quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

Na primeira, qualquer cai


Se a pessoa te decepcionou uma vez, pensa duas vezes antes de voltares a confiar nela. Lembra-te que um lobo muda de pelo todos os anos, mas não muda nunca de instinto!

terça-feira, 16 de janeiro de 2024

Amanhã fico triste, hoje não


Quem me conhece minimamente sabe que eu não uso de mentiras e que sou frontal, porque digo sempre o que tenho a dizer cara a cara seja o que for e a quem for, além de que não faço também prática do detestável costume de dar palmadinhas nas costas de qualquer pessoa para fingir amizade e a seguir, quando ela se vai embora, ficar a cortar-lhe na casaca, como tanta gente faz e me tem feito a mim.
É certo aquele ditado que diz: “Cada um dá, o que tem”. Cá continuo no meu tranquilo dia a dia completamente indiferente a todas essas velhacarias e falsidades e a dizer ou escrever o que é por norma a verdade, apenas a verdade e só a verdade.
Hoje vou escrever sobre algo que há muito era previsível mas sempre acreditámos demoraria ainda algum tempo a acontecer. Porém, como os caminhos do Senhor são insondáveis, não demorou em chegar a nova realidade em toda a sua força.
E a primeira consequência foram os sinos da igreja da nossa bonita Beirã que há 80 anos consecutivos tocavam sempre por cerca das onze horas de cada domingo a convocarem os fiéis calarem-se provavelmente para sempre e não voltarem a ouvir-se no Dia do Senhor a anunciarem a missa, muito menos com a ininterrupta regularidade com que se ouviam desde que a igreja foi inaugurada em 16 de Julho de 1943.
Ouvimos apenas, no dia a dia, o dolente repicar que nos diz que mais uma alma Beiranense vai a caminho do céu, ou o bater das horas do relógio que substituiu o velho e avariado mecanismo original na torre da igreja quando foi instalado o computorizado e moderno mecanismo que desde então coordena automaticamente os toques, naquela que foi uma das últimas e excelentes iniciativas do querido e saudoso padre Luís Ribeiro.
Mudam-se os tempos, mudam-se as circunstâncias. Tivemos por isso de aceitar com humildade o possível, mesmo que entristeça. Como dizem os evangelhos há mais de dois mil anos “a vinha é grande e os trabalhadores são poucos”. Poderemos acrescentar hoje que esses trabalhadores do Senhor são muito para lá de poucos e já se contam quase pelos dedos.
Mas a vinha continua grande.
Foram as circunstâncias que obrigaram a redesenhar o mapa dos acontecimentos e tentando manter vivas as comunidades cristãs dentro dos curtíssimos limites do possível, a habitual missa de domingo na paróquia de Nossa Senhora do Carmo da Beirã teve de passar para a subcategoria de missa vespertina a ser celebrada desde então todos os sábados às seis da tarde.
Foi o melhor que se conseguiu, temos de aceitar e dar graças a Deus por haver conseguido providenciar um novo Pastor para guiar dentro dos seus outros inúmeros afazeres o cada vez mais reduzido rebanho cristão desta paróquia da Beirã.
Esse Pastor é o Reverendo Padre Marcelino Marques. Conhecemo-nos em Nisa. Ele a iniciar o seu ministério sacerdotal, eu comandante do posto daquela bonita vila. Curiosamente tivemos algum protagonismo pessoal, cada um a tentar cumprir as suas funções, ou, como o povo diz, cada um a querer puxar a brasa à sua sardinha. Demo-nos cordialmente, resolvemos o que havia para resolver e cada um seguiu o seu percurso de vida.
Pese embora a minha saúde ultimamente não tenha ajudado, continuo a colaborar com ele em tudo o que posso e sei, conforme colaborei com o Rev. Padre Emílio desde 1992, depois a seguir com os Rev.ºs Padres Luís e Tarcísio que em janeiro de 1999 me pediram para fazer a contabilidade da paróquia, tendo sido mandatado oficialmente só em 2003 para o Conselho Económico Paroquial pelo senhor D. Antonino, Bispo de Portalegre e Castelo Branco e sucessivamente renomeado até hoje, 25 anos depois.
Tenho guardados em suporte informático mas também em papel todos os processos que justificam escrupulosamente cada cêntimo de receita, cada cêntimo de despesa, semanais, mensais e anuais. A contabilidade da igreja, das obras de restauro e conservação realizadas, dos donativos, da instalação do relógio e automatização dos sinos, da colocação das luzes LED, das despesas com vencimentos dos sacerdotes e todas as outras.
Ao pormenor, limpinhas, fáceis de entender. Tudo pronto a entregar a quem de direito. E mais. Este cargo no CEP da Paróquia da Beirã está, como sempre esteve, disponível todos os dias e a todas as horas, ao completo dispor de quem me escolheu e nomeou, prontíssimo a entregar a quem se ofereça para me substituir. É só chegar-se à frente porque quem o quiser será muito bem-vindo.
Mas disponha-se também a ser criticado e censurado quando não estiver por perto para poder defender-se. Palavras de reconhecimento ou agradecimento nunca as ouvirá. Indiferente a tudo isso tenho cumprido as minhas obrigações com lealdade, dedicação e empenho.
Nunca cobrei um cêntimo sequer por nada do que fiz. Ofereço desde 1999 gratuitamente os meus serviços e tempo, o meu computador, tinteiros e resmas de papel da impressora, o combustível do automóvel nas deslocações ao banco e às reuniões a Portalegre, a São Tiago, a Mem Soares, a Nisa, a Castelo de Vide, a Marvão e a muitas outras localidades onde os párocos me solicitavam que fosse. Quase sempre sozinho, ou, quando muito, acompanhado apenas e só pela minha esposa.
É mais que verdade que ninguém na sua terra consegue ser profeta. Muitas vezes me senti triste e desmotivado. Muitas vezes também me apeteceu mandar tudo às malvas e até ir embora daqui. Mas a excelente ajuda e a sempre reiterada confiança dos párocos, excelentes guias espirituais e amigos, aliada à minha forte convicção de Missão e Serviço à Comunidade, conseguiram superar sempre a vontade de desistir.
Ajuda-me muito, ao chegar a casa desmotivado, ligar o computador para procurar e reler um poema que foi encontrado na parede de um dos dormitórios para crianças judias no campo de extermínio nazi de Auschwitz:
“Amanhã fico triste… Amanhã! Hoje não… Hoje fico alegre! E todos os dias, por mais amargos que sejam, eu direi sempre: Amanhã fico triste, hoje não”.

José Coelho - Histórias do Cota (Excerto)

- 16. 07. 2023

domingo, 14 de janeiro de 2024

Lugares que povoam a minha memória

Casa da Meirinha - Beirã 

 

Fica para lá da Murta, depois da Anta, quase encostada à Estrada da Herdade como a gente por aqui lhe chama. Foi morada de famílias durante décadas. A última, se bem me lembro, era eu ainda cachopo, foi a numerosa família do ti João e da ti Maria José. O ti João trabalhava “à jorna” na casa do senhor João Dinis e a ti Maria José vinha todos os dias da Meirinha à Beirã – cerca de 2 km – trazer-lhe o almoço à cabeça, com os filhos atrás ou ao colo.

Depois que essa família de lá saiu e veio morar para a aldeia, não me recordo de lá morar mais ninguém. Já agora um pouco de história ainda que reduzida à dimensão dos meus humildes conhecimentos. Chamava-se “à jorna” o trabalho que era pago ao dia sem qualquer outro vínculo que não fosse apenas os dias e o ordenado ajustados pelas duas partes, trabalhador e patrão.

Tanto podia ser um dia só como uma semana ou duas ou três, dependendo do tempo necessário para fazer o serviço. Normalmente eram tarefas exclusivamente agrícolas e sazonais. Cavar ou semear um quintal, uma horta ou uma vinha, arrancar ou colher legumes, sachar um jardim ou uma belga de qualquer coisa, ceifar uma seara, gadanhar uma tapada...

Por sua vez, os trabalhadores com vínculos mais duradouros recebiam ao mês não só o ordenado combinado com o patrão, como também as comedías ajustadas. Não, não confundam com comédias. Eram mesmo comedías com acento agudo no i por se tratar de coisas de comer – géneros alimentares – que eram pagos juntamente com o ordenado e do qual faziam parte integrante.

A esses assalariados permanentes chamava-se “os justos” e os ajustes destes homens eram apenas verbalmente firmados e aceites por ambas as partes, sendo tão ou mais respeitados do que são hoje os que se fazem por escrito. Tinham normalmente a duração de um ano, que se iniciava e terminava de S. Pedro a S. Pedro, ou seja, de 29 de Junho do ano do ajuste a 28 de Junho do ano seguinte mas eram sucessivamente renovados por igual período de tempo enquanto as partes assim o quisessem.

O meu avô José Lourenço e os meus tios maternos, enquanto solteiros, tiveram sempre esse vínculo de justos e assim se mantiveram assalariados por anos sucessivos, décadas até e quase sempre por conta do mesmo patrão. Os ordenados eram pequenos porque cada lavrador pagava o menos que conseguia. Para compensar depois essas fracas pagas e serem capazes de manter por meses ou anos os guardadores dos gados, os ganhões do amanho das terras, os carreteiros das carretas de vacas e os carreiros dos carros de bestas, acresciam os ordenados das tais comedías, que normalmente se compunham de um saco de centeio em grão para moagem e fabrico do pão - só os patrões comiam pão de trigo – uma almotolia com azeite, alguns litros de grão de bico ou de feijão frade – normalmente um alqueire – e dois ou três queijos secos.

Sei isso porque eram essas as comedías que o meu avô trazia para casa no fim do mês, juntamente com a sua magra mesada de justo, no Matinho. Logo no dia seguinte lá tinham que as mulheres ir de talêgo de centeio à cabeça a caminho dos moinhos no rio Sever para trazerem a farinha do pão que alimentava a família todo o mês seguinte. Curiosamente, as pessoas eram aparentemente felizes e não faltava trabalho a ninguém um pouco por toda a parte. Bem diferente dos dias de hoje.

Todas as casas, em todos os lugares, por mais ermos que fossem, eram habitadas como a da Meirinha que ilustra esta prosa. Não se consegue ver na foto, mas ao lado da casa está também um forno de lenha onde era cozido o pão. Poucas são as casas por esses campos que não têm um forno e uma eira por perto, porque eram essenciais à sobrevivência dos seus moradores.

E também uma horta com uma fonte, um tanque ou um poço nas redondezas, para abastecimento de água potável para o seu consumo e regadio dos alimentos que metiam na panela para as suas refeições. Basta-me fechar os olhos e pensar um pouco: na Murta, a eira é também muito perto da estrada antes das casas e o forno era ao lado da casa principal. Um pouco mais acima, na Anta, a eira é no cimo de uma laje e o forno em frente da casa. No Penedo da Rainha, a eira faz parede com a estrada e o forno é ao lado da queijeira. Na Tapada do Cabeço, a eira fica a dez metros da estrada do Pereiro, o forno na empena da casa.

No Cancho de Ruivo, na Torre, no Pereiro, na Broca, no Maxial, no Vale do Cano, no Cabril, na Bica... Em tantos outros lugares da minha freguesia existem estas estruturas, para um imprescindível apoio doméstico às antigas donas de casa, quase sempre mães de numerosas famílias. Jazem hoje por aí abandonadas, quase todas em ruínas, principalmente os fornos de lenha que vão abatendo por força das intempéries e do abandono.

Já as circunferenciais eiras, onde, ano após ano, foram sendo amontoados e debulhados searas e grão, porque construídas sobre o imortal granito, ficarão, como as antas ou dólmens milenares que por aí abundam também, a testemunhar pelos séculos fora os usos e costumes das humildes gentes que por estas bandas conseguiam sobreviver do que a terra dava e serem felizes com o pouco que tinham.

Refém de tão queridas memórias a minha alma só vai deixar de chorar no dia que eu morrer.

José Coelho in Histórias do Cota

(Texto e foto)

Boa semana

 

Às vezes precisamos afastar-nos e ficar algum tempo apenas conosco, para entendermos quem somos no meio dos outros.

Foto José Coelho - Janeiro 2024

quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

Vão-se os anéis, fiquem os dedos


Mais dois dias pelo Lusíadas - Lisboa. A marida na Cardiologia e eu na Ortopedia, cada um a tratar as suas sequelas, made in PDI. Andamos nisto desde 2016 porque a falta de resposta do SNS assim o obriga. Nem vale a pena quase já contar com ele. Fica muito mais dispendioso mas é a nossa opção. Uns vão de férias para as Caraíbas, outros viajam para conhecer o mundo, nós investimos na nossa saúde e bem-estar com a consequente melhoria da qualidade de vida. Regressaremos em Março e Abril...

Foto José Coelho - Sala de espera do Edifício 2 - 10. 01. 2024

quinta-feira, 4 de janeiro de 2024

Sempre na véspera


Eucaristia Vespertina de Ano Novo - Solenidade de Santa Maria Mãe de Deus, na Igreja Paroquial de Nossa Senhora do Carmo - Beirã.


31. 12. 2023

quarta-feira, 3 de janeiro de 2024

Consciente e grato


 

Sei, tenho serena consciência que do mesmo modo que um dia vimos ao mundo sem nada trazer, noutro dia partiremos sem nada levar.
Porque o tempo que nos é concedido, como em tudo no universo, trás sempre consigo princípio e fim.
Sei também, sem dramas, sem medos e sem quaisquer amarguras, que o meu está a aproximar-se da sua última etapa, porquanto o raciocínio, agilidade, força, energia e capacidades cognitivas vão diminuindo, a cada dia que passa.
Não terei sido tão feliz quanto desejava - creio que ninguém é - mas fui o suficiente para convictamente afirmar que valeu a pena ter nascido.
Não tive tudo quanto queria e precisava, mas tive o bastante para olhar para trás e dizer hoje, com absoluta tranquilidade:
- Obrigado Vida, por tudo quanto me deste!

03. 01. 2024

Estou ainda à espera de quê?

C hegado já para lá dos setenta, há uma pergunta que merece ser feita com sinceridade: estou ainda à espera de quê? Esperei quase toda a vid...