terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Coisas minhas publicadas noutros sítios...

A lareira cá de casa - foto by José Coelho


Nunca os invernos me pareceram tão tristes e longos. O vento a uivar pelas frestas que sempre consegue achar nas portas e nas janelas, por mais perfeitas que sejam. O tamborilar monótono da chuva lá fora. O silêncio inquietante das ruas quase desertas onde se sucedem casas com as portas trancadas pela ausência de quem as habitou, janelas às escuras como olhos que cegaram e há muito deixaram de vislumbrar qualquer centelha de luz. Resta o aconchego do lume. Mas até esse, apenas aquece o corpo por fora. Por dentro, a nossa alma continua gelada, tão grande é a melancolia que de tudo isto emana. À nossa volta só abunda agora a solidão. Nem mesmo o vistoso crepitar das chamas e o alegre estalar das brasas em combustão conseguem animar tão silenciosos serões...


José Coelho 
14-2-2015 in facebook

sábado, 11 de fevereiro de 2017

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Coisas q'escrevi...

No canto superior esquerdo da imagem, a varanda do antigo Clube da Beirã
Autor da foto desconhecido


Princípio do fim


Uma excelente novidade vim encontrar quando regressei d’Angola. Já não era o velho candeeiro a petróleo que iluminava os nossos serões. Com muito sacrifício – para variar – os meus pais tinham conseguido amealhar o suficiente para mandarem fazer a instalação elétrica em toda a casa, o que na altura era considerado quase um luxo. Nunca mo tinham dito na correspondência semanal precisamente para ser a surpresa que foi e que de facto me deixou muito agradecido e feliz.

Sempre fui um “devorador” de livros que só podia ler à noite à luz do candeeiro porque o dia tinha que ser  para trabalhar, mas, essencialmente, aquela pequena mordomia da iluminação elétrica era ainda mais necessária à minha mãe para os seus serões de costura, uma vez que durante o dia os outros inúmeros afazeres não lhe deixavam tempo para isso.

Cheguei à terra em vésperas dos santos populares e das fogueiras de rosmaninho que cada família fazia à sua porta em alegres convívios de sardinhadas e caldo verde à mistura com o inevitável pezinho de dança ao som de música de gira-discos ou gravador de cassetes. Tudo o que eu necessitava para me reencontrar com o equilíbrio emocional e a paz de espírito. A Beirã desse tempo tinha um grande grupo de jovens da minha idade e não só. Era uma comunidade muito viva, atuante e participativa.

Aos serões, a “malta” de ambos os sexos juntavam-se em grupos no Clube ou na Sociedade Recreativa, no Largo da Fonte ou à porta da Loja Grande. Havia quem tivesse viola, havia até quem cantasse muito bem, havia enfim, um estilo de vida completamente salutar onde a amizade, a camaradagem e o espírito de grupo imperavam, fazendo de todos nós uma juventude muito unida  e feliz.

Ninguém ou quase ninguém tinha ainda televisão em casa. Qualquer programa de maior interesse era televisionado nas salas públicas já referidas que tinham esse equipamento para utilização coletiva, o que, de algum modo, também contribuía muito para a juventude reunir e conviver diariamente.

Os ecos da Revolução de Abril iam cá chegando mais ou menos ruidosos e com eles começaram infelizmente as tendências agressivas do partidarismo que subtilmente dividiu em claques a malta simpatizante de cada uma das muitas e diferentes opções políticas que se foram perfilando em direção ao Poder. E alguns amigos de uma vida inteira começaram a olhar-se como rivais.

Iniciou-se dessa forma a nova era conquistada na recente manhã de abril e que, em meu modesto entender, não trouxe, nem pouco mais ou menos, o que se perspetivava em termos de bem-estar coletivo e mesmo em termos de futuro. Muito e muito pelo contrário. Sem que ninguém o previsse ou pudesse imaginar, a Beirã começou a ruir num efeito dominó imparável e demolidor. A menina dos olhos do concelho de Marvão, iniciou ali o inexorável e irreversível processo da sua lenta agonia.

Primeiro foram os agentes da Pide que fugiram ou foram presos e as suas famílias tiveram que regressar às origens, deixando para trás as primeiras casas desabitadas. Vizinhos e amigos independentemente do que os ligava ao anterior regime ou ao que faziam no exercício da sua profissão, eram famílias inteiras que davam vida à aldeia e ajudavam a sustentar a economia local.

Depois foi o processo de integração de Portugal na União Europeia. A alfândega fechou e a circulação ferroviária reduziu tanto que mais de dois terços dos funcionários da CP foram colocados noutras estações longe da Beirã. Os escritórios dos despachantes oficiais também deixaram de ser necessários e a sombra do desemprego começou a pairar sem deixar lugar a dúvidas sobre muitas famílias que ali tinham o seu ganha-pão há décadas. Os que não eram de cá foram pura e simplesmente embora também para as suas terras em busca das suas raízes para ali reconstruir ou começar de novo as suas vidas. E para trás ficaram mais casas desabitadas um pouco por todas as ruas e becos.

Em consequência da abertura das fronteiras foi também extinta a Guarda-Fiscal. Outra machadada na já periclitante vida económica e social da aldeia que assim ia perdendo em marcha acelerada e cada vez mais o habitual movimento de pessoas e mercadorias.

Mas não foram só os funcionários da Estação a serem “expulsos” por tão estranho “progresso” trazido pela santa revolução de abril. Antes da sangria desatada que quase esvaziou de gente a aldeia, eu próprio fui dos primeiros Beiranenses a ter que migrar para outras paragens. A oferta de trabalho até na agricultura começou por aqui a escassear e eu queria constituir família, assentar. Precisava para isso de arranjar, antes de tudo, o emprego sólido e seguro que me permitisse colocar pão na mesa para a família, para poder então dar o passo seguinte. Casar.

Em boa verdade, a grande causa da minha necessidade de partir para longe à procura de trabalho nessa época, não foi apenas a falta de oferta de emprego por estas bandas. Foi também e sobretudo o tal partidarismo provinciano que já referi e se transformou em fanatismo para muita gente. Pessoas que até ali tinham sido amigas, não toleravam de forma nenhuma que amigos seus ou até mesmo familiares próximos pudessem ter opções diferentes.

A revolução libertou-nos da velha e caduca ditadura do estado novo mas para muitos pseudo-democratas de aldeias como a Beirã, quem não fosse da sua “cor”, era um alvo a abater. E, para nossa imensa infelicidade todos estes anos depois, ainda prevalecem muitas mentalidades dessas. Sabem lá elas definir o que é democracia! Sabem lá elas que a sua liberdade termina exatamente… Onde a dos outros começa! Democratas? Deixem-me rir. Tenho tantas coisas giras para vos contar…


José Coelho in Histórias do Cota

In memorian...

Faleceu hoje o último merceeiro da minha velha Beirã. Era na sua mercearia que se vendiam estas lembranças que ele mandava fazer. Foi onde e a quem comprámos, há muitos anos, esta e outra caneca que guardamos com muito empenho. Descanse em paz, senhor João.

Miminhos de um(a) neto(a)...


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Coisas que leio...

Foto by Pedro Coelho



Envelhecer



Entra pela velhice com cuidado,

Pé ante pé, sem provocar rumores

Que despertem lembranças do passado,

Sonhos de glória, ilusões de amores.




Do que tiveres no pomar plantado,

Apanha os frutos e recolhe as flores

Mas lavra ainda e planta o teu eirado

Que outros virão colher quando te fores.




Não te seja a velhice enfermidade!

Alimenta no espírito a saúde!

Luta contra as tibiezas da vontade!




Que a neve caia! o teu ardor não mude!

Mantém-te jovem, pouco importa a idade!

Tem cada idade a sua juventude.



Bastos Tigre

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Coisas q'escrevi...

Imagem copiada do Google


Entre o espanto e o encanto


Ambiente geral em meu redor, quando regressei de África:  Tudo doido com a liberdade recém-conquistada. Por qualquer casca d’alho juntava-se o pagode aos gritos de punho no ar em qualquer lugar público e…

“O PO-VO, ES-TÁ, COM O É-ME-É-FE-Á”

Ou então…

“FAS-CIS-TA, ES-CU-TA, O PO-VO ES-TÁ EM LU-TA”

Os então denominados “carrascos do povo” como por exemplo os ex-agentes da PIDE, os seus informadores conhecidos ou simplesmente suspeitos de o serem, eram agora o objeto predileto da sanha democrática de toda a gente, a par deste ou daquele indivíduo que, se fosse rico, era imediatamente acusado de “fascista”. Passou-se da passividade institucional antes vigente para um exagero de atitudes incompreensível. Do oito para o oitenta. Os “pré-perseguidos” transformaram-se em "pós-perseguidores" piores e mais cruéis, mais intolerantes e AINDA MAIS prepotentes do que aqueles que perseguiam, em nome de uma estranha justiça da qual se arvoravam juízes, por conta da Liberdade, da Democracia e da Revolução.

Infelizmente a esmagadora maioria, aqueles que não sabiam ler nem escrever, tornaram-se fáceis e manuseáveis instrumentos, perfeitos “maria-vai-com-todas” crédulos e ingénuos a quem muitos conseguiram mesmo fazer acreditar que as herdades e as quintas de todo o país iam ser divididas em quadradinhos para distribuir por todo o bicho careto em partes iguais, com um chavão usado até à exaustão pelos candidatos ao poder e cujo slogan berravam em tudo quanto era sítio:

“A TERRA É DE QUEM A TRABALHA”

A seu tempo e quando as minhas “histórias” lá chegarem, irei descrever qual foi o meu papel no meio desse turbilhão de excessos, porque, como não podia deixar de ser, fui também envolvido nesse processo de mudança e assumo-o sem qualquer hesitação ou constrangimento, pese embora a verdadeira versão dos factos seja muito diferente daquilo que muita gente sabe, ou que julga que sabe. Mas cada coisa a seu tempo e lá haveremos de chegar, porque eu quero tentar seguir a cronologia lógica e temporal mais aproximada possível de todos os factos a narrar.

Assim, enquanto meio mundo cantava a Grândola Vila Morena, o outro meio mundo tentava perceber o que estava a acontecer, assentar os pés no chão, manter a cabeça no lugar, não se meter em euforias parvas e situar-se naquela nova e desconhecida realidade em que se havia transformado o país.
Era nessa segunda metade que eu me sentia inserido. De política, não percebia um corno. Ainda hoje não percebo muito, mas pronto, aceito que sou um pouco mais esclarecido, embora tenha, acerca de alguns políticos, sérias reservas de credibilidade. Sejam eles da cor que forem. Passados que são já tantos anos, assistindo aos sucessivos escândalos e desigualdades que prevalecem e que hoje são muito maiores e mais aberrantes do que antes de 1974, não resta lugar para grandes dúvidas.

Também na altura não percebia bem porque eram tão hediondos os Pides uma vez que cresci a conviver com eles, com as suas esposas e a brincar com os seus filhos da minha idade, dos quais guardo boas recordações. Eram pessoas normalíssimas, iguais a nós, apenas ganhavam maiores ordenados e viviam melhor que a maioria das pessoas da aldeia. Quanto aos ricos, sempre os conheci. Eram eles que nos davam trabalho e nos pagavam as jornas. Que mal fazia haver ricos?

Mas… Adiante!

Ao regressar a casa depois de tanto penar, a última coisa que me importava mesmo era a revolução, os cravos nas espingardas ou as gaivotas que voavam, voavam. O que eu queria e precisava mesmo era de paz, de sossego e de me “encharcar” nos afetos da minha família, da minha namorada e dos amigos verdadeiros que cá deixara. Alguns, infelizmente, já não pude abraçar, com imensa pena e desgosto, como por exemplo o meu inseparável e querido amigo Francisco Viegas que falecera inesperadamente com uma crise cardíaca, alguns meses antes. Era um daqueles amigos de confiança, mais irmão do que amigo, e não, não é por já ter morrido que digo que era muito boa pessoa. Quem o conheceu sabe de quem e do que falo ao referir-me a ele.

E as minhas irmãs? Como eu as adorava! E adoro ainda hoje. Estavam tão diferentes. A Adelina estava uma senhora. A Luz até já tinha maminhas, quem diria… Era apenas uma miudita franzina quando eu abalei pr’angola! E a Joaquina? A Caçulinha estava uma mulherzinha também… Que saudades eu tinha passado das três. Sempre fomos muitíssimo bem unidos, amigos e companheiros, quatro verdadeiros irmãos à moda antiga a conseguirem manter sempre intactos os laços de fraterno carinho.

Também a minha companheira, a paciente amiga que me atura desde esse tempo até hoje, a excelente pessoa e extremosa mãe dos nossos filhos. De 1971 até hoje e com projeto aprovado para outros tantos anos de vida em comum, não é preciso acrescentar muito mais! Está tudo dito.

Depois, os meus pais! Os meus queridos progenitores. Prometi a mim mesmo nesse tempo e parece-me ter conseguido cumprir, que jamais me afastaria deles. Na infinita solidão do Maiombe descobri quanto os amava, o quanto precisava do seu afeto e de me sentir seguro debaixo das suas protetoras asas. E não é pieguice, não. Acho que todos nós, filhos, e particularmente em momentos de sofrimento, somos assim. Corremos para o colo dos nossos pais se os temos por perto, corremos ao seu encontro no íntimo dos nossos corações se os temos longe, corremos no silêncio do impossível se já os perdemos. Mas é para lá que todos corremos sempre. Não é por acaso que nos momentos de dor profunda exclamamos: - Ai, minha Mãe!

Tanta coisa eu aprendi, em apenas 27 meses da minha vida...


José Coelho in Histórias do Cota

Memórias que resistem ao tempo

N asci no início da década de 50, exatamente a meio do século XX. O mundo estava destroçado por duas guerras mundiais e outra, civil, parede...