Expressões como “Se fosse agora, não fazia igual” ou “Se eu soubesse o que sei hoje” tornam-se recorrentes quando o passado é revisto sob a luz da experiência. Reconhecemos então as pequenas e grandes decisões que poderiam ter sido diferentes mas que sucessivamente foram sendo adiadas. Essa atitude não distingue idades, culturas ou geografias; é a tendência humana, quase instintiva de complicar o que é simples e de valorizar pouco o milagre de estar vivo. Enredamo-nos em preocupações, exigências e ansiedades, esquecendo o essencial: desfrutar a vida com serenidade e gratidão.
Esta inércia individual manifesta-se também de forma coletiva. A negligência com que tratamos o planeta é notória: poluímos, esgotamos recursos naturais e observamos, muitas vezes passivos, o desenrolar de catástrofes ambientais. Sabemos que muitos dos problemas eram evitáveis, mas a comodidade e a crença de que “amanhã Deus dará” perpetuam atitudes irresponsáveis. Ignoramos o impacto das nossas ações presentes no futuro, muitas vezes por uma falsa sensação de segurança ou por uma confiança infundada na abundância dos recursos.
Nos relacionamentos humanos, a indiferença revela-se em proporções dramáticas. As guerras, a devastação e a dor dos milhares de refugiados e mortos frequentemente parecem distantes, como se fossem realidades paralelas. O sofrimento, principalmente das crianças que conhecem apenas o caos, é uma ferida aberta na consciência coletiva. No entanto, para muitos, basta mudar de canal para afastar o incómodo. A ética do “não faças aos outros o que não gostarias que te fizessem” é vista como ingenuidade, quando, na verdade, representa um valor fundamental para uma convivência justa.
Receber quem foge do horror é um gesto raro e a hipocrisia reina quando se privilegiam interesses económicos, poder e ganância em detrimento do bem comum. As guerras, em última análise, servem a poucos, enquanto perpetuam a indústria bélica e o sofrimento de muitos.
Entretanto e completamente indiferente ao sofrimento dos povos mergulhados em guerras, logo no dia a seguir ao de Todos-os-Santos o fenómeno consumista instituído inicia a sua corrida frenética do Natal: anúncios aos milhares, músicas repetitivas, lojas apinhadas de brinquedos e doces. Quando chega o dia festivo, muitos já estão exaustos, saturados de tanto “espírito natalício” artificial e comercializado. O verdadeiro sentido da celebração perde-se completamente, entre o consumo e a nostalgia.
Talvez seja chegada a hora de romper esse ciclo. O outono pode e deve ser um convite à introspeção, à empatia e à ação concreta. Viver o presente com consciência, valorizar os pequenos momentos, cuidar do planeta e uns dos outros, são desafios urgentes, transversais a toda a humanidade. Se conseguíssemos, pelo menos uma vez, viver cada dia como se fosse o último, talvez o balanço anual nos trouxesse menos arrependimentos e mais paz.
O outono ensina silenciosamente que o tempo não espera. A urgência não é apenas para os grandes feitos, mas para os gestos simples que, quando somados, transformam o mundo. Valorizar o agora e agir com consciência, são caminhos para uma vida mais plena. Que este outono seja então o ponto de partida para uma nova atitude: viver com propósito, simplicidade e humanidade.
José Coelho - Texto e foto
