Na voragem dos dias que me
parecem cada mais céleres à medida que vou envelhecendo, dou por mim a pensar
inúmeras vezes que a vida nunca deixou de me surpreender. Outras porém, tenho a
nítida sensação de que já vivi mais coisas boas e menos boas do que a maioria
das pessoas do meu tempo.
Após 73 “quilómetros” de
“caminhada” por uma vida repleta de experiências – cada uma mais inesperada que
a outra – e rodeado pelas minhas mais queridas memórias, desfruto serenamente do
dia a dia no sossego desta casa que reconstruí sobre a outra mais
pequena da qual foi sábio “arquiteto” o meu saudoso Pai.
É para profundamente benfazejo
este lugar porque quotidianamente vai trazendo de volta ao meu imaginário a voz
doce da minha mãe, o falar pausado e meigo do meu pai, o alegre e cristalino
gargalhar das minhas irmãs. E à mistura com essas lembranças, fácil é também
reconstituir os aromas da ceia ao lume na sertã, do tabaco de mortalha que o ti
Tónho Coelho fumava enquanto pacificamente aguardava a ceia sentado ao lume.
Apressados em viver a vida para
alcançar as nossas metas, descuramos muitas vezes o valor intrínseco dos afetos,
ainda que sem má intenção, desvalorizando o que tínhamos de mais sagrado: A
Família. Mãe, Pai, Irmãos, Avós, Tios, Primos, quiçá alguns bons Amigos até.
Depois a vida passa, as metas nem sempre terão sido tão importantes como
imaginávamos, quantas vezes não terão sequer sido alcançadas. Entretanto a
Família foi diminuindo porque a vida de cada um deles no seu imparável percurso
se foi extinguindo.
E, como o acordar de qualquer
sonho, inevitavelmente chega também o momento em que começamos – quase sempre
tarde demais – a perceber que a vida já vai de vencida. Inutilmente olhamos
então para trás em busca de tudo o que amávamos e que, sem disso nos termos
apercebido por havermos andado demasiado ocupados, era o que de mais importante
e valioso possuíamos. Porém não há mais nada a fazer porque é impossível
regredir no tempo, restaurar afetos, recuperar enfim, tudo o que não soubemos avaliar
no tempo certo.
Envelhecemos sem quase nos
apercebermos e só quando uma dor numa articulação começa a ser frequente, o
coração começa a trabalhar irregularmente, a necessidade de consultar o médico
deixa de ser pontual e passa a ser recorrente, percebemos que estamos a atingir
o ponto de não retorno. E aí sim, damos conta que a nossa vida é finita, que as
coisas menos boas não acontecem só aos outros, que talvez ainda seja tempo de
tentarmos viver.
Não sou nem quereria ser,
exceção. Este desabafo na forma escrita mais não é também do que um sincero
“mea culpa”. Vivi intensamente a vida, olhando sempre mais para a frente do que
para o lado ou para trás, apesar de não ter sido, de todo, nada fácil.
E nessa luta constante contra
ventos por vezes bem agrestes, tentei como pude nunca esquecer o lado sagrado
onde sempre estiveram e me apoiaram todos os que amava, amo e amarei
incondicionalmente enquanto viver. A minha Família. Olhando hoje para trás, nem
sempre consigo evitar a nostalgia que tantas vezes me invade. Porém,
conhecendo-me como me conheço, sei que se voltasse a nascer faria tudo de novo
exatamente como fiz até aqui.
Apesar de tantas dificuldades,
tenho muito mais para agradecer à Vida, do que para lhe pedir. Porque sempre me
deu saúde, a força anímica e a coragem suficientes para completamente sozinho e
sem apoio de ninguém vencer os mais difíceis desafios, permitindo-me alcançar
uma a uma todas as metas e objetivos que me propus, por mais inalcançáveis que
muitas vezes aparentassem ser.
Essa mesma Vida que tanto me
ajudou ensinou-me na primeira pessoa a razão Nelson Mandela tinha quando
afirmou que:
- Tudo é considerado impossível,
até acontecer…
José Coelho
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