sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Os Santinhos

Imagem gerada pelo Microsoft Copilot

Aproxima-se o Dia de Todos-os-Santos e, com ele, uma tradição antiga que felizmente ainda resiste em muitas aldeias e vilas do nosso país. Na minha região chamamos-lhe "pedir os Santinhos". Noutras terras é conhecido por "pedir o pão por Deus". O nome muda, mas a tradição é a mesma: grupos de crianças percorrem as ruas, batem às portas e recebem aquilo que cada família pode oferecer.
Lembro-me de outros tempos, quando as aldeias estavam cheias de vida e de crianças. Nessa altura, os Santinhos eram aguardados com alegria. Os mais pequenos saíam cedo de casa, de saco na mão, e percorriam as ruas numa animação contagiante.
Em Nisa, onde vivi e trabalhei durante alguns anos, ouvi muitas vezes os miúdos entoarem a antiga cantilena: "Ó senhora dê-me os santos/ por alma dos seus defuntos/ lá estarão na Santa Cruz/ para sempre amén Jesus."
Era muito mais do que um simples pedido de guloseimas. Havia ali uma ligação à memória dos que partiram, ao espírito de comunidade e à partilha entre vizinhos.
Hoje, porém, os tempos são outros.
As aldeias que outrora ecoavam com risos de crianças conhecem agora um silêncio diferente. Onde havia numerosas famílias, há casas fechadas. Onde havia berços, há saudades. Em muitas localidades do interior, há cem funerais por ano e apenas meia dúzia de baptizados.
A frase pode não ser uma estatística rigorosa, mas retrata uma realidade que todos reconhecemos. Mesmo assim, quem cá permanece continua a honrar a tradição.
Dias antes de Todos-os-Santos, muitas famílias começam a preparar aquilo que vão oferecer. Há quem faça bolinhos caseiros. Há quem guarde castanhas, nozes, avelãs, romãs ou maçãs. Outros compram rebuçados, chocolates ou pequenas guloseimas.
Muitas vezes, por detrás dessas ofertas simples, esconde-se uma generosidade que poucos imaginam.
Não são raras as situações em que pessoas de idade avançada, vivendo apenas da sua reforma, fazem questão de ir à mercearia comprar qualquer coisa para dar os Santinhos. Não porque lhes sobre dinheiro. Pelo contrário. Porque entendem que abrir a porta e partilhar o pouco que têm faz parte daquilo que sempre aprenderam.
Não dão o que lhes sobra.
Dão o que podem.
E, talvez por isso, custe tanto assistir a certas cenas.
Quem mantém viva esta tradição conhece bem a expressão de desilusão de algumas crianças quando recebem fruta, castanhas ou bolinhos em vez de moedas. Muitas já nem disfarçam aquilo que procuram. Querem dinheiro.
E no dia seguinte, junto dos contentores do lixo, surgem maçãs, castanhas, bolachas e outras ofertas ainda dentro dos sacos onde foram entregues com carinho.
É uma imagem que entristece.
Não pelo valor material daquilo que foi deitado fora. Uma maçã vale pouco. Um punhado de castanhas também.
O que tem valor é o gesto.
Porque cada uma daquelas ofertas representa alguém que pensou nos outros. Representa o cuidado de quem preparou e escolheu a melhor fruta, comprou os rebuçados ou acendeu o forno para fazer alguns bolinhos.
Quando esses presentes acabam abandonados no chão, não é apenas comida que se desperdiça. É uma manifestação de generosidade que fica sem resposta.
E a mesma tristeza nos invade quando vemos alimentos oferecidos em campanhas de solidariedade serem deitados fora. Quantas vezes aqueles produtos foram comprados por pessoas de poucos recursos? Quantas vezes representam um pequeno sacrifício de quem conhece bem as dificuldades da vida, mas ainda assim não consegue ficar indiferente às necessidades de quem tem menos?
Talvez seja por isso que os Santinhos continuam a ter significado. Não pelo que se recebe. Mas pelo que nos ensinam.
Ensinam que a partilha vale mais do que a abundância. Que a generosidade não depende da riqueza. Que um gesto simples pode transportar consigo uma enorme carga de humanidade. E recordam-nos uma verdade que nunca deveria cair no esquecimento: há ofertas cujo valor não está no que custam, mas no coração de quem as dá.
Enquanto houver quem abra a porta com um sorriso e um saco de castanhas na mão, enquanto houver quem faça questão de partilhar um pouco do que tem com os outros, a tradição dos Santinhos continuará viva.
Porque, no fundo, os Santinhos nunca foram um negócio.
Foram, e continuam a ser, uma lição de comunidade, de memória e de gratidão.

Bom Fim de Semana e Dia dos Santos

À luz discreta de um candeeiro e no silêncio da noite, continua vivo o meu velho vício: ouvir a vida, recordá-la e transformá-la em palavras...