terça-feira, 7 de março de 2017

segunda-feira, 6 de março de 2017

Coisas q'escrevi...

Foto que o filho Pedro fez no último Natal. Às vezes fico assim, ausente.
À beirinha dos 65, sinto muitas vezes que ja vivi 130. A sério.



Primeiro classificado o comuna? 



Entrámos a passos largos na recta final do curso. Aparentemente a minha perseverança e se calhar também a minha inocência nos “crimes” que me eram imputados corriam a meu favor. As “bocas” venenosas continuaram a picar-me os miolos pois esse calvário durou do primeiro ao ultimo dia do curso de formação mas batiam de chapa na minha completa e total indiferença. Nem sequer os meus camaradas de turma ligavam também já àquilo. Tive a sorte e o privilégio de nunca ter sentido qualquer animosidade da parte deles, muito pelo contrário. Senti-os sempre solidários nas suas atitudes, tendo havido até um deles que, num secreto desabafo, me sussurrou uma vez: 

- Eu não aguentava o que tu tens aqui aguentado, Coelho. Já me tinha ido embora. Mas não ia sem partir primeiro os cornos a um cabrão destes…

Já muito perto do fim e no decorrer de uma aula enganei-me a colocar o meu número de matrícula ao preencher a dispensa do fim-de-semana. Coisa insignificante. Um hífen onde não devia estar. Ao ver o erro, o sargento aproveitou imediatamente para se atirar a mim ferozmente na presença dos meus camaradas vociferando vermelho de raiva:

- Seu burro! Seu analfabeto! Se não sabe escrever o que anda aqui a fazer?

Já farto de ser espezinhado não me contive que não dissesse:

- Já pedi desculpa. O meu sargento nunca se engana?

O que fui eu dizer!

O homem quase teve uma apoplexia ali na minha frente. Ele já era vermelho por natureza mas naquele dia ficou roxo.

- Vai dar-lhe um treco, pensei.

Mas não. Olhou-me com infinito desprezo e indisfarçada hostilidade para retorquir pausadamente, entre dentes:

- Ponha-se a pau, Coelho. Você comigo não brinca! Olhe que ainda não tem o tacho garantido. Mije fora do penico e quem corre consigo daqui para fora, sou eu. Está avisado!

Garanto-vos que não tomei quaisquer precauções. Não me intimidaram nunca. Sinceramente não me importava nadinha de voltar de novo para as Minas da Panasqueira das quais não me tinha ainda esquecido nem daquela quantidade de amigos impecáveis, os quais, sendo gente sem grande formação académica e cultura, davam lições de humanidade e de respeito pelo próximo que estes senhores fulanos de tal “mandantes” da GNR em momento algum desde que os conhecera demonstravam possuir.

Em vez de me intimidar agarrei-me desalmadamente aos “canhenhos” e estudava muitas vezes até me arderem já os olhos de cansaço. Quase comia aqueles manuais e livros, tanta era a minha força e determinação. Decorei (quase) tudo, de trás para a frente e da frente para trás. Queimei as pestanas mas o resultado foi muito compensador. Quando tiveram início as provas escritas semanais, consegui, graças a Deus, superar, EM TODAS AS PROVAS, a média aritmética do pelotão inteiro. Testes com 17 outros 18 valores, certinhos e direitinhos, teste sim, teste sim. Não havia notas mais altas porque, diziam os bosses, um 18 era o máximo que podiam conceder, pois dali para cima seria considerado saberem os alunos mais do que os mestres, coisa de todo intolerável.

Os “gajos” ficavam estupefactos e as caras deles para minha enorme delícia eram o reflexo da sua íntima irritação perante tais resultados. Ali, se calhar, pensava eu, não podiam meter a unha. Estava lá escrito, preto no branco. Mas mais tarde percebi que para aqueles fulanos valia tudo e não havia impossíveis.

Quero ainda dizer-vos que existe a possibilidade de ser ouvido o testemunho dos meus camaradas de alistamento ainda vivos e de saúde à excepção do camarada Churro da Beira Baixa que faleceu recentemente, para confirmar, quem quiser, tudo aquilo que aqui descrevo e que é apenas e só a integral narrativa dos factos. Tive em conta também o que muitos deles me confidenciaram após terminado o pesadelo do Curso de Formação de raças acerca de outras barbaridades que contra mim foram levadas a efeito quando eu não estava sequer presente para poder defender-me.

E se tudo isso não fosse só por si já suficiente, devo acrescentar que guardo religiosamente como se fossem um tesouro as provas perenes da mais revoltante injustiça humana de que alguma vez fui alvo: Todos os cadernos e manuais, bem como as notas atribuídas a cada teste.

Não fui como me era devido por direito, o primeiro classificado do curso. De forma indecentemente manipulada por quem o podia fazer, passei, em menos de 24 horas, de primeiro para segundo classificado, apesar de ter uma média única e sempre a mais alta de todo o pelotão, de dezassete para dezasseis valores. Muito perto de mim também com excelentes notas mas ligeiramente abaixo das minhas e como segundo melhor classificado do curso, andou sempre um camarada de Santo Aleixo, bom moço e muito bom amigo, o qual, muitas vezes depois, nos anos que se seguiram, comentava para quem o queria ouvir:

- O primeiro classificado com melhor nota do curso era o Coelho. Mas por vingança de quem mandava, podia e queria, meteram-me lá a mim…

Sempre foi um homem com H grande, este camarada. Justo e honesto atè à medula. Em vez de ficar satisfeito sentiu-se também usado numa contenda que não era sua. Aquele primeiro lugar nunca o  envaideceu. Muito pelo contrário. Todos os camaradas instruendos torciam por mim e sabiam que o meu objetivo não era disputar troféus. Era apenas e tão só a fórmula encontrada para conseguir manter-me à tona no curso sem favores de ninguém para combater a canalhice que me rodeou sempre. 

Mais uma vez o “staf mandante” decidira, na sua enviesada justiça, que não iria à tribuna de honra receber o diploma de melhor classificado, um “comuna”.  

E não havendo mais por onde pegar, no último e decisivo teste, “por acaso”, em vez de um 17, tive só um 13. E o segundo classificado passou de imediato para o primeiro lugar, ficando eu em segundo...


José Coelho in Histórias do Cota 

Beirã - Arredores - Para memória futura...

Bonito e ainda quase intacto, o Chafurdão da Meirinha
Foto by José Coelho

domingo, 5 de março de 2017

Coisas q'escrevi...


Esperteza saloia


Insatisfeitos com os fracos resultados no “complot” montado para “desmascarar” os meus “crimes” e provavelmente porque o “material” recolhido não era suficiente nem consistente, foi contactado desta vez de uma forma bem mais subtil e manhosa um outro vizinho íntimo da minha casa e família. O falecido vizinho Francisco Dias que morava paredes meias connosco. De tal modo éramos chegados que foi a minha mãe quem assistiu aos partos da esposa dele no nascimento dos seus filhos e foi a esposa dele quem assistiu aos da minha mãe no meu nascimento e nos das minhas irmãs mais novas. Não havia por isso na Beirã quem pudesse conhecer-me melhor.

E qual foi desta vez a brilhante “estratégia” inventada por aqueles Sherlock’s Holmes aprendizes?

O meu vizinho Chico Dias era vendedor ambulante. Tinha uma tenda de comes e bebes, farturas ou massa frita, petiscos, café e vinhos, os quais vendia de mercado em mercado, de feira em feira, por todo o distrito. Era por isso conhecido e amigo de muitos guardas de toda esta zona. Ao passar por Portalegre num desses dias a tratar de assuntos do seu interesse nas proximidades do quartel, calhou logo ser visto, abordado e convidado para lá ir petiscar com os guardas e beber uns copos.

Estrategicamente – ou não – estava presente nesse improvisado “lanche”, o meu – pouco – excelentíssimo comandante de pelotão. Embebedaram deliberadamente o vizinho Chico Dias com a manha e o intuito de lhe “sacarem” alguma informação “cabeluda” que pudesse ser depois usada contra mim. Contou-mo ele pessoalmente, tim-tim por tim-tim, conforme agora o descrevo.

Enganaram-se uma vez mais.

Primeiro porque na verdade não havia mesmo nada para ser revelado que me pudesse comprometer. Depois, porque o vizinho Francisco conhecia-me, como já disse, desde que nasci, e podia, com quase tanta propriedade como o meu pai falar sobre mim, com seguro e exato conhecimento de causa.  E sentindo-se a ser “apalpado” pelo  astuto tenente e guardas, porque de parvo o Chico Dias não tinha nada, disse-lhes exatamente o contrário do que eles queriam ouvir:

- O Zé Coelho? Ohhhh… Bom cachopinho senhor tenente. Muito bom cachopinho mesmo, pode ter a certeza! É boa gente. Vi-o nascer e conheço o que ali está. Educado, respeitador e inteligente. E a família é tudo gente de trabalho e cumpridora. Vai ter ali um bom guarda, até aposto!

Rimo-nos divertidos os dois quando ele me contou tudo isto em sua casa poucos dias depois de ter acontecido:

- Ó Zé, pá… Os gajos querem-te pôr mesmo a mexer, pá… Se visses o que o gajo me disse de ti, pá!
(O ti Chico falava mesmo assim, ó pá isto, ó pá aquilo).
E continuou satisfeito da sua proeza:
- Mas eu desmenti-o logo, pá! Disse-lhe logo que aquilo era tudo mentira, pá… Mas tu põe-te a pau com eles.

Era uma perseguição orquestrada, odiosa, feroz, mal-intencionada e tremendamente injusta. Mas eu continuava de pé. A lutar com as armas que tinha. A minha idoneidade e o empenho feroz que me punha a estudar até altas horas da madrugada sozinho na sala de aulas para conseguir arrancar notas acima dos 17 valores nos testes semanais que lhes espetava no focinho com íntimo regozijo, conseguindo com o meu esforço ser, até àquela data e sem que eles o pudessem evitar – passe a imodéstia – o primeiro classificado do curso...



José Coelho in Histórias do Cota

Beirã - Arredores - Para memória futura...

A velha Murta, restaurada pelos novos proprietários
Foto by José Coelho

Memórias que resistem ao tempo

N asci no início da década de 50, exatamente a meio do século XX. O mundo estava destroçado por duas guerras mundiais e outra, civil, parede...