilómetros” de “caminhada” por uma vida repleta de experiências – cada uma mais inesperada que a outra – e rodeado pelas minhas mais queridas memórias, desfruto serenamente do dia a dia no sossego desta casa que reconstruí sobre a outra mais pequena da qual foi sábio “arquiteto” o meu saudoso Pai.

É para profundamente benfazejo este lugar porque quotidianamente vai trazendo de volta ao meu imaginário a voz doce da minha mãe, o falar pausado e meigo do meu pai, o alegre e cristalino gargalhar das minhas irmãs. E à mistura com essas lembranças, fácil é também reconstituir os aromas da ceia ao lume na sertã, do tabaco de mortalha que o ti Tónho Coelho fumava enquanto pacificamente aguardava a ceia sentado ao lume.

Apressados em viver a vida para alcançar as nossas metas, descuramos muitas vezes o valor intrínseco dos afetos, ainda que sem má intenção, desvalorizando o que tínhamos de mais sagrado: A Família. Mãe, Pai, Irmãos, Avós, Tios, Primos, quiçá alguns bons Amigos até. Depois a vida passa, as metas nem sempre terão sido tão importantes como imaginávamos, quantas vezes não terão sequer sido alcançadas. Entretanto a Família foi diminuindo porque a vida de cada um deles no seu imparável percurso se foi extinguindo.

E, como o acordar de qualquer sonho, inevitavelmente chega também o momento em que começamos – quase sempre tarde demais – a perceber que a vida já vai de vencida. Inutilmente olhamos então para trás em busca de tudo o que amávamos e que, sem disso nos termos apercebido por havermos andado demasiado ocupados, era o que de mais importante e valioso possuíamos. Porém não há mais nada a fazer porque é impossível regredir no tempo, restaurar afetos, recuperar enfim, tudo o que não soubemos avaliar no tempo certo.

Envelhecemos sem quase nos apercebermos e só quando uma dor numa articulação começa a ser frequente, o coração começa a trabalhar irregularmente, a necessidade de consultar o médico deixa de ser pontual e passa a ser recorrente, percebemos que estamos a atingir o ponto de não retorno. E aí sim, damos conta que a nossa vida é finita, que as coisas menos boas não acontecem só aos outros, que talvez ainda seja tempo de tentarmos viver.

Não sou nem quereria ser, exceção. Este desabafo na forma escrita mais não é também do que um sincero “mea culpa”. Vivi intensamente a vida, olhando sempre mais para a frente do que para o lado ou para trás, apesar de não ter sido, de todo, nada fácil.

E nessa luta constante contra ventos por vezes bem agrestes, tentei como pude nunca esquecer o lado sagrado onde sempre estiveram e me apoiaram todos os que amava, amo e amarei incondicionalmente enquanto viver. A minha Família. Olhando hoje para trás, nem sempre consigo evitar a nostalgia que tantas vezes me invade. Porém, conhecendo-me como me conheço, sei que se voltasse a nascer faria tudo de novo exatamente como fiz até aqui.

Apesar de tantas dificuldades, tenho muito mais para agradecer à Vida, do que para lhe pedir. Porque sempre me deu saúde, a força anímica e a coragem suficientes para completamente sozinho e sem apoio de ninguém vencer os mais difíceis desafios, permitindo-me alcançar uma a uma todas as metas e objetivos que me propus, por mais inalcançáveis que muitas vezes aparentassem ser.

Essa mesma Vida que tanto me ajudou ensinou-me na primeira pessoa a razão Nelson Mandela tinha quando afirmou que:

- Tudo é considerado impossível, até acontecer…

José Coelho

Bom domingo


Há quem tenha passado pelo inferno e continue a ser boa pessoa. Há quem tenha conhecido a dor, o abandono, a injustiça — e consiga tratar os outros com delicadeza, com empatia. Como se o mundo não lhes tivesse ensinado exatamente o contrário. Depois, há quem tenha tido tudo: segurança, amor, estabilidade. E ainda assim seja um miserável. A narrativa que nos vendem é simples:

"ele é assim porque sofreu",

"ela magoa os outros porque a magoaram".

Mas há quem tenha sido esmagado pela vida e nunca tenha sentido necessidade de esmagar ninguém.

Ser boa pessoa não vem do que viveste. Vem do que és. A dor pode tornar-te sensível; também pode tornar-te cruel. O inferno é um excelente álibi para a maldade. Mas não justifica nada. Os que saíram do inferno e escolheram a bondade não o fizeram porque era mais fácil. Fizeram-no porque não sabem ser de outra forma. Se o inferno cria monstros, talvez o céu também os crie.

A pior maldade pode não vir da dor, mas do luxo de nunca a ter sentido.

Pedro Chagas Freitas 

Foto José Coelho com Maria Coelho

sábado, 23 de agosto de 2025

Quem te avisa, teu amigo é...



ALERTA

Porque todo cuidado é pouco...
...tenham atenção ao seguinte:

Todos nós certamente temos recebido chamadas destes "artistas."
Tel: +375 ...
Tel: +371 ...
Tel: +563 ...
Tel: +370 ...
Tel: +255 ...
Tel: +381 ...
Estes indivíduos deixam tocar poucas vezes e desligam...
Se você atender, podem copiar a sua lista de contactos em 3 segundos e, se você tiver pormenores do seu banco ou do cartão de crédito no seu telefone, também podem ficar com esses dados ...
O código +375 é para a Bielorrússia.
O código +371 é para a Lituânia.
+381 Sérvia.
+563 Valparaíso.
+370 Vílnius.
+255 Tanzânia.
Não atenda !!! Não ligue de volta.
Além disso, não pressione # 90 ou # 09 no seu telemóvel, se lhe for pedido por qualquer pessoa que lhe ligue.
É um novo truque usado para aceder ao seu cartão SIM, fazer chamadas à sua custa e catalogá-lo como um criminoso.
Em Portugal, é possível e diria obrigatório denunciar essas chamadas fraudulentas à ANACOM, à Polícia Judiciária (cibercrime) ou ao seu operador de telecomunicações..

URGENTEMENTE, REENCAMINHE

Bom fim de semana


Para ser GRANDE, é preciso aprender a ser pequeno.
Para ser HUMILDE, é preciso aprender a ser simples.
Para ser HUMANO, basta ser verdadeiro.

Foto Maria Coelho

Estou ainda à espera de quê?

C hegado já para lá dos setenta, há uma pergunta que merece ser feita com sinceridade: estou ainda à espera de quê? Esperei quase toda a vid...