Há quem tenha
passado pelo inferno e continue a ser boa pessoa. Há quem tenha conhecido a
dor, o abandono, a injustiça — e consiga tratar os outros com delicadeza, com
empatia. Como se o mundo não lhes tivesse ensinado exatamente o contrário.
Depois, há quem tenha tido tudo: segurança, amor, estabilidade. E ainda assim
seja um miserável. A narrativa que nos vendem é simples:
"ele é assim
porque sofreu",
"ela magoa os
outros porque a magoaram".
Mas há quem tenha
sido esmagado pela vida e nunca tenha sentido necessidade de esmagar ninguém.
Ser boa pessoa não
vem do que viveste. Vem do que és. A dor pode tornar-te sensível; também pode
tornar-te cruel. O inferno é um excelente álibi para a maldade. Mas não
justifica nada. Os que saíram do inferno e escolheram a bondade não o fizeram
porque era mais fácil. Fizeram-no porque não sabem ser de outra forma. Se o
inferno cria monstros, talvez o céu também os crie.
A pior maldade pode
não vir da dor, mas do luxo de nunca a ter sentido.
Pedro Chagas Freitas
Foto José Coelho com Maria Coelho
